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Economia

PIX tem tudo para impulsionar o maior processo de bancarização do mundo

Com o leque certo de serviços, cerca de um terço dos 97 milhões de brasileiros que ganharam uma conta digital para receber o auxílio emergencial entrarão de vez para o mundo bancarizado

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De abril, quando a primeira parcela do auxílio emergencial do governo federal para mitigar os efeitos da pandemia COVID-19 foi depositada, até hoje, 97 milhões de contas poupança digitais foram abertas pela Caixa Econômica Federal para a transferência da ajuda a 67,7 milhões de brasileiros desempregados, profissionais autônomos e microempreendedores individuais.

Até hoje, um total de R$ 101,3 bilhões foi pago a essas pessoas, em seis parcelas de R$ 600 ou R$ 1.200 (caso das mulheres chefes de família). Ainda em maio, após o pagamento das duas primeiras parcelas, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, e sua equipe estimaram que de um terço a 40% dos beneficiários do auxílio emergencial são pessoas que não tinham uma conta bancária antes – ou seja, cerca de 30 milhões de brasileiros.

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Uma pesquisa do ano passado, do Instituto Locomotiva, revelou que o Brasil tinha 45 milhões de desbancarizados, ou seja, pessoas que ou não tinham uma conta bancária ou tinham mais não a movimentavam.

“É o maior processo de bancarização já ocorrido a nível global. Dentro do conceito padrão, são pessoas que passaram a ter uma conta e que (com a extensão do auxílio, agora na metade do valor inicial, até dezembro) terão movimentado essa conta nos últimos seis meses”, explica o João Bragança, diretor sênior para a indústria financeira da consultoria Roland Berger.

Para consolidar esse processo, no entanto, ele explica que a própria Caixa e as fintechs terão que correr e oferecer o leque de serviço certo, que resolva questões históricas como a informalidade, se realmente quiserem manter todas essas pessoas bancarizadas. E o PIX é um trunfo nessa corrida.

Estamos falando de serviços muito simples, mas que atendam o dia a dia dessas pessoas. É nesse contexto que o PIX pode ser uma verdadeira revolução

João Bragança, diretor sênior para a indústria financeira da consultoria Roland Berger.

Ele explica que com as transferências gratuitas de pessoa para pessoa que serão viabilizadas pelo sistema de pagamentos instantâneos controlado pelo Banco Central já na sua estreia, no próximo dia 16 de novembro, um trabalhador informal, por exemplo, poderá receber pagamentos diretamente numa conta digital, seja de um banco tradicional como a Caixa, de um neobanco ou de uma carteira digital, inclusive aquelas pertencentes a varejistas e supermercados. Desde a crise 2014-2016, o país viu o número de trabalhadores informais disparar e em setembro, segundo o IBGE, alcançou seu maior nível em quatro anos, 41,1% da população ocupada, ou seja, mais de 11 milhões de brasileiros.

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Com o empurrão do PIX, Bragança estima que entre 25 e 30 milhões de brasileiros poderão entrar de vez para o mundo dos bancarizados – número muito próximo ao já repetido pela equipe da Caixa quando a organização estima o efeito bancarização do auxílio emergencial.

Fila de pessoas para sacar o auxílio emergencial em uma agência da Caixa em Recife, Pernambuco, em maio deste ano. Fotos: Andréa Rêgo Barros/PCR/Fotos Públicas

Embora o uso do dinheiro em espécie ainda seja um traço cultural persistente e que filas gigantescas tenham se formado para que milhões de brasileiros sacassem o valor do auxílio de suas contas digitais, muitos efetivamente usaram esse dinheiro eletronicamente, na própria conta da Caixa (como mostra a tabela abaixo) ou transferindo o dinheiro para outras fintechs que, por meio de contas digitais de pagamento, permitiram antecipar o recebimento do benefício.

Isso aconteceu porque para dar conta da tarefa de transferir bilhões de reais para milhões de brasileiros, a Caixa teve de criar um calendário, que estabelecia um mês de carência entre o depósito do auxílio na conta e a possibilidade de saque ou transferência desse dinheiro. Nesse meio tempo, o beneficiário poderia usar o cartão virtual da Caixa, tanto em estabelecimentos físicos quanto no e-commerce, e também pagar contas de concessionárias de luz e água, e operadoras de telefonia. Para não “perder esse tempo” e terem acesso a uma gama maior de serviços, muitos dos beneficiários do auxílio emergencial “migraram” para o mundo das fintechs. 

Ainda no fim de abril, vídeos no YouTube e mensagens no WhatsApp já explicavam como “antecipar o valor do auxílio emergencial”, abrindo uma conta no Nubank, Original, Neon, C6 Bank, Inter, entre outros, e fazendo um “depósito por boleto bancário”. Como?

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O aplicativo que vem junto com a conta digital social da Caixa, chamado de Caixa Tem, permite a qualquer um que possui saldo positivo na conta realizar pagamentos de boletos. Bastava então gerar um boleto no app da fintech, e pagá-lo com o aplicativo do Caixa Tem. Pronto, em dois dias úteis, que é o tempo padrão de compensação de um boleto, o dinheiro já está disponível.

Isso também colaborou para que as fintechs ganhassem ainda mais clientes. O Nubank, o maior neobanco da América Latina, passou dos 30 milhões de clientes em setembro. O Inter, fechou a primeira metade do ano com 6 milhões e agora já se aproxima dos 7 milhões.

Muitos especialistas apostam que as fintechs saberão ler, antes dos grandes bancos, o perfil desse novo brasileiro bancarizado.