Um investidor e o dono de uma startup fictícia se olham
Foto: pathdoc/ Shutterstock.com

Como o corporate venture capital está mudando a relação entre startups e grandes empresas

Enquanto os volumes globais nessa modalidade crescem, os investimentos na China e nos EUA, os mercados mais óbvios, vêm diminuindo, abrindo espaço para outros

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Cresce cada vez mais o conceito de corporate venture capital (CVC), em que empresas de grande porte criam seus próprios hubs de inovação para fortalecer o ecossistema pré-existente ou investir em novas avenidas de crescimento – talvez seja esta a grande diferença para o venture capital, aliás, uma motivação estratégica por trás dos negócios, para além da financeira. E à medida que o volume geral de aportes cresce, aumentam também as fatias de mercados ainda pouco explorados, como o brasileiro.

Um estudo de 2020 da plataforma de inteligência CB Insights mostra justamente o crescimento do mercado de CVCs no mundo, que movimentou US$ 57,1 bilhões em 2019 contra US$ 17,9 bilhões em 2014, um avanço de 218,9% (a participação do Brasil correspondia a cerca de US$ 157 milhões em 2019, mostram dados do Distrito Dataminer). Do total, US$ 10,6 bilhões, ou 18,5%, foram levantados por iniciativas de inteligência artificial.

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Também chama atenção o fato de que, enquanto os números gerais crescem, os aportes para empresas da China e do Silicon Valley, nos Estados Unidos, vem diminuindo em proporção. O movimento mostra, pelo menos por parte das multinacionais, uma busca por produtos de mercados menos explorados, como o brasileiro.

O relatório Corporate Venture Capital 2020, elaborado pelo Distrito em parceria com a Valetec Capital, mostra que esse caminho já está sendo trilhado: 65,8% das iniciativas do gênero foram realizadas por companhias multinacionais com operações locais, contra 34,2% de empresas brasileiras.

Aqui entram empresas como a Visa, com o seu Programa de Aceleração, e a Telefónica, dona da Vivo, que possui o hub de inovação Wayra. A segunda, inclusive, existe desde 2012 por aqui e já apoiou mais de 75 empresas como a Gupy, que hoje é responsável por todo programa de recrutamento da Vivo.  

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Em termos de volume de investimentos – e para a surpresa de ninguém – os setores financeiro (17,8%), de varejo (16,4%) e de tecnologia (15,1%) lideram os aportes. O setor de saúde, 8,2% do bolo, também vem se destacando. Quando analisado o número de acordos por segmento, fintechs e adtechs se destacaram nas preferências das corporações. 

E na prática, como isso funciona? O exemplo da Gupy e da Vivo nos mostra algo importante. Especialistas ressaltam que os esforços das grandes empresas costumam estar sempre conectados com os KPIs, ou indicadores-chave de desempenho da companhia, já mirando um crescimento em áreas específicas.

Mesmo assim, isso não quer dizer que todas iniciativas apoiadas precisam necessariamente atender o core business da companhia. Não por acaso, soluções financeiras, de logística, de tecnologia são buscadas essencialmente por todos, já que ajudam a fortalecer o negócio em diversas frentes.

A CashMe, startup gestada dentro da incorporadora e construtora Cyrela, é um exemplo disso. Trata-se de uma fintech, hoje subsidiária da companhia principal, que realiza empréstimos para outras construtoras, para condomínios e também para pessoas físicas, utilizando imóveis como garantia.

Gestar empresas internamente não é o único caminho das grandes corporações. O investimento em startups nos estágios iniciais de sua caminhada também faz sentido para essas organizações. Dados do Distrito mostram que cerca de 74% dos aportes de CVCs no país foram para companhias ainda neste estágio.

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O que não quer dizer, segundo o estudo, que estes investimentos vão necessariamente se transformar numa incorporação completa das startups pelas grandes. Pelo contrário, apenas 20% das empresas investidas acabam sendo adquiridas completamente

A conclusão a que se chega é que não existe receita de bolo. A partir da necessidade de empreender e buscar novas soluções, o que é imperativo, companhias de grande porte possuem vários caminhos para fazer com que as demandas atuais sejam atendidas e que novas ofertas sejam desenvolvidas.

Quem não se lembra, por exemplo, da parceria entre o Banco Votorantim e o Neon? Banco tradicional e fintech se juntando para tirar o melhor das duas plataformas. Ou do Next, criado pelo Bradesco para atacar o mesmo mercado? Há sempre mais de uma forma de conquistar o resultado pretendido.