Ilustração por Felipe Mayerle
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Carlos Ramos de la Vega, da LAVCA: "O interesse global que estamos vendo na América Latina já era esperado há muito tempo"

O LABS conversou com Carlos Ramos de la Vega, da LAVCA, sobre as últimas tendências em uma das regiões que mais recebeu investimentos em 2021 e o crescimento e amadurecimento da indústria de private equity e capital de risco na América Latina

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Em 2002, o investimento estrangeiro direto na América Latina apresentou uma tendência constante de queda para menos de 2% do total mundial. De lá para cá, os tempos mudaram. Hoje, o capital privado e o capital de risco investido na América Latina atingiu o nível mais alto de todos os tempos. E há sinais claros de que os investidores globais continuam de olho em oportunidades de longo prazo, impulsionados especialmente pela aceleração digital da região.  

Com base nos dados e análises da LAVCA divulgados na semana passada referentes ao primeiro semestre de 2021, o investimento de capital privado na América Latina mais que dobrou em comparação com o mesmo período do ano passado: foram 402 negócios avaliados em US$ 10,3 bilhões. Os investidores têm apoiado tendências de digitalização em setores carentes de soluções tecnológicas, incluindo educação, serviços financeiros, saúde, o setor imobiliário e varejo. 

Fundada há mais de 12 anos, a LAVCA é uma organização com sede na cidade de Nova York cuja missão é desenvolver a indústria de capital de risco e private equity na América Latina

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Entre os recordes alcançados este ano até o momento, a captação de novos fundos para empresas de capital de risco chegou a 26 deals avaliados em US$ 1,7 bilhões. Mais notadamente, em junho a Kaszek Ventures – conhecida pelo seu tino para apostar em futuros unicórnios – levantou US$ 1 bilhão para investir em startups de tecnologia latino-americanas com o objetivo de destinar US$ 475 milhões para startups em estágio inicial e os US$ 525 milhões restantes nas empresas que compõem seu portfólio.

Após deixar o Mercado Libre, a maior empresa de comércio eletrônico da América Latina, para fundar a Kaszek Ventures há uma década, os sócios da empresa, Hernan Kazah e Nicholas Szekasy, conquistaram a reputação de saber identificar empresas vencedoras. Hoje, a carteira da Kaszek conta com pelo menos nove unicórnios, incluindo o Nubank, avaliado em US$ 30 bilhões e a meio caminho de abrir capital na Nasdaq até o fim do ano. 

Os países que mais recebem investimentos na América Latina são Brasil, Colômbia e México que, juntos, atraíram 90% de todos os aportes de venture capital feitos durante o primeiro semestre de 2021. As fintechs continuam na liderança, abocanhando 42% desse montante. 

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Entretanto, há novas tendências surgindo, como o aumento de investimentos em tecnologias baseadas em hardware, incluindo aquelas focadas na Internet das Coisas (IoT). Além disso, as rodadas de venture capital estão aumentando em volume investido – no primeiro semestre, foram 29 aportes de mais de US$ 50 milhões, em comparação com as 16 rodadas desse porte em todo o ano passado. Por fim, gerentes de fundos de private equity se comprometeram com US$ 1,6 bilhão nesses primeiros seis meses do ano, um aumento de 82% em relação ao mesmo período do ano passado. 

Outro sopro de inovação tem a ver com o crescente interesse dos investidores em iniciativas ESG (Environmental, Social and Governance). Um estudo recente do Bank of America Global Research constatou que “à medida que a pandemia intensifica os desafios globais, como a insegurança alimentar, o acesso à saúde e a igualdade racial e econômica, um forte foco em ESG poderia trazer benefícios tanto para a sociedade, quanto para as empresas e os investidores”.

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Há também mais dinheiro sendo investido em startups lideradas por mulheres. Os aportes quase triplicaram, chegando a 31% de todo o financiamento de risco feito no primeiro semestre de 2021 em comparação com apenas 13% do total investido em todo o ano de 2019.

