Negócios

Bancos digitais voltados para minorias começam a despontar no Brasil com ofertas personalizadas

As flexibilizações regulatórias implementadas pelo Banco Central nos últimos anos abriram espaço para uma avalanche de bancos digitais, fintechs e outras modalidades de instituições financeiras dispostas e confrontar a hegemonia dos bancos tradicionais no Brasil. Em meio a elas, despontam pequenos bancos mais preocupados com o social do que com lucros — como afirmam seus executivos. Essas instituições têm contas digitais, cartões cheios de recursos e os demais serviços esperados de qualquer banco moderno, mas buscam se diferenciar nas ofertas personalizadas a públicos específicos, levantando suas bandeiras.

“O ‘core’ bancário é ferramental”, diz Fernando Zago Lóes Moreira, co-fundador do Banco Afro, o primeiro banco social do Brasil, segundo ele. Tendo como público-alvo as classes C, D e E, o Banco Afro surgiu das inquietações de Diego Reis, do coletivo AfroEmpreendedor e co-fundador e CEO do Banco Afro. 

Ele [Diego] me dizia: ‘O problema da comunidade como um todo é financeiro. Os caras não passam numa porta giratória’. Ele falou: ‘Cara, eu vou abrir um banco para ajudar essa galera‘, e eu ‘Muito louco, como que monta um banco?’.

Fernando Zago Lóes Moreira, co-fundador do Banco Afro

Aparentemente, juntos eles conseguiram decifrar esse segredo. O Banco Afro foca sua atuação em cadeias produtivas. Para isso, une as duas pontas de cadeias do tipo e trabalha com programas que acompanham mais de perto o cliente, desbancarizado e de baixa renda, para além da simples disponibilização de serviços e benefícios.

Criado pouco antes da pandemia de COVID-19 virar o mundo de cabeça para baixo, o Banco Afro já tem pelo menos um “case” de sucesso para validar sua proposta. É o Pintar o Bem, feito em parceria com a Suvinil, marca de tintas da alemã Basf. A Suvinil queria distribuir cestas básicas para dar uma força a pintores na primeira onda da pandemia. Por intermédio do Centro Integrado de Estudos e Programa de Desenvolvimento Sustentável (CIEDS), ela chegou ao Banco Afro. “A gente poderia, dentro da comunidade, desenvolver o pintor. Não só tirar ele da situação de vulnerabilidade, de fome, mas ajudá-lo a voltar ao mercado com um produto social mais complexo”, explica o executivo.

LEIA TAMBÉM: Gerando Falcões aposta na inovação social para combater a miséria no Brasil

Com o apoio da Suvinil e de outros 110 doadores, o Banco Afro levantou quase R$ 2 milhões para o Pintar o Bem. Abriu um cadastro, que atraiu quase 2 mil pintores em dez dias, e começou a distribuir um benefício, de R$ 600, dividido em três parcelas de R$ 200, com destinação específica e acompanhamento de perto, ao mesmo tempo em que desenvolvia a cadeia produtiva: o beneficiário ganhava uma conta digital no Banco Afro com todas as facilidades para o comércio (PIX, por exemplo) e um pequeno e-commerce, um site com seus dados e meios de pagamento, que passou a constar em bancos de dados profissionais, gerando oportunidades de trabalho.

É esse acompanhamento (bem) de perto que distingue o Banco Afro e, nas palavras de Fernando, o torna o primeiro banco verdadeiramente social do Brasil. “Se você pegar o que a Caixa faz, não é social, nunca foi. Se você pegar o Minha Casa Minha Vida, o fator de corte inicial é que o cara tenha carteira de trabalho assinada e dar uma entrada de 10% do valor, ou seja, o corte é lá em cima, está em classe média para cima, muito longe de falar em C, D e E”, compara.

Outro problema do modelo dos bancos tradicionais estaria na falta de acompanhamento. O executivo critica o modelo de distribuição do auxílio emergencial: “Eu pego o dinheiro, boto no cartão e acabou. Você pergunta se o cartão foi usado. Mas o cara sabe usar? O banco não está nem aí. Ele vai usar no fim correto e adequado? Não está nem aí também.”

