Revolução Pix: após superar obstáculos como as tentativas de fraude, a chegada do Pix Garantido pode criar cenário de crédito mais inclusivo
Ilustração: Felipe Mayerle
Economia

Revolução Pix: após superar obstáculos como as tentativas de fraude, a chegada do Pix Garantido pode criar cenário de crédito mais inclusivo

Usos criativos do Pix, seja para o bem ou para o mal, demonstram a rápida adoção do formato de pagamentos instantâneos, que promete ainda trazer maior acesso a linhas de crédito

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Uma das mais curiosas evidências da facilidade de adoção do Pix no Brasil pode ser percebida em um tipo de transação muito específica: envios de pagamentos ínfimos, de apenas um centavo. Dados coletados entre as empresas associadas da Zetta mostraram que em abril de 2021, poucos meses depois do lançamento oficial do Pix no Brasil, foram feitas quase 1 milhão de operações com o menor valor permitido pela plataforma. O motivo? Aproveitar o campo de “descrição” da transação Pix para mandar recados para a conta recebedora, como uma forma de flerte ou de pedir desculpas para reatar relacionamentos.

A prática, que ficou conhecida nas redes como “Pix Tinder”, evidencia tanto a criatividade do brasileiro – que percebeu que o Banco Central não havia imposto nenhum tipo de possibilidade de bloqueio de recebimento Pix  – quanto o rápido entendimento do público sobre como usar a plataforma, ainda que de modos inesperados.

No entanto, como uma faca de dois gumes, o mesmo conforto que tem transformado o Pix em ferramenta de flerte também tem deixado algumas pessoas receosas com um aumento dos roubos, assaltos e sequestros com grande interesse em acessar celulares desbloqueados. Isso porque os criminosos estavam conseguindo, por meio dos celulares furtados, ganhar acesso às contas bancárias ou carteiras digitais das vítimas para fazer transferências via Pix para outras contas.

De acordo com Ricardo Pandur, gerente sênior de estratégias e negócios da Accenture que tem acompanhado o cenário global de pagamentos instantâneos, ninguém fora do Brasil tinha feito uso dos pagamentos instantâneos como alternativa ao Tinder, da mesma forma que roubos especializados no formato, que ficaram conhecidos como golpes “limpa-contas”, também não tinham sido verificados anteriormente. “A criatividade é uma característica muito marcante nossa, para o bem e para o mal”, refletiu o especialista sobre o ineditismo das duas práticas.

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O risco, nesse ponto, não tem a ver com uma fragilidade do método de pagamento ou da plataforma do Pix, ressalta Walter Faria, diretor adjunto de serviços da Federação Brasileira de Bancos (FEBRABAN). “As tentativas de fraudes virtuais registradas com o Pix foram identificadas como ataques de phishing, que usam técnicas de engenharia social para enganar o indivíduo de maneira que ele forneça informações confidenciais, como senhas e números de cartões, e não tem origem em brechas do sistema, que é seguro”, reforça.

Para os especialistas consultados pelo LABS, as medidas que já foram tomadas pelo Banco Central desde abril de 2021 – como o estabelecimento de limites para transações Pix noturnas, limites para transações para contatos desconhecidos e até um máximo diário de transações Pix que podem ser feitas por uma determinada conta – tendem a mitigar o risco de aumento dos assaltos interessados em “limpar-contas” via Pix. “Estes são os efeitos inesperados quando se adota uma nova tecnologia. Trata-se de questões de segurança digital que serão fundamentais de serem discutidas nos próximos anos, não só para o Pix, mas para todos os serviços digitais”, acredita Lauro Gonzalez, pesquisador, professor e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Na mesma linha, Pandur frisa que há um ciclo de maturidade esperado para o Pix como um produto financeiro, e a expectativa é que no futuro sejam feitas melhorias mais avançadas para garantir a segurança das transações. “Precisamos de melhores algoritmos de prevenção à fraude nas instituições participantes, usando a geolocalização, padrões de comportamento, se a transação é para um contato novo ou não, entre outros mecanismos”, elenca o especialista da Accenture, citando como exemplo o caso da Zelle, rede de pagamentos digitais nos EUA que aposta em um triplo fator de autenticação para transações inéditas na conta dos usuários.

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O dilema que tanto reguladores como instituições precisarão resolver reside no equilíbrio entre inserir novas medidas de segurança sem impactar a experiência de uso do Pix como uma plataforma de pagamentos. “Quanto mais fácil a experiência, maior é a chance de existirem fragilidades que podem se transformar em brechas de segurança para o mau uso por oportunistas. Em contrapartida, quanto mais forte a segurança, pior tende a ser a experiência do usuário”, pondera Willer Marcondes, sócio e especialista em finanças da PwC.

Pix aponta para futuro “cashless”, com menos dinheiro em espécie

Mesmo com os desafios e usos inesperados, o Pix segue sendo um sucesso praticamente incontestável no país e um “benchmark em nível global”, segundo João Bragança, economista e consultor financeiro da Roland Berger, por um motivo em especial: o que ele chama de “benefício brutal” da eliminação dos custos de emissão de papel moeda e das tarifas ao consumidor final.

Não por coincidência, ter menos dinheiro em espécie em circulação é um interesse comum tanto das instituições financeiras quanto dos reguladores, e a estimativa da PwC é que se tenha cada vez menos moeda física em circulação. Seria a chegada de um futuro “cashless”, sem tanto dinheiro em espécie e mais focado no uso do dinheiro de forma eletrônica. “É que circular dinheiro na economia tem um custo alto”, aponta Marcondes. Além do investimento na logística de fazer a moeda chegar às mais diferentes cidades do país, via carro forte ou até mesmo por barco, existe também o custo envolvido na manutenção de caixas eletrônicos, com a impressão e o eventual extravio de notas. “Existem estudos que contabilizam esse custo entre 1 a 2% do PIB do país”, rememora o executivo.

Além da economia, formatos digitais como o Pix também ajudam a simplificar os controles dos órgãos reguladores, dificultando a lavagem de dinheiro ou remessas remotas, por exemplo. Tanto é que a estimativa é que produtos como o Pix Saque (que permite fazer um Pix para um estabelecimento e receber o valor total em dinheiro em espécie) e o Pix Troco (que permite fazer um Pix para um estabelecimento e receber parte do valor total em dinheiro em espécie) tenham sucesso inversamente proporcional ao do Pix, aponta Bragança. “Haverá menos necessidade de papel moeda conforme o Pix tiver mais força”, antecipa.

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Um menor uso, contudo, raramente significa extinção, e dificilmente um formato de pagamento acaba com o outro, defende Erika Daguani, vice-presidente de produto do EBANX, lembrando tanto do cheque quanto do dinheiro em espécie, que seguem em uso, ainda que de maneira menos relevante. “O que acontece é que os novos meios de pagamento canibalizam os que já existem”, analisa a executiva, que tem mais de 20 anos de experiência no setor financeiro.

Assim, formatos que realizam transações de maneira não instantânea, como a TED e a DOC no Brasil, devem se manter importantes especialmente no cenário de negócios, para transações B2B que tem tíquetes médios mais altos, em torno dos R$ 30 mil, explica Pandur. Contudo, para verticais de negócio onde a capacidade do pagamento ser processado de modo veloz seja um diferencial, a tendência é que exista uma migração dos pagamentos em boleto para o Pix

“Para o setor de games, por exemplo, o boleto não faz tanto sentido, porque é preciso esperar a compensação do pagamento para jogar, o que não combina com o imediatismo do jogador”, analisa Daguani, lembrando da possibilidade de inclusão de consumo que o formato pode trazer para algumas verticais específicas. “Apesar de todo o inconveniente, o boleto foi por muito tempo a única forma que muitas pessoas tinham para fazer o pagamento. Agora, o mundo digital ganha novas possibilidades de meios de pagamento, trazendo um novo público para dentro do mundo digital”, avalia.

Pix Garantido poderá alterar percepção de vantagem dos cartões de crédito

No horizonte de planos futuros, há uma nova modalidade de Pix que tem deixado os analistas apreensivos. Trata-se do Pix Garantido, formato planejado pelo Banco Central que permitirá parcelar um pagamento via Pix de maneira semelhante ao que acontece com os cartões de crédito.

Diferente do Pix Agendado, que pode ser programado para acontecer em um dia e horário específico caso haja saldo na conta pagadora, o Pix Garantido poderá ser feito por meio de instituições financeiras habilitadas, que serão responsáveis pela “garantia” de que o pagamento será feito nas datas acordadas no momento do parcelamento caso a conta pagadora não tenha fundos suficientes.

“Quando o Pix Garantido for operacionalizado, acredito que o cartão de crédito continuará existindo, porque eu quero os benefícios do cartão – como as milhas, o acesso à sala VIP do aeroporto – mas as taxas de transação e as milhas certamente serão pressionadas, o que pode retirar valor dessa cadeia de pagamentos”, analisa Bragança.

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A pressão, no entanto, também tem caráter inclusivo, reforça Rafaela Nogueira, economista-chefe da Zetta. Afinal, considerando que praticamente metade da população brasileira não tinha acesso a cartão de crédito de acordo com a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE de 2017/2018, a chegada do Pix Garantido poderia reduzir essa desigualdade. “É uma chance de corrigir as distorções atuais que acabam por limitar o acesso a esse produto para uma população de menor renda, chegando a um público consumidor maior, que o cartão de crédito ainda não conseguiu atingir”, prevê a economista, que também antecipa a possibilidade de crescimento nos negócios com a chegada da modalidade parcelada do Pix. “Sabemos que o brasileiro, por questões econômicas e culturais, gosta de parcelar as compras, e ao permitir o parcelamento de compras de forma mais eficiente e simples, o Pix Garantido tem o potencial de alavancar o uso do Pix no comércio”, acredita Nogueira.

