Negócios

Agtech BovControl agarra o touro da mudança climática pelos chifres

Sem fazendas, não há comida. Mas é necessário encontrar maneiras sustentáveis de alimentar um mundo povoado por quase oito bilhões de pessoas. Os produtores de leite e pecuaristas, em particular, estão no foco da pressão das mudanças climáticas, já que a produção de carne e laticínios são duas das atividades que mais colaboram para o fenômeno do aquecimento global.

Mesmo com a crescente demanda para se atacar as causas das mudanças climáticas – o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou 2021 como um “momento decisivo” para isso – a produção global de carne e laticínios não dá sinais de desaceleração. O mundo produz quase 800 milhões de toneladas de leite anualmente—mais do que o dobro do que há 50 anos. A produção de carne triplicou no mesmo período, para mais de 340 milhões de toneladas. 

Só o Brasil respondia por 214,7 milhões de cabeças de gado no final de 2019. Em 2020, os Estados Unidos tinham 94,4 milhões, e a população global de gado atingiu perto de um bilhão de cabeças. É uma carga gigante de gases de efeito estufa. 

LEIA TAMBÉM: O futuro da agricultura: como as agtechs podem transformar o setor no Brasil

Dados divulgados no ano passado mostraram que as indústrias de carnes e laticínios criam 7,1 gigatoneladas de gases de efeito estufa anualmente—o que representa 14,5% do total de emissões antrópicas.

Mas e se os fazendeiros pudessem criar vacas leiteiras e gado de corte de uma forma que não apenas sustentável, mas que ajudasse a remover carbono do meio ambiente, sendo, inclusive, remunerados por isso? É esta a ideia por trás da BovControl, agtech com sede no Brasil e também na Califórnia, nos EUA, que nasceu como uma plataforma de gerenciamento de rebanho mas está indo bem além disso. A correspondente do LABS nos Estados Unidos Lauren Simonds conversou com o CEO e cofundador da BovControl, Danilo Leão, para saber mais sobre a empresa:

Lauren Simonds – O que é a BovControl e como exatamente a startup ajuda os criadores na administração do gado?

Danilo Leão – A BovControl fornece aos fazendeiros ferramentas fáceis de usar para coletar dados de animais no campo, usando hardware que se comunica com smartphones ou computadores, mesmo em condições de baixa conectividade. Esses dados incluem tudo, desde o peso do animal, de onde vêm, informações genéticas, alimentação e atividades diárias associadas ao manejo animal.

[Para usar a plataforma] Os agricultores podem usar quaisquer métodos de rastreamento que possuam. Nós nos integramos com todos os tipos de balanças, leitores de código de barras, leitores RFID, brincos, colares Bluetooth e diferentes tipos de chips implantados. Hoje em dia, isso é chamado de Internet of Things (IoT, na sigla em inglês para Internet das Coisas), mas nós a apelidamos de Internet of Cows (ou “Internet das Vacas”).

Coletamos dados sobre a terra, grama, produtividade por hectare (cerca de 2,5 acres de terra) e padrões de pastagem. Se os fazendeiros colocarem os animais para pastar em várias áreas da fazenda, nós os ajudamos a monitorar isso para aumentar a produtividade do pasto por hectare.

A segunda fase da BovControl começou quando as empresas perceberam que temos um banco de dados valioso e que cresce exponencialmente; dobra de tamanho a cada trimestre

Danilo Leão, CEO e cofundador da BovControl.

Nossos conjuntos de dados ajudam as empresas a entender suas fontes de produtos, aspectos de qualidade, preços, volume e previsibilidade de fornecimento.

LS – Você criou o maior banco de dados de gado do mundo. Existem outros bancos de dados como a BovControl que rastreiam vários tipos de dados para os agricultores?

DL – Temos 80 mil agricultores em mais de 50 países em seis continentes que usam ativamente nossa plataforma. Os governos—os maiores sendo os EUA e o Brasil—estão mais próximos de nós em seus sistemas de rastreabilidade, mas eles têm menos de 10% do nosso volume de dados.

Entidades como a Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) e a American Angus Association, nos Estados Unidos, não são realmente concorrentes, mas possuem conjuntos importantes de dados relevantes. ABCZ tem cerca de 2 0mil agricultores ativos, e a Angus tem 18 mil, mas eles não estão ativos todos os anos.

LS – Quais são alguns dos principais insights que os clientes podem obter usando esse enorme banco de dados? 

DL – Vejamos os agricultores e empresas de alimentos que usam o leite como matéria-prima como um exemplo. Esses clientes lidam com cadeias de valor complexas e nossa ferramenta BovDairy fornece rastreabilidade de qualidade, maneiras de monitorar a produção, mudanças de preço e adiciona uma camada de análise preditiva sobre o comportamento do mercado.

A Nestlé, por exemplo, tem quase 2 mil agricultores fornecendo leite para eles todos os dias. A empresa precisa monitorar dados logísticos como o volume de leite que leva de cada pequeno produtor, em diferentes regiões. 

Eles coletam amostras de leite para fazer testes de qualidade no campo, verificando coisas como gordura por volume e contagem de bactérias. Nossas ferramentas dão a eles a visibilidade para rastrear todos os aspectos de qualidade do leite.

LEIA TAMBÉM: Qual agtech será o primeiro unicórnio da América Latina?

LS – A Nestlé gerencia toda a sua cadeia de abastecimento de leite com a Leitera, uma ferramenta que vocês desenvolveram. Como ela funciona? 

DL – Leitera é uma solução white label baseada na BovDairy. Criamos uma versão customizada para a Nestlé que fica no topo de nossa plataforma, mas temos muitos fornecedores e processadores que usam a BovDairy. O aplicativo ajuda nossos clientes a entender o volume diário de leite que coletam. 

O volume do leite flutua em qualquer mercado local e isso afeta o preço. Os processadores precisam estabelecer um preço adequado para continuar comprando leite de seus fornecedores. A análise preditiva da BovDairy reduz a exposição deles a flutuações, `a volatilidade dos preços—no momento e no futuro—porque os nossos dados fornecem previsões mais precisas do que qualquer outra empresa. 

LSComo exatamente a BovControl ajuda os fazendeiros a tomar decisões? 

DL – Nossa plataforma permite que os agricultores interajam com os processadores para entender quais aspectos de qualidade seus clientes precisam. Os agricultores podem negociar um preço melhor para entregar uma qualidade específica. Em essência, a BovControl “descomoditiza” commodities. 

Digamos que você use vacas alimentadas com capim para produzir leite e seu vizinho opte pelo confinamento. Esse único fator produz uma diferença de qualidade, e os compradores precisam entender a qualidade específica que você oferece, especialmente se for usada para um determinado produto. A qualidade do seu leite pode, ou não, ser melhor para um tipo específico de queijo, iogurte ou chocolate.

Os agricultores também podem usar nossa calculadora para decidir se vale a pena investir em um protocolo de gerenciamento específico. O sistema analisa os números para calcular quanto mais por galão eles podem ganhar.

A desmercantilização da cadeia de valor é uma nova forma de fazer esse negócio. É justo para os agricultores que oferecem qualidade única e é justo para os processadores que pagam um pouco mais por um produto melhor.

LSPor que fazendeiros, agentes da cadeia de suprimentos e clientes varejistas que fornecem carne bovina aos consumidores têm se preocupado em rastrear a carne desde sua origem até onde ela é vendida? 

DL – Rastreabilidade é um assunto importante, mas muito estressante, porque muitas iniciativas lideradas por governos são frustrantes para os agricultores. A rastreabilidade é ruim para os agricultores quando os governos promovem seus métodos sem entender a realidade na fazenda. 