Para ir além dos números, o LABS conversou com Carlos Ramos de la Vega, gerente de capital de risco da LAVCA. Ele nos deu alguns insights sobre os principais atores e as tendências do ecossistema de inovação da América Latina. Aqui estão os principais trechos da entrevista: 

Carlos Ramos de la Vega, gerente de capital de risco da LAVCA. Foto: Divulgação

LABS: Marc Andreessen, um célebre capitalista de risco do Vale do Silício, popularizou o ditado “o software está comendo o mundo” em um ensaio publicado pelo Wall Street Journal em 2011. Por outro lado, estamos vendo uma nova tendência de investimentos em inovação de hardware na América Latina?

Carlos Ramos de la Vega (CRV): Sim, vemos essa tendência especialmente com tecnologias baseadas em hardware e nas camadas deeptech [startups de base científica]. Por exemplo, a Indicator Capital, o BNDES e a Qualcomm Ventures lançaram um fundo de US$ 45 milhões dedicado exclusivamente ao que chamamos de Internet das Coisas, que é um importante passo para o desenvolvimento do ecossistema (Mais aqui). 

Essa tecnologia baseada em hardware encontrou um grande mercado junto às pequenas e médias empresas e instalações de fábricas que operam no Brasil e no México, por exemplo. Vemos a necessidade de tecnologias baseadas em sensores para automatizar os processos de roteamento e logística, especialmente no Brasil. Em uma entrevista recente à LAVCA, o CEO da Cobli, Parker Treacy, comparou a ascensão da Internet das Coisas como algo irreversível. 

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Naturalmente, eles estão focados exatamente em pequenas e médias empresas que ainda têm operações de entrega muito complexas. O objetivo é reunir tudo em uma única plataforma, para que as empresas se tornem mais eficientes na logística.

Outro exemplo é a incorporação de tecnologias e sensores baseados em hardware na criação de análises para fábricas, de modo que informações sobre máquinas, operadores e fabricantes diferentes possam ser visualizadas em uma única plataforma, aumentando a produtividade geral por meio de inteligência gerada a partir dos dados comerciais. 

LABS: O fato de que as fintechs ainda abocanham a maior parte dos investimentos não é tão surpreendente, uma vez que isso tem acontecido na América Latina há seis anos. Ainda assim, 42% do total de recursos é uma fatia significativa. Você vê alguma tendência de inovação no setor de fintechs?

CRV: Sim, com certeza. Eu diria que a principal delas não é apenas a inovação; as fintechs agora estão desempenhando um papel junto a outros nichos e categorias, com pagamentos, originação de crédito e incorporação de plataformas de serviços financeiros. Por exemplo, plataformas B2B, como Swap e Zoop no Brasil, estão oferecendo o conceito de serviços financeiros white label, em que fornecem um conjunto de produtos ou serviços, como cartões de crédito ou mesmo uma plataforma para empresas que querem oferecer esses serviços aos seus clientes. Estão essencialmente criando outras fintechs. 

Combinando os conceitos de Banking as a Service e de embedded finance, estamos vendo a incorporação dessas características por outros setores, tais como o de imóveis (proptechs) ou o agronegócio (agtechs), que não fazem parte diretamente do setor de serviços financeiros. Nesse sentido, o setor que tem liderado essa interseção é o imobiliário, com a vertical de financiamento imobiliário.

Carlos Ramos de la Vega, gerente de capital de risco da LAVCA

Mas, estamos vendo também a interseção de fintechs com as agtechs; para que pequenos e médios agricultores tenham acesso direto a mais capital. Estamos vendo também a integração de sistemas de pagamento digitais na saúde, com o crescimento da telemedicina. 

LABS: Relatórios recentes apontam para o crescente interesse dos investidores em empresas com posições fortes em ESG (Meio Ambiente, Sustentabilidade e Governança). Na América Latina, o que você observa em termos de preferência dos investidores por startups com foco em ESG?  

CRV: A história do ESG na América Latina inicialmente tem se concentrado em alcançar uma inclusão financeira mais ampla, é o caso do avanço gradual de fintechs que fornecem serviços aos segmentos menos atendidos em muitos países da região. Infelizmente, as instituições financeiras tradicionais não têm sido capazes de garantir condições de crédito ou fornecer serviços bancários a todos que precisam.

Mais recentemente, estamos vendo a ascensão de tecnologias “limpas” (as cleantechs), voltadas para questões climáticas; não apenas porque os administradores de fundos estão interessados em apoiar essas oportunidades, mas também porque os sócios que investem nesses fundos estão interessados em apoiar esses negócios; e eles estão procurando empresas com um forte componente ESG desde o início.

