Paulo Martins, CEO e cofundador da Arena. Foto: Divulgação.
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Fundada por brasileiros no Vale do Silício, Arena levanta US$ 13,6 milhões e faz "caminho de volta"

Experiências na Nasa e na Hulu, e até mesmo um ano e meio morando no próprio carro, fazem parte da trajetória de Paulo Martins, CEO e cofundador da Arena — uma plataforma que está ajudando empresas como Globo e Nubank a criarem suas próprias comunidades digitais

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A martech Arena, uma startup dedicada a ajudar empresas a trazer clientes de diferentes plataformas e redes sociais para dentro dos seus próprios canais, criando engajamento e construindo comunidades, anuncia nesta quarta-feira (30) uma rodada Série A de US$ 13,6 milhões liderada pela CRV e a Craft Ventures e por executivos do Shopify, Twitter, Twilio, Datalog e Intercom. Os novos recursos chegam junto com o desembarque físico da Arena em terras brasileiras, movimento puxado pelo peso de alguns dos clientes que a startup já conquistou por aqui, como Globo, Nubank, VTEX, UOL e USP. Mais do que uma startup explorando o potencial da população mais conectada da América Latina, Paulo Martins, CEO e fundador da Arena, quer que a startup seja uma ponte para todo brasileiro que deseja saber como é empreender nos EUA.

Em entrevista ao LABS, há cerca de duas semanas, pouco depois do fechamento da rodada, ele contou um pouco da sua trajetória e do que está por trás do escritório no Brasil, no qual a Arena está investindo quase US$ 3 milhões.

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Martins se formou em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Uberlândia e emendou dois mestrados, um na França e outro nos Estados Unidos. A última pernada era também a “desculpa” que Martins precisava para vivenciar aquilo que era o seu maior sonho: conhecer de perto o Vale do Silício para um dia abrir sua própria empresa de tecnologia.

Em 2008, ele trabalhou como engenheiro de software na Nasa por um ano, depois passou dois anos como engenheiro de dados na Ubisoft e, depois disso, mais dois anos e meio no time de publicidade da Hulu — ele foi o funcionário 74 da plataforma de streaming de vídeo que hoje é controlada pela Disney e que, à época, 2012, estava no seu momento de escalada nos Estados Unidos.

“Ali eu pude observar e beber da fonte sobre como funciona uma startup típica do Vale do Silício. Aprendi tudo o que eu tinha para aprender, saí da empresa e fui morar no meu carro por um ano e meio. Foi uma fase de bootstrapping (expressão em inglês para quando o empreendedor cria seu produto e o introduz ao mercado com recursos próprios), entre 2015 e 2016. Em 2017, é que eu fundei a empresa [ao lado de Rodrigo Reis, ex-CTO da Arena]”, conta Martins.

Três anos depois, em 2020, a Arena levantou uma rodada seed de US$ 2,3 milhões, de investidores do Vale e também da Redpoint eventures. Antes da rodada seed, a empresa já tinha levantado cerca de US$ 1 milhão de investidores como o Incubate Fund, a Plug and Play and a Intango Ventures.

Martins não abre números de receita, mas diz que o faturamento da Arena cresceu mais de cinco vezes entre 2020 e 2021. Atualmente, a martech atende mais de 25 mil empresas, que por sua vez têm mais de 200 milhões de usuários mensais, que enviam 2 bilhões de mensagens todos os meses. A meta para este ano é crescer, no mínimo, quatro vezes, alcançando a marca de 100 mil clientes.

A exemplo de Globo, Nubank e VTEX no Brasil ou Fox Sports, Microsoft e Sony Music nos Estados Unidos, empresas dos setores de e-commerce, fintechs, mídia e educação online estão no centro das atenções da startup

A Arena tem desde pequenas empresas como clientes, que pagam US$ 99 ou R$ 288 por ano, como até grandes empresas (40% do total de clientes da Arena), que pagam planos anuais de até US$ 500 mil. A Arena também usa a boa e velha estratégia freemium, adotada por empresas como Slack, Dropbox ou mesmo Spotify, por meio da qual qualquer cliente tem acesso grátis, mas limitado aos recursos básicos do Arena.

“Nosso objetivo [com a nova rodada] é de voltar os olhos para as origens. Primeiro, pelo potencial de clientes, que vieram até agora organicamente. Segundo, para trazer talentos que queiram fazer parte de uma empresa de crescimento rápido, que queiram experimentar, entender e empreender no Vale do Silício. Membros da Arena possuem ações da empresa e também têm acesso a um sponsorship para passar um período no Vale do Silício, com auxílio para visto e tudo o que é necessário”, explicou Martins.

Martins busca talentos principalmente nas áreas de produto e desenvolvimento e disse que 55 vagas devem ser abertas no Brasil neste ano (algumas já estão publicada na página de carreiras da empresa).

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Como a Arena funciona

O Arena fornece um pixel exclusivo que capta dados primários dos clientes das empresas que atende. Esses dados primários são processados por meio de um mecanismo de IA e inseridos em um sistema de personalização de experiência – isso quer dizer que os usuários receberão mensagens e ofertas personalizadas, de acordo com o que consomem dentro dos canais da empresa. A grande sacada a Arena, é que ela oferece essa possibilidade de personalização em escala, combinada a outras ferramentas de engajamento, como chat ou blog ao vivo e notificações no navegador, por exemplo. Com essa abordagem, a Arena traz para dentro dos canais das empresas os clientes que estão dispersos nas diferentes plataformas onde ela está presente, incluindo rede sociais – algo fundamental nessa nova era do marketing digital, de novas regras de privacidade e fim dos cookies.

Em outras palavras, a Arena reverte as conversas e interações com os clientes de volta aos sites das empresas para que elas possam controlar totalmente a experiência sem precisar depender de intermediários.

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No caso da Globo, por exemplo, a Arena tem ajudado a trazer interessados no Big Brother Brasil, que conversam em redes como o Twitter, para dentro do site e canais da gigante de mídia. Os usuários são convidados, via um story no Instagram, por exemplo, a participar de um bate-papo sobre a eliminação de um dos candidatos. Clicando no link eles vão para dentro do site da Globo, onde as ferramentas da Arena já estão plugadas. Para participar do live-chat, eles fazem um pré-cadastro. A cada visita, interação, a Arena vai aprendendo, anonimamente, do que o usuário gosta. “São 50 mil a 100 mil acessos simultâneos na hora do chat, o que nos traz um desafio técnico gigante inclusive, porque temos de criar uma experiência personalizada para cada um deles”, pontuou Martins. Ali, os usuários recebem mensagens e ofertas não só para assinar a GloboPlay e assistir o BBB 24 horas, por exemplo, mas também outras sugestões de conteúdos e serviços que podem vir a interessá-los baseado no comportamento online deles.

Os novos talentos que a Arena está buscando também terão a missão de fortalecer uma plataforma resiliente o suficiente para continuar atendendo casos como o da Globo, com tráfegos imensos e potencial de crescimento igualmente gigante.

“Nós temos tudo, o produto, a demanda, os investidores. Agora só faltam os talentos que quiserem acompanhar a nossa escalada. Todo mundo que entrar agora vai vivenciar todo o processo”, ressaltou Martins.