Ainda que a ameaça do Pix Garantido aos cartões de crédito seja real, Daguani enxerga também um potencial de aumento de concorrência e de ampliação da oferta de linhas de crédito para uma camada da população que anteriormente não conseguia ser contemplada. “Quer dizer, o que existe por trás do Pix Garantido é também uma linha de crédito, que traz para a mesa uma parcela muito relevante da população que talvez não precise de uma linha de crédito robusta e sofisticada”, detalha. “Se os cartões não forem capazes de atender essa parcela de público, o Pix conseguirá”, acredita a executiva do EBANX.

Horizonte infinito de futuros

Quando convidados para imaginar os impactos do Pix no futuro próximo, muitos especialistas titubearam. Com tantas novidades ainda por vir, era compreensível a hesitação. “O Pix apresenta inúmeras possibilidades, o que torna quase impossível esse exercício”, confessou Nogueira, da Zetta.

O que parece claro, contudo, é que o Pix será parte de um futuro de pagamentos global que deverá ser bastante pautado pela instantaneidade dos pagamentos. Estimativas da PwC dão conta de um potencial de impacto em pagamentos tradicionais, como DOC, TED, boleto e até o quase finado cheque, mas nenhum destes formatos deverá “morrer” da noite para o dia.



O conforto do público brasileiro com o Pix também parece ser reflexo de uma movimentação muito didática do Banco Central junto da mídia nacional, explicando com detalhes o funcionamento do novo método de pagamento por meio de sites, presença na imprensa, vídeos informativos e até estatísticas abertas sobre a adoção do formato.

“O Pix ficou claro muito rápido e foi muito atrativo para um segmento de usuários que pagavam tarifas elevadas, fosse em transações TED ou nas taxas de pagamento das maquininhas que são cobradas dos pequenos empreendedores. O benefício é claro, imediato, fácil de entender”, frisa Bragança.


Levando em conta o efeito catalisador da pandemia na sua adoção especialmente entre uma camada de brasileiros que pode experimentar seus benefícios e praticidade com o recebimento do Auxílio Emergencial, o impacto social do Pix de inclusão financeira e de consumo segue sendo mencionado como o principal fator do sucesso e da revolução causada por ele. “O que vimos com o Pix só foi possível em um mercado como o Brasil, onde o brasileiro têm preferências que o tornam um cliente digital, mesmo aqueles que têm uma idade mais avançada”, contextualiza Bragança, citando a massiva presença de smartphones e a elevada penetração do WhatsApp no país, que está presente em 99% dos aparelhos do país.

Para o curto prazo, a expectativa é que o Pix dobre o volume de uso em compras em lojas de e-commerce a cada ano, com crescimento médio de 95% até 2025, segundo projeções da AMI. Já no pensamento de longo prazo, a decisão do Banco Central de se posicionar não só como um regulador, mas como um operador da infraestrutura do Pix promete fazer com que as próximas novidades estimadas no horizonte de futuro do meio de pagamento sigam com forte adoção do público brasileiro, o que deve promete fortalecer a infraestrutura nacional de pagamentos, que contará com grande diversidade de formatos de pagamentos e linhas de crédito. Com a competitividade garantida, a qualidade dos serviços também tende a evoluir.   

De 2022 em diante, os desafios postos para o Pix estão relacionados principalmente com a sua capacidade de ser integrado em soluções de pagamento nacionais, de manter a confiança do público ao mitigar os riscos de fraudes. “Espera-se que o Pix deixe de ser apenas um diferencial competitivo, mas um item obrigatório de todo novo negócio”, antecipa Pandur, da Accenture. Há também a expectativa da integração do Pix com outros sistemas de pagamento instantâneos globais, com o chamado Pix Internacional. A promessa é facilitar transações entre contas brasileiras e pagadores ou recebedores de fora do país.

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Mesmo com tantas novidades ainda por vir, o que fica evidente é que os pagamentos em tempo real serão centrais para as transações financeiras, não só na América Latina, mas no mundo todo. “O Pix inovou o paradigma de pagamentos em tempo real, ao ser operado pelo BC em um formato agnóstico, aberto a todos os operadores, sejam bancos ou fintechs, tendencialmente gratuito. Isso chama a atenção no mundo todo. Em todas as minhas reuniões com sócios e parceiros internacionais, todo mundo quer falar de Pix”, relata Bragança, que confessa se sentir privilegiado de acompanhar essa novidade tão de perto.

Não é exagero dizer que o Pix revolucionou os sistemas de pagamento no Brasil. Não é ousadia dizer que a sua implementação coloca o país na vanguarda da inovação financeira latino-americana. Agora, parece apenas justo dizer que o Pix se tornou mais do que uma revolução nacional, mas também uma referência mundial. 

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Essa é a terceira e última parte de uma série especial sobre a Revolução do Pix. Clique aqui para ler a primeira parte, que reflete sobre o caráter de inclusão financeira e de consumo catapultado pelo sucesso do Pix no Brasil, e aqui para ler a segunda parte, que conta como o Pix foi criado, a partir de uma colaboração inédita entre os principais representantes do mercado financeiro do país.