Igor Senra, CEO e co-fundador da Cora. Foto: Cora/Divulgação
Negócios

Fundadores da Cora querem surfar onda de novas regulações do BC para crescer

Igor Senra, co-fundador da fintech ao lado de Leonardo Mendes, conversou com o LABS sobre como o open banking pode impulsionar a expansão da startup, que tem 20 mil pequenos empresários como clientes

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Igor Senra e Leonardo Mendes co-fundaram uma das primeiras startups de soluções de pagamento online do Brasil em 2007, chamada Moip (que hoje pertence à PagSeguro). Um ano antes, o Banco Central havia iniciado os estudos para a abertura do mercado de adquirência no Brasil, então concentrado nas credenciadoras da Visa, VisaNet (hoje Cielo), e Mastercard, RedeCard (hoje Rede). A abertura desse mercado e a implantação do chamado modelo de quatro partes abriu uma série de possibilidades para o desenvolvimento do setor no país. Mais de uma década depois, uma nova onda de mudanças regulatórias também deve beneficiar a nova fintech dos dois empreendedores, Cora.

“Com a criação da SCD (Sociedade de Crédito Direto), que é o tipo de negócio que a gente tem hoje, acho que o mesmo movimento que aconteceu no mercado de adquirência vai acontecer na indústria financeira tradicional, com os bancos. Estamos aqui tentando pegar a nossa parte nessa mudança de eixo que vai acontecer”, disse Senra em entrevista ao LABS. Outra mudança importante para os negócios da Cora, que estreia no fim desse mês, é a primeira fase do open banking, que ajudará a fintech a ampliar ainda mais o seu portfólio de parceiros e serviços.

Senra e Mendes lançaram a Cora neste ano, com uma missão nada simples: ser “o banco dos pequenos negócios”. As pequenas empresas ganharam a atenção dos dois empreendedores ainda na época do Moip. “Quando a gente fundou o Moip não tínhamos nenhuma pretensão de dizer que a empresa iria mudar o mundo. A gente queria copiar o PayPal. Foi trabalhando no Moip que a gente foi construindo (o negócio) com o pequeno empreendedor e descobrimos o quanