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Negócios

Adquirido pelo Magalu, app de delivery AiQFome triplica volume de vendas em 2020

O aplicativo já conta com mais de 2 milhões de usuários. Investimentos da gigante do varejo e eficiência operacional trazida por outra plataforma, a eNotas, devem ajudar o app a escalar em 2021

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Se os serviços de entrega, que englobam uma gama cada vez maior de produtos, já cresciam antes da pandemia, em 2021 eles experimentarão um patamar totalmente novo de escalabilidade. Parte desse novo boom está sendo financiado não só por aportes cada vez maiores, mas por um forte movimento de fusões e aquisições no ecossistema de startups da América Latina.

De olho na diversificação de seus negócios, o Magazine Luiza fez um movimento nesse sentido em 2020: comprou a paranaense AiQFome. Ao longo do ano passado, o aplicativo de delivery viu as vendas triplicarem quando comparadas ao ano anterior.

Mesmo com a retomada de uma série de atividades, ainda que em meio à segunda onda de infecções pelo novo coronavírus, o crescimento dessas plataformas é um caminho sem volta. Elas já fazem parte da rotina dos consumidores brasileiros. Fundado em 2007, o AiQFome se diz pioneiro, o primeiro site de entrega de comida do Brasil. De lá para cá, ultrapassou a marca de dois milhões de usuários.

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Em entrevista ao LABS, Gustavo Rangel, head financeiro do aplicativo, disse que a empresa está presente hoje em 427 cidades e tem capilaridade nacional, já que opera em 21 estados do país. O AiQFome movimenta mais de R$ 700 milhões por ano e vem registrando “crescimento exponencial”, segundo o executivo, que não revela números absolutos.

Gustavo Rangel, head financeiro do AiQFome. Foto: Divulgação.

O AiQFome tem duas características que o diferenciam de outros aplicativos: o foco em cidades pequenas e médias, de 15 mil a 300 mil habitantes; e o modelo de licenciamento. A startup, que é de Maringá, não é diretamente responsável pela etapa de entrega do restaurante ao usuário final, mas funciona como intermediadora entre o pedido e o pagamento das refeições. A entrega fica a cargo dos restaurantes e seus entregadores parceiros.

“O AiQFome funciona como uma empresa que faz o licenciamento do software. Muito semelhante a um modelo de franqueamento”, explica Rangel. No modelo de licenciamento, o AiQFome vende a licença ao interessado em levar o aplicativo para determinada cidade: quem compra o licenciamento do aplicativo é chamado de city manager. Com investimento inicial a partir de R$ 15 mil e comissão que pode chegar até 12% sobre cada pedido feito pelo usuário final, os city managers prospectam restaurantes para integrar à plataforma. A monetização do AiQFome também ocorre como comissão em cima de cada pedido efetuado.

“Em breve vamos ter [entregas]. Nesse mês ou no próximo já estaremos rodando. Mas, de modo geral, a empresa ainda não tem essa funcionalidade,” conta Rangel.

O AiQFome, que diz ser a terceira maior plataforma de delivery do país, conta com cerca de 17 mil restaurantes parceiros e 110 funcionários na equipe. Integrado ao superapp Magalu desde setembro do ano passado, toda essa base tende a acelerar. Desde a aquisição, o AiQFome diz que viu a procura por licenciados em todo o país ganhar outro ritmo. De acordo com Rangel, hoje o aplicativo conta com 271 licenciados – ou city managers – nas 427 cidades do país em que opera.

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Segundo informações do Magalu, cada usuário do aplicativo faz, em média, mais de três pedidos por mês – e foi justamente o comportamento recorrente do usuário da startup paranaense que atraiu os olhos da gigante do varejo. “Além de ampliar a oferta de serviços do nosso marketplace, o objetivo com a compra é de que o AiQFome aumente a recorrência de uso do nosso superapp”, disse Roberto Bellissimo, CFO do Magazine Luiza.

