Foto: Divulgação/NotCo
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Batendo na porta do clube de unicórnios da América Latina, a NotCo dá seus primeiros passos nos EUA

A empresa, que cresceu 5 vezes em 2020, diz que seu algoritmo é a chave para ganhar o mercado global

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A empresa chilena NotCo, uma startup de alimentos de base vegetal prestes a se tornar o novo unicórnio da América Latina, está dando seus primeiros passos no mercado mais competitivo do setor, os Estados Unidos. “Não será nenhuma surpresa se recebermos uma nova rodada nos próximos meses, quando o crescimento da empresa atingir um nível que estamos alinhados para isso”, disse Maximiliano Silva Figueroa, country manager da NotCo no Chile, em entrevista ao LABS.

Fundada em 2015 por Matías Muchnick, Karim Pichara e Pablo Zamora, e financiada por Jeff Bezos, a startup de alimentos à base de plantas já está avaliada em cerca de US$300 milhões, de acordo com o TechCrunch. No terceiro trimestre de 2020, a estreia da NotCo nos Estados Unidos foi impulsionada por uma rodada Série C de $ 85 milhões de dólares com os principais investidores da indústria, incluindo Bezos Expeditions, Future Positive e L Catterton

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A foodtech não divulga números de vendas ou receita, mas Figueroa diz que mesmo com a pandemia a empresa cresceu “cinco vezes em 2020” e duas vezes em sua terra natal, o Chile. “Não divulgamos números, mas são proporcionais à avaliação entre a última rodada que recebemos e a próxima (Série D) que está por vir.”

Maximiliano Silva Figueiroa, NotCo’s country manager no Chile. Foto: Divulgação/NotCo

“Estamos crescendo muito, ano passado tivemos a oportunidade de ampliar nosso portfólio em três países e abrir uma operação nos Estados Unidos. Também foi um período expansivo para nós. Se fosse diferente [com a pandemia], talvez essa velocidade seria diferente ou a complexidade de desenvolver novas operações seria diferente, mas tem sido um período de crescimento importante. “

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Entrantes da América Latina patinam no mercado americano de plant-based

Nos EUA, os produtos à base de plantas estão crescendo quase duas vezes mais rápido que as vendas gerais de alimentos. Os dados de vendas no varejo da SPINS (consultoria americana da indústria de produtos naturais e orgânicos), divulgados em 6 de abril de 2021, mostram que as vendas de alimentos plant-based que substituem diretamente os produtos de origem animal cresceram 27% no ano passado, para US$7 bilhões, informou o Good Food Institute, um grupo de lobby dos EUA.

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A NotCo chegou “de fininho” nos EUA (onde ainda é uma empresa de um produto só) por meio de uma parceria com a Whole Foods. Hoje, vende o NotMilk (seu produto alternativo ao leite) em 500 lojas da rede de supermercados. “O mercado americano é um grande desafio, tem uma penetração muito importante junto ao consumidor, a maior do mundo”, afirma Figueroa.

Grande mercados são prato cheio para grandes rivais. Recentemente, fontes disseram à Reuters que a fabricante americana de carnes à base de plantas Impossible Foods está buscando um IPO ou uma SPAC para levantar recursos e, possivelmente, atingir uma avaliação de US$ 10 bilhões.

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De acordo com a Reuters, o valor de mercado do concorrente maior, Beyond Meat, caiu de um pico de US$ 14 bilhões para perto de US$ 8,5 bilhões. A brasileira Fazenda Futuro (Future Farm, nos Estados Unidos) avaliada em R$ 715 milhões, iniciou sua jornada nos Estados Unidos em janeiro. 

Bruno Franco, que é sócio-gerente da ENFINI Ventures, um fundo proprietário que já investiu na Fazenda Futuro, disse ao LABS que o fundo vê na tese de negócio das empresas plant-based um conceito muito forte, relacionado a sustentabilidade e ao uso mais eficiente de recursos naturais para produção de alimentos. É isso que explica o grande interesse dos investidores em geral no setor.

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“Em paralelo, vemos que existem atualmente novos processos e tecnologia aplicados na produção de alimentos, fazendo o produto final das empresas plant-based se aproximar dos produtos convencionais de carne, preservando a experiência e nossa cultura alimentar. O somatório desses dois fatores é absolutamente disruptivo e torna a tese muito robusta. Essa combinação justifica a transformação de parte da cadeia produtiva de alimentos, potencializando o quanto essas empresas podem crescer e gerar negócios. Em resumo, vemos que as soluções trazidas pela indústria plant-based podem proporcionar mais alimento, com menos uso de recursos naturais e, em escala, até produtos mais baratos.”

Já a NotCo diz que tem a chave para enfrentar todos esses grandes players. Segundo Figueiroa, conseguiu patentear sua tecnologia de inteligência artificial proprietária nos EUA e tem o know-how para produzir qualquer alternativa à proteína animal para o mercado de massa. “Nossa proposta de valor vem da tecnologia. Um de nossos maiores ativos é que podemos competir em todas as categorias de substituição por plantas.”

Maximiliano Silva Figueiroa, NotCo’s country manager no Chile. Foto: Divulgação/NotCo

O Impossible Foods, até agora, só trabalha com carne, assim como a Beyond Meat. Mas o maior ativo da NotCo vem da nossa tecnologia, que é capaz de competir em todas as categorias

Maximiliano Silva Figueroa, Country manager da NotCo no Chile

As operações da NotCo nos EUA têm se expandido para atingir mais consumidores na divisão de canais go-to-market. O que começou devagar, agora está ganhando velocidade, segundo Figueroa. “Devido à COVID-19, começamos os primeiros meses nos EUA de forma mais lenta. Agora temos mais velocidade e o giro de prateleira aumentou. O desempenho do NotMilk tem sido ótimo”, diz Figueroa.

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A sede nos EUA também deve atender e abastecer o mercado canadense. A empresa espera escalar seu produto no mercado americano antes de expandir seu portfólio, que na América Latina inclui imitações de laticínios e de carne, como o NotMayo (maionese vegetal) e NotMeat com NotBurger (um produto importante no Chile, Argentina e Brasil, segundo Figueroa) Novos produtos serão lançados na América Latina até o final deste ano.

O ABC da NotCo na América do Sul: Argentina, Brasil e Chile

Na América Latina, a NotCo tem escritórios no Chile, Brasil e Argentina, e ainda não tem planos de abrir escritório no México. A empresa tem expandido seus produtos para a região andina (Colômbia e Peru).

Por causa da COVID-19, o projeto de ter produtos da NotCo indiretamente nos mercados mais importantes da América Latina foi atrasado, mas Figueroa acredita que até o final do ano isso vai funcionar.

Também por conta do distanciamento social, as parcerias no mercado de foodservice (como a da região andina com o Burger King, e alguns países da América Latina com o Papa John’s) não têm sido tão importantes para trazer crescimento como a startup esperava antes da pandemia .

Para toda empresa que trabalha com restaurantes, tem sido um momento difícil. Mas isso também nos trouxe oportunidades, porque quando as pessoas ficam em casa, tudo gira em torno de comida

Maximiliano Silva Figueroa, country manager da notco no chile

A NotCo sabe que a concorrência é forte no Brasil, com novos rivais (Fazenda Futuro, The New Butchers, Yamo) surgindo a cada dia batalhando pelo mercado, mas acredita que tem tudo para ser a maior concorrente no maior país da América Latina.

O caminho da NotCo para abrir capital

A chegada nos Estados Unidos foi um passo crucial para projetar a NotCo como uma empresa global. “Quando você opera nos EUA é mais fácil ser conhecido no Japão, na China. É uma nova etapa de consolidação da empresa”, afirma Figueroa.

Questionado sobre a abertura de capital no exterior, Figueroa disse que uma empresa que quer se tornar conhecida mundialmente precisa ter essa estratégia. “Queremos trazer nossa proposta de valor globalmente, vindo da América Latina, e aterrissar nos Estados Unidos é muito importante nessa jornada. Acho que nesta etapa nosso foco é 100% desenvolver nossos produtos, mercados e conhecimento de marca que possam nos consolidar e nos transformar em uma empresa muito valiosa na indústria de plant-based, que também vem crescendo. Estamos nesse caminho (de IPO), mas 100% focados no desenvolvimento de produtos e mercados.”

O foco da NotCo é crescer em volume, mas não em equipe. Atualmente, a empresa possui apenas cerca de 250 funcionários. Ainda assim, seu modelo de operação e cadeia de suprimentos também não é muito extenso, já que não ela não tem instalações próprias e trabalha com parceiros, fabricantes e distribuidores.

“Para nós, é mais importante a tecnologia e o produto do que ser uma grande empresa. Queremos ser muito competitivos, mas não uma empresa muito pesada. Achamos que ainda somos pequenos, então a ambição é grande. Não sonhamos com edifícios enormes com o logotipo do NotCo na frente, sonhamos apenas em conquistar o coração, a cozinha e as geladeiras em todo o mundo, essa é a nossa jornada”.

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