LEIA TAMBÉM: TrazFavela e G10 Bank querem fazer o dinheiro da favela girar e aumentar a renda das periferias do Brasil

No Banco Afro, a distribuição de benefícios é condicionada a um contrato e pode ter destinação específica. “Se a rede fala que só pode usar em alimentação e farmácia e o beneficiário faz um uso diferente do previsto nos termos de uso que ele assinou, ele é notificado que não pode usar assim, porque o benefício é para aquela finalidade específica. E se ele volta a insistir nisso, o benefício dele é cancelado e o sistema paga o próximo da fila, do ‘score’ social”, explica.

“Você olha de fora e parece uma conta digital? Parece”, explica Fernando. “Parece concorrer com as fintechs que tem no mercado? Parece. Mas a nossa lógica, tanto de modelo de negócio quanto de fazer isso parar de pé, é como conseguir ‘linkar’ todos os elos da cadeia em prol de tirar quem está na base da cadeia produtiva e ajudar ele a subir, estreitar esse laço”. 

No Banco Afro, a missão é desenvolver produtos sociais. Em seu modelo de negócio, o tarifário bancário soma, mas não é a principal linha de receita. Em vez disso, o faturamento vem dos produtos e tecnologias sociais. “Como o produto bancário é commodity e a gente usa ele como instrumento, a nossa lógica também não é ter ele como principal fonte de receita”, diz Fernando. Seguindo essa linha, o grande objetivo do Banco Afro é chegar ao ponto de oferecer crédito imobiliário: “A gente tem o sonho de, um dia, conseguir financiar a casa própria dessa cadeia produtiva, para quem está na parte de baixo da cadeia.”

LEIA TAMBÉM: Com comércio que movimenta bilhões, favelas brasileiras serão determinantes para retomada econômica em 2021

O executivo não abre números, mas afirma que o Banco Afro, fundado com capital próprio dos sócios, opera no azul desde o segundo mês de operação e já atrai o interesse de investidores — a empresa aceitou um investimento “sem nenhum tipo de equity” e cogita abrir uma rodada de captação mais convencional no fim do ano.

Orgulho LGBT+ e nano e microempreendedores das periferias

A ideia de fomentar missões sociais com base em tecnologia bancária, algo que já ocorre em outros mercados, como o norte-americano, está se espalhando pelo Brasil. Além do Banco Afro, outras iniciativas seguem o mesmo caminho, como o Pride Bank, focado no público LGBT+, e o Banco Maré, que atende nano e microempreendedores das periferias das grandes cidades.

Criado em 2017 por Alexandre Albuquerque, o Banco Maré nasceu para combater um problema grave em comunidades carentes: a falta de acesso a serviços financeiros básicos. 

As pessoas tinham uma dificuldade tremenda para fazer pagamentos de boletos. O Complexo [da Maré] tem 19 comunidades, mas não tem agência bancária aqui dentro, tem pouca lotérica, e as filas ficavam enormes. Era uma dor bastante sentida.

Amanda Magalhães, CEO do Banco Maré

A primeira iteração do Banco Maré era composta por uma carteira digital “super simples”, nas palavras da executiva, com opções de pagamento de boletos, recarga de celular e transferências, e uma rede de “quioscos”, espécies de agências bancárias físicas espalhadas pelas comunidades, onde os usuários podiam sacar dinheiro em espécie, fazer depósitos e receber atendimento.

Então veio a pandemia, e o Banco Maré passou por uma grande guinada. “Tivemos que reduzir bastante a nossa operação”, diz Amanda. Os vários pontos físicos, àquela altura presentes até em outros estados — Heliópolis (SP) e Arapiraca (AL) —, foram fechados, e a ideia do que o Banco Maré poderia ser dali em diante começou a ganhar forma. “Um grande ponto-chave foi perceber que o Maré na verdade é muito mais que um banco digital. Nossa grande função é ser um agente de transformação e de inclusão, não só financeira, mas também produtiva.”

LEIA TAMBÉM: A crise da educação no Brasil e o desafio da internet gratuita para todos

Com esse novo olhar sobre sua própria razão de existir, o Banco Maré passou a buscar novos serviços e oportunidades, além dos financeiros, que poderia oferecer via parcerias. “Seja educação, seja capacitação, como estamos fazendo agora com o Sebrae e com o Instituto Sicoob, seja ponte para outros tipos de acesso que hoje o Banco Maré não dá — por exemplo, microcrédito, investimento… esse tipo de coisa”, exemplifica a CEO.

O resultado prático desse esforço foi o relançamento do aplicativo, agora com a pretensão de se tornar um super app dentro das comunidades atendidas, e novas iniciativas como o projeto Maré em Movimento, “que é como se fosse uma aceleradora de negócios”, diz Amanda. “Estamos fazendo parcerias com outras empresas de microcrédito, de investimentos, porque a nossa tendência é focar no relacionamento, nas convicções, na inteligência de dados — bem ou mal, também falta muita inteligência sobre as necessidades desse estrato [da população].”

Idealizado por Maria Fuentes e lançado em novembro de 2019, o Pride Bank surgiu do seguinte questionamento: “Por que não criar um cartão de crédito que seja para a comunidade LGBT+, mas que reverta seus lucros à comunidade, que ajude a comunidade?” Marcio Orlandi, gay assumido e militante, juntou-se à iniciativa e, por seu histórico de gestão em produtos digitais, assumiu o posto de CEO do Pride Bank.

LEIA TAMBÉM: De ferry boat até as comunidades ribeirinhas: como a pandemia impulsionou o e-commerce da Bemol na Amazônia

Marcio cita dados do IBGE, que estima a população LGBT+ brasileira em 20 milhões de pessoas, como prova de que a ideia tem espaço para se desenvolver no país: 

Grande parte é de pessoas que são jovens, que foram expulsas de casa; pessoas trans que não conseguem emprego, que precisam de ajuda. Então tem um lado social muito forte. Para mim, é o lado mais importante do Pride Bank: ele vem para transformar.

Marcio Orlandi, CEO do Banco Pride

O Pride Bank oferece alguns diferenciais práticos. O nome no cartão de crédito, por exemplo, não precisa ser o mesmo do registro civil. “Muita gente ainda não passou por esse processo [de retificação do nome], mas já quer ser chamada pelo nome social que escolheu. A gente aceita o nome social imediatamente”, explica.

A base da atuação do Pride Bank é pegar produtos de prateleira, que todo banco e fintech oferece, e modificá-lo a fim de atender seu público-alvo. “Como eu faço [o produto] um pouco diferente para atender melhor?”, questiona Marcio.

No momento, ele e sua equipe estão focados na criação de um plano de saúde “com médicos preparados para atender [a população LGBT+]”, ou seja, que não se assustem ou sejam grosseiros com um homem que mudou de sexo e precisa se consultar com uma ginecologista — o exemplo, diz, é real e aconteceu com um amigo que mudou-se recentemente para São Paulo. Marcio diz que há espaço para esse tipo de diferencial em vários setores, como os de seguridade, turismo, câmbio e investimentos.

LEIA TAMBÉM: Soluções de crédito para comprar parcelado e online ganham o comércio eletrônico na América Latina

Além desses produtos e serviços feitos sob medida, o Pride Bank almeja tornar-se referência na promoção da causa. “A nossa meta é sermos o maior patrocinador de cultura, entretenimento e esportes para LGBT”, diz. 

Marcio não abre o faturamento do Pride Bank, mas diz que se trata de uma startup “um pouco diferente do normal”, no sentido de que é “uma startup que está pronta, que já está funcionando e acha que agora pode discutir investimentos”. As primeiras conversas para captação de recursos já estão acontecendo.

Um mundo de diversidade

Da comunicação institucional a medidas concretas, bancos tradicionais e fintechs generalistas têm se movimentado para dar atenção a públicos minoritários e historicamente negligenciados pelo setor bancário.

Às vezes, o compromisso vem na esteira de uma derrapada. Em outubro de 2020, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, deu uma declaração racista no programa Roda Viva. A forte reação da opinião pública levou a fintech, uma das maiores do mundo, a lançar uma grande investida de inclusão de pessoas pretas em seu corpo de funcionários.

Nessa época, o Banco Afro recebeu “uma enxurrada gigantesca de clientes vindos do Nubank”, lembra Fernando. Todos foram bem recebidos, mas eles não alteraram a missão da instituição. “O nosso negócio não é esse, não é criar uma guerra com o Nubank. A gente tem uma missão muito específica, que é levantar a bandeira da causa negra, do black money, levantar a bandeira das classes C, D e E, onde a grande maioria é constituída por minorias”.