Lidar com rastreabilidade—coleta de dados, marcação de animais e outras formas de interação com animais em grande volume—não é fácil. Uma grande fazenda pode ser do tamanho de uma cidade. Os protocolos de governo foram elaborados por pessoas que não estão muito familiarizadas com esse mundo. 

As associações de criadores sentaram-se com autoridades, embaladores e varejistas, mas cada grupo criou barreiras, defendendo protocolos segundo seus próprios interesses.

Quando você lida com alimentos, você precisa de sistemas escaláveis ​​e de um volume significativo de usuários dentro do mesmo sistema. Esses ‘protocolos por comitê’ não são escaláveis ​​e o agricultor se tornou o vilão da rastreabilidade.

[Por outro lado] Em um sistema de rastreabilidade voluntária como o da BovControl, posso garantir a qualidade das evidências. As ferramentas que nossos agricultores usam para coletar dados no campo oferecem uma qualidade muito maior de rastreabilidade, sem as pressões de protocolos que não podem ser escalonados.

LSComo o banco de dados de gado BovControl pode aumentar a sustentabilidade e reduzir os efeitos das mudanças climáticas? 

DL – Começamos a trabalhar com mudanças climáticas e sustentabilidade há três anos. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) nos contratou para ajudá-los a construir uma calculadora digital que permitiria aos pecuaristas entender como as emissões das vacas afetam sua pegada de carbono.

Trabalhamos com a Embrapa em outro projeto e aprendemos sobre sequestro de carbono: o termo científico para remoção de carbono do meio ambiente.

Juntamos forças com a Embrapa para medir carbono e temos trabalhado com eles, e a Nestlé, para medir o sistema pecuário como um todo. Não apenas as vacas da fazenda, mas também a grama, a água, as árvores e a floresta. Analisamos os números e aqui está o que encontramos: a fazenda média da BovControl tem 150 vacas, 200 hectares e um caminhão. Todos os anos, essa fazenda média coloca 115 toneladas de carbono no meio ambiente e todos os anos remove 500 toneladas. [Ou seja] Esta fazenda não fica apenas no azul, mas produz um excedente de sequestro de 75%.

Considere o seguinte: os pecuaristas, especialmente na América Latina, têm leis locais que exigem que uma certa porcentagem de suas fazendas contenha florestas. As porcentagens variam por região. Na região amazônica, você pode trabalhar com pecuária em apenas 20% da sua fazenda. O mínimo no Brasil é de 15% de floresta.

São as florestas, as árvores, os arbustos e a grama de uma fazenda que retiram o carbono do meio ambiente. Esse sequestro depende das espécies de vegetação existentes. Usamos os conjuntos de dados da Embrapa para calcular as emissões de vacas e o sequestro de carbono dessas diferentes espécies de vegetação. Monitoramos as espécies em nossas fazendas e coletamos dados usando sete fontes de satélite diferentes.

LS – Provas de que um leite ou uma carne é sustentável são algo valorizado por clientes e consumidores finais hoje?

DL – Sim, e isso está relacionado à sua pergunta anterior sobre sustentabilidade e mudanças climáticas.

Agora podemos fornecer evidências de que nossos agricultores removem mais carbono [do ambiente] do que emitem, e estamos criando tokens de remoção de carbono que permitem que os agricultores sejam pagos por isso

Danilo Leão, CEO e cofundador da BovControl.

Estamos colocando esses dados, o tipo e o volume de sequestro de carbono, em uma blockchain para que o mundo possa ver e verificar. Empresas como Google, Amazon, Apple—e outras comprometidas em ser neutras em carbono até 2030, 2040 e 2050—podem comprar esses tokens como créditos para compensar suas emissões de carbono. É um mercado enorme. Uma matéria recente do Financial Times mostrou que a indústria de investimentos tem US$ 43 trilhões em fundos comprometidos com zero carbono.

Nossos agricultores recebem um token para cada tonelada de carbono removida, o que lhes dá um fluxo de receita adicional. O preço para remover uma tonelada de carbono varia de acordo com o mercado. No momento, acho que varia entre US$ 19 a $25 por tonelada.