“Com a aquisição trazemos para dentro da empresa competências que ainda não possuímos.” Nas lojas de aplicativos, o app do AiQFome é avaliado como um dos melhores no país na categoria de delivery. “O grande segredo aqui para a gente é a frequência mensal de três vezes,” frisou Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, durante apresentação dos resultados financeiros da companhia, em novembro. “O AiQFome foi adquirido muito no contexto de ser integrado ao nosso super app e ampliar a nossa frequência mensal de compras.” 

Outra mudança que a aquisição pelo Magalu deve trazer ao AiQFome, conforme mencionado por Rangel, são as entregas, que segundo a empresa, é um serviço que está na etapa de testes em algumas cidades como Tietê, em São Paulo. 

Embora o AiQFome ainda não tenha incorporado o serviço na plataforma, avançar a operação logística é uma das apostas do Magalu com a aquisição do aplicativo. Com o AiQFome, a varejista espera aumentar o potencial de expandir dois produtos de seu portfólio: o Magalu Pagamentos e o Magalu Entregas, que passam a ser ofertados aos restaurantes cadastrados no app de delivery.

De acordo com Bellissimo, o objetivo é também ampliar investimentos no negócio para atender cidades de maior porte, semelhante ao que aconteceu com outras adquiridas da gigante do varejo, como a logtech Logbee. Na época da aquisição, em 2018, a startup operava apenas em São Paulo e fazia 2% das entregas do Magalu na cidade. Pouco mais de dois anos depois, já era responsável por 50% das entregas da varejista no Brasil. 

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Investimento e eficiência operacional para crescer

Se a aquisição pelo Magazine Luiza deu ao AiQFome impulso para a expansão do negócio, outra plataforma que opera nos bastidores, a eNotas, entregou ao aplicativo eficiência operacional. 

Criada para a automatização de notas fiscais, a empresa mineira fundada em 2011 implementou um sistema que permitiu ao aplicativo de entregas passar de 13 para mais de 7 mil notas fiscais emitidas por dia. Antes da implementação, as notas eram emitidas manualmente. 

Presente em mais de 400 cidades pelo Brasil, a operação do AiQFome era o laboratório ideal para a eNotas: a plataforma automatiza todo o fluxo de emissão de notas em qualquer cidade. No Brasil, as regras de emissão em cada município tendem a variar de prefeitura para prefeitura.

Christophe Trevisani, CEO e fundador da eNotas. Foto: Divulgação.

“A gente brinca que o ponto comum entre o sistema de nota fiscal eletrônica do Rio de Janeiro e de Niterói é a ponte, porque de resto, muda todo,” conta ao LABS Christophe Trevisani, CEO da eNotas, explicando que a solução da empresa unifica a comunicação com todas as prefeituras. “Com uma única integração com um dos nossos produtos, que é um gateway de automação de nota fiscal em alta escala, a AiQFome consegue emitir nota de serviço eletrônica em mais de quatrocentas prefeituras, sem ter que mexer na integração ou entender as variações municipais.”

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Com duas soluções voltadas para emissão e uma de monitoramento para as notas que as empresas clientes têm emitidas contra si, a eNotas tem 54 mil clientes na plataforma, atendendo empresas como Conta Azul, TOTVS, Cornershop, e até o incluencer digital Whinderson Nunes. Em 2020, a empresa registrou crescimento geral de mais de 105%, ano em que transacionou R$ 118 bilhões em volume financeiro de notas emitidas. Em 2019, o volume transacionado foi de R$ 4,7 bilhões, um salto de mais de 25 vezes.

A equipe, que começou o ano passado com 52 funcionários, hoje conta com 107 colaboradores e segue em ritmo de expansão, com cerca de 30 vagas em aberto para o primeiro semestre, distribuídas entre áreas como dados, comercial, jurídico, RH e engenharia de software. Em 2021, a eNotas espera crescer de 80% a 90% sobre a receita de 2020.