Fernando Zago Lóes Moreira, co-fundador do Banco Afro. Foto: Divulgação

Essa parece ser a tônica dos bancos digitais com apelo e missão sociais. São, para usar um clichê publicitário que aqui não soa vazio, mais que bancos. Esse aspecto é tão forte que não demora muito para que o “core” bancário, o ferramental commoditizado citado por Fernando, passe a segundo plano.

“Apesar de ter nascido como uma fintech focada em serviços financeiros, estamos nos posicionando como um grande ‘hub’ de inclusão produtiva e social”, explica Amanda, do Banco Maré. Ela admite que se o empreendimento continuasse focado em fazer frente aos bancões e fintechs generalistas, como era quando foi concebido em 2017, o Banco Maré não teria muita chance. “A gente tem visto, de 2017 para cá, que o número de bancos digitais aumentou muito, mas o grande diferencial do Maré é estar dentro da comunidade e entender as necessidades de um público marginalizado como nenhuma outra instituição consegue”.

Amanda Magalhães, CEO do Banco Maré. Foto: Divulgação

Para Marcio, a pauta da diversidade é imperativa em todos os negócios, mas os mais tradicionais ainda têm um atraso muito grande para tirar. “Uma coisa é ela começar a ser diversa internamente, para que ela possa ter em seu rol de funcionários toda a diversidade, porque com isso ela consegue criar produtos bem pensados. Outra coisa é ela estar preparada para atender fora”, argumenta.

Antes do lançamento do Pride Bank, foi feita uma pesquisa junto à comunidade LGBT+ a fim de identificar o nível de satisfação com os bancos. Coisas como medo de ser rejeitado(a) na porta giratória ou de ter serviços negados apenas pela sua condição foram manifestados pelos respondentes. “A gente viu que existe uma rejeição muito grande.”

Marcio Orlandi, CEO do Pride Bank. Foto: Divulgação

As três empresas ressaltam que seus serviços estão abertos a todos os públicos, e não apenas aos LGBT+, periféricos e pretos. “As ações sociais e de inclusão produtiva temos direcionado para nano e micro empreendedores de periferia”, explica Amanda, do Banco Maré, ”mas qualquer pessoa que deseje fazer parte desse movimento e de alguma forma estar dentro desse ciclo, que é bem bacana, do impacto social, é mais do que bem-vinda”. Para Marcio, só não são bem-vindos os preconceituosos: “É óbvio que sabemos que pessoas homofóbicas não vão querer, e aí não faço questão, realmente. Mas, aliados, nós queremos.”

This post was last modified on setembro 15, 2021 1:42 pm

Rodrigo Ghedin

Rodrigo Ghedin is a communicologist and a journalist. He is also the founder and editor of Manual do Usuário, a “slow web” technology blog.

Share
Published by
Rodrigo Ghedin
Tags: BrasilPIX

Recent Posts

Revolução Pix: como o método de pagamento instantâneo criado no Brasil colocou o país na vanguarda da indústria global de pagamentos

Liderada pelo Banco Central, a criação do Pix é um exemplo de como a inovação…

junho 20, 2022

Time to market: a arte de ligar os pontos

O Time to Market tem sido um grande aliado das startups para atrair investidores, mas…

junho 19, 2022

Appmax cresce sete vezes ajudando clientes a vencer fraudes e “burocracia digital”

Empresa fundada em 2018 pelos irmãos Betina e Marcos Wecker viu número de sites usando…

junho 19, 2022

Tangerino by Sólides: a experiência de vender um negócio

Como duas empresas irmãs, mineiras e comprometidas com inovação se uniram para mudar o cenário…

junho 16, 2022

Americana Sezzle estreia no Brasil com solução BNPL para pequenas e médias empresas

Fintech fundada nos Estados Unidos enxerga o país como porta de entrada para o crescente…

junho 15, 2022

Clicampo capta R$ 40 milhões para otimizar a cadeia de suprimentos de hortifruti e empoderar o pequeno produtor rural

Startup conecta pequenos produtores rurais e restaurantes e varejistas para tornar o processo de compra…

junho 15, 2022