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Para as startups em estágio inicial, principalmente, é um desafio ser capaz de provar seu impacto ESG. Definitivamente, estamos vendo um movimento dos fundos e das próprias empresas para que elas consigam medir e quantificar o impacto de suas operações. Um dos aspectos interessantes aqui é como as startups cleantechs que estão recebendo investimentos vão reduzir as emissões de CO2 e o consumo de gás combustível, por exemplo. Como você pode realmente ter um impacto a longo prazo?

LABS: Esse ano está se encaminhando para ser um ano recorde de IPOs, inclusive de empresas de tecnologia latino-americanas, especialmente as do Brasil. Como você compararia as preferências dos gestores de fundos membros da LAVCA por listar localmente na B3, do Brasil, ou na Nasdaq, que parece ser o destino visado pela maioria das IPOs das empresas brasileiras nesse ano? 

CRV: Acredito que a escolha das empresas por onde listar é uma escolha muito estratégica, tanto em relação à visibilidade que as empresas almejam ter globalmente quanto em relação a onde suas operações estão concentradas.

Ouvimos de nossos próprios fundadores que se uma empresa tem uma operação predominantemente brasileira, por exemplo, então existe um argumento mais forte para que ela considere o mercado local para listar sua empresa. A menos que ela queira expandir suas operações para fora do Brasil, a visibilidade global pode não ser o mais adequado no momento. Por outro lado, há algumas empresas que já têm operações regionais e que estão maduras o suficiente para avançar globalmente, nesse caso é natural que considerem listar na Nasdaq. 

Carlos Ramos de la Vega, gerente de capital de risco da LAVCA

Dois exemplos diferentes de estratégias de abertura de capital que vimos nesse ano são a da GetNinjas, uma empresa local de serviços para a América Latina, que arrecadou cerca de US$ 60 milhões em financiamento e seguiu uma estratégia de bootstrapping antes de se tornar pública na B3. E temos a dLocal, uma processadora de pagamentos cross-border do Uruguai, que levantou cerca de US$ 403 milhões em fundos de capital de risco antes de se tornar pública na Nasdaq. Estes são dois lados de uma mesma moeda para empresas extremamente bem sucedidas: uma no mercado local e outra em um mercado global. Definitivamente, estamos vendo uma mistura de ambas as estratégias.

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Também tem havido a consideração dos SPACs como uma nova forma de levantar capital. Por exemplo, a Satellogic, sediada na Argentina, está planejando agora abrir o capital através de um SPAC, depois de obter financiamento substancial de investidores proeminentes. A proposta da empresa é democratizar o acesso a serviços baseados no espaço, reduzindo as barreiras para se obter dados via satélite em tempo real. Eles estão fazendo várias parcerias com a SpaceX, do Elon Musk, para colocar satélites em órbita para monitorar a taxa de desmatamento ou fornecer tendências culturais mais precisas, a fim de fornecer mais inteligência para ajudar a melhorar a Amazônia, por exemplo. 

LABS: O último relatório divulgado pela LAVCA, sobre o primeiro semestre de 2021, aponta que o total de investimentos em startups latino-americanas se encaminha para superar US$ 10 bilhões até o final do ano. Você está surpreso que o investimento na região esteja crescendo tão rapidamente? 

CRV: Como organização, não podemos fazer nenhuma declaração prospectiva em termos de números finais, mas se mantivermos o ritmo de investimento que temos no momento, definitivamente veremos alguns recordes estabelecidos durante a segunda metade de 2021. 

Acho que o que estamos vendo em 2021 é o resultado de anos de trabalho tanto para o ecossistema de capital privado quanto para a concentração do pool de talentos nas principais economias da América Latina. E agora esse talento está sendo apoiado pela quantidade certa de capital para que essas empresas possam escalar. O interesse global que estamos vendo na América Latina já era esperado há muito tempo.

Nota: A partir do primeiro trimestre de 2022, a LAVCA começará a lançar relatórios trimestrais de análise de dados abrangendo a indústria latino-americana de private equity e capital de risco. Para acessar seu novo Diretório de Startups da América Latina de 2021, clique aqui.

(Traduzido por Carolina Pompeo)