Fabio Carrara, CEO da Solfácil. Foto: Paulo Vitale/ Divulgação Solfácil
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Com novo aporte de R$ 21 milhões, a fintech brasileira de energia solar Solfácil quer atender um novo tipo de cliente: empresas

O aporte foi liderado pelo Valor Capital Group e será usado também para que a empresa aumente sua base de parceiros para 5 mil ainda neste ano. O CEO da Solfácil, Fabio Carrara, conversou com o LABS sobre os planos da fintech

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A Solfácil, primeira fintech de energia solar no Brasil, recebeu R$ 21 milhões em uma rodada de investimento Series A liderada pelo Valor Capital Group, gestora que já investiu em unicórnios como a Stone, Gympass e Loft. Investidores de uma rodada anjo anterior, de R$ 4 milhões, em 2018, também participaram do novo aporte.

O recurso será usado em tecnologia, expansão comercial e lançamento de novos produtos de crédito, conforme o CEO da startup, Fabio Carrara, contou ao LABS. Carrara, que fundou a empresa em 2018, aliou o know how em energia fotovoltaica para apostar em um modelo de negócio inédito no Brasil: fornecer linhas de financiamento para energia solar. 

Foto: Paulo Vitale©All Rights reserved/Divulgação Solfácil

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Mas afinal, o que faz uma fintech solar?

Diferentemente de outros setores de fintech – segmento hoje popular no Brasil – que atuam com créditos consignados e capital de giro, o modelo de negócio da Solfácil está pautado em concessão de crédito especificamente para energia solar. 

“Uma fintech solar é uma operação de crédito tradicional, é um triângulo que envolve cliente, que está comprando o sistema e a empresa, que está prestando o serviço para o cliente, além do agente financiador, que somos nós”, explica Carrara. A Solfácil chega ao cliente por meio da parceria com a empresa instaladora e financia o cliente para comprar o sistema dessa empresa. Nesse processo de financiamento, a fintech não só avalia o crédito mas também o projeto proposto pela empresa para o cliente. 

Carrara começou a atuar no setor com uma empresa de integração, a Solstar, que ainda opera e já instalou mais de 1,000 sistemas de energia solar no Brasil. A empresa, contudo, já não tem mais relação com ele. O empresário conta ter percebido há dois anos que o maior gargalo para alavancar a energia solar no País era o acesso aos equipamentos, e assim surgiu a Solfácil.

Vontade de colocar energia solar não falta no Brasil. O Ibope mostra que mais de 90% dos consumidores desejam colocar energia solar nas suas casas.

Fabio carrara, ceo e fundador da solfácil

“Estou no setor já há cinco anos, comecei com uma operação de engenharia, eu mesmo já instalei centenas de sistemas fotovoltaicos”, diz. Por isso, ele acredita que o diferencial da empresa é o conhecimento na parte técnica do setor, para além do financeiro. “A gente acredita que o risco de uma operação solar está mais na parte técnica do que no crédito tradicional. É importante você emprestar dinheiro para quem tem um bom histórico de crédito, mas mais importante ainda em energia solar é financiar um bom projeto, porque no final das contas é a economia gerada pelo projeto que vai repagar o financiamento”, afirma. 

“Repagar o financiamento” porque, segundo o CEO, em geral um sistema de energia solar dá um retorno sobre o capital investido superior a 10 vezes mais o rendimento atual da poupança no Brasil, com a taxa de juros a 2,25% ao mês. As instalações pelo financiamento da startup podem ser parceladas em até 120 meses, com juros mensais a partir de 0,79% ao mês. 

A empresa já promoveu R$ 100 milhões em empréstimos. A expectativa é triplicar esse valor nos próximos 12 meses e chegar a um total de R$ 10 bilhões em cinco anos. “Agora já até passamos a nos beneficiar da situação [do coronavírus] porque ter a solução digital e ter acesso ao mercado de capitais no momento em que outros players estão tendo dificuldade, além do aporte da Valor Capital Group, tudo isso faz com que a Solfácil saia fortalecida da crise. Estávamos preparados para um cenário de estresse e até acreditávamos que seria uma referência para o futuro, falar ‘esse aqui é o pior que nós podemos chegar'”, conta. 