LEIA TAMBÉM: Agtech argentina ZoomAgri levanta rodada pré-Série A de US$ 3,3 milhões

LS – Como a pandemia afetou seus negócios?

DL – Parece insensibilidade falar sobre nosso sucesso em uma época em que tantas pessoas estavam doentes ou perderam entes queridos. Mas crescemos 60% em 2020—principalmente porque os preços das commodities aumentaram drasticamente. Isso deu aos clientes um impulso extra para obter dados e análises preditivas sobre o comportamento do mercado. A crise acelerou a necessidade de ferramentas que pudessem prever e ajudar a reduzir o impacto da volatilidade dos preços.

LS – Você lançou a BovControl no Brasil e agora tem escritórios no Vale do Silício e Fresno, na Califórnia. Como a demanda cresceu e que porcentagem de seus clientes vem dos Estados Unidos? 

DL – Atualmente, a América Latina representa 40% de nossa base de clientes, enquanto 15% estão nos Estados Unidos. Mas com os contratos que temos em nosso pipeline nos Estados Unidos, isso vai mudar rapidamente. Até o final de 2021, atingiremos 25%. 

LS – Você pode compartilhar algum marco importante ou novidades em andamento? 

DL – Duas semanas atrás, assinamos um contrato muito importante com uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Não podemos dizer qual ainda porque é confidencial.

O que podemos dizer é que é um fundo e que anunciaremos essa nova parceria em novembro na COP26, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática em Glasgow. Este parceiro está validando o mecanismo de remoção de carbono que discutimos anteriormente. 

É importante entender a diferença entre mitigação e remoção de carbono. Tesla, um ícone de sustentabilidade, mitiga (ou seja, reduz) quase 400 mil toneladas de carbono por ano em comparação com carros que usam combustíveis fósseis.

Os agricultores da BovControl não reduzem o carbono, eles efetivamente o removem do meio ambiente. Só em 2020, eles removeram 25 milhões de toneladas de carbono. Isso é 70 vezes a mitigação da Tesla.

O parceiro que anunciaremos em novembro reconhece nossa plataforma como a maior estrutura de remoção de carbono do mundo

DANILO LEÃO, CEO E COFUNDADOR DA BOVCONTROL.

Estamos muito confiantes de que essa parceria vai acelerar a adoção e o crescimento [da plataforma], pois dá aos nossos clientes uma fonte extra de receita. Agricultores e vacas não são mais os vilões das mudanças climáticas.

Traduzido por Fabiane Ziolla Menezes

This post was last modified on setembro 17, 2021 4:29 pm

Lauren Simonds

U.S. Correspondent for Latin American Business Stories, Simonds is a writer and editor with more than two decades of experience reporting about small business, technology, higher education, and the cannabis industry.

Share
Published by
Lauren Simonds

Recent Posts

Revolução Pix: colaboração entre Banco Central e mercado financeiro foi crucial para pensar, criar e implementar Pix no Brasil

Parte do sucesso do Pix tem suas bases no alinhamento entre os objetivos do Banco…

junho 28, 2022

Revolução Pix: como o método de pagamento instantâneo criado no Brasil colocou o país na vanguarda da indústria global de pagamentos

Liderada pelo Banco Central, a criação do Pix é um exemplo de como a inovação…

junho 20, 2022

Time to market: a arte de ligar os pontos

O Time to Market tem sido um grande aliado das startups para atrair investidores, mas…

junho 19, 2022

Appmax cresce sete vezes ajudando clientes a vencer fraudes e “burocracia digital”

Empresa fundada em 2018 pelos irmãos Betina e Marcos Wecker viu número de sites usando…

junho 19, 2022

Tangerino by Sólides: a experiência de vender um negócio

Como duas empresas irmãs, mineiras e comprometidas com inovação se uniram para mudar o cenário…

junho 16, 2022