Um estudo da consultoria Greener em relação ao mercado fotovoltaico no Brasil na primeira metade do ano mostra que a geração de energia solar manteve a tendência de crescimento, embora tenha apresentado pressão de custos por conta da pandemia. Mais de 90% dos equipamentos de energia solar vêm de fora do Brasil, e, segundo a consultoria, apesar de ser observada uma queda no volume de módulos solares importados pelo segundo trimestre consecutivo, houve um aumento de 93% no primeiro semestre deste ano com relação ao mesmo período do ano anterior.

“Financiamento se tornou mais relevante para o mercado de energia solar, porque o mercado está voltando, mas algumas pessoas tiveram que usar a pouca poupança que tinham para se manter. Então agora, para migrar para a energia solar, o financiamento vai ser ainda mais relevante do que era há dois, três meses atrás”, diz.  

A transformação da Solfácil para o mundo das finanças

“Em tecnologia, vamos continuar investindo em automatização da plataforma para melhorar a experiência do parceiro, da empresa de instalação ao cliente final”, diz. Ele lembra que, para além de melhores interfaces da plataforma, a empresa quer investir em segurança. A fintech caminha para virar uma instituição financeira, que tem um compliance mais pesado se comparado ao modelo atual de serviço da Solfácil, de correspondente bancário da Socinal, instituição financeira parceira bancarizadora. 

A Solfácil trabalha para se transformar em uma Sociedade de Crédito Direto (SCD) nos próximos 12 meses. Atualmente, a startup opera por meio de parcerias com empresas da cadeias de integração de energia fotovoltaica que vendem os projetos para seus clientes. Ela conta com 1,500 empresas parceiras que utilizam sua linha de financiamento por todo o Brasil. A meta, contudo, é atingir as 14,000 empresas que atuam no país, conforme conta o CEO. “Para chegar rápido [nesse número], a gente quer atingir 5,000 parceiros até o final do ano”, afirma, acrescentando que o modelo de negócio da fintech cria recorrência das empresas parceiras. A base de parceiros da Solfácil cresce entre 20 e 30% ao mês, segundo dados fornecidos pela empresa.

“A gente quer investir pesado nisso [na expansão comercial] para consolidar os canais e não dar muito espaço para empresas que estão vendo o que a gente está fazendo de diferente queiram copiar nosso modelo”. 

A rodada da Valor Capital Group é de equity, na qual a gestora se tornou sócia minoritária. “É um capital importante para o crescimento, mas outro capital que é importante é o funding para fazermos os empréstimos”, conta Carrara. E esse foi o principal desafio da operação da Solfácil durante a pandemia do coronavírus, o acesso a funding de crédito.

A Solfácil acessa esse dinheiro em mercado de capitais vendendo debêntures que a empresa emite no mercado. No primeiro momento da pandemia, esse mercado de crédito fechou quando os grandes fundos de crédito tiveram um estresse, com muitos saques de carteira e investidores internacionais perdendo dinheiro na bolsa. “Eles ficaram com medo e começaram a resgatar o dinheiro. Por um mês, nós sofremos bastante para dar continuidade no acesso a esse capital, mas a gente conseguiu superar. Trouxemos vários novos fundos para comprar nossas debêntures. Foi um momento delicado mas hoje estamos batendo recordes de volume”, conta.

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Para conceder seus financiamentos, a Solfácil promoveu neste ano uma emissão de debêntures de R$ 120 milhões e pretende financiar mais de R$300 milhões nos próximos 12 meses, em títulos verdes. Segundo a empresa, alguns dos principais fundos de crédito do Brasil, com ativos sob gestão superior a R$ 20 bilhões, têm comprado suas debêntures. Isso porque, mesmo com a crise, a carteira de crédito da fintech, não sofreu com perdas e possui índices de atraso baixos, segundo afirmação do CEO. “A carteira está performando bem, com volume baixos de atrasos. Nunca perdemos dinheiro, nunca tivemos um cliente que deu default”. 

Em junho a empresa bateu um recorde histórico de volume de empréstimos e em julho cresceu pelo menos 60% em relação ao recorde. Agora, a Solfácil quer ainda lançar uma linha de crédito parcelado sem juros de curto prazo e conceder financiamento para projetos de empresas. Hoje, a fintech só opera com projetos para pessoas físicas. “Todos esses produtos exigem um certo aporte de capital nosso para fundear os empréstimos, então toda vez que a gente cria um produto de crédito, trazemos em mercado de capitais investidores, mas eles exigem que a gente coloque um pouco do nosso próprio capital para alinhar interesse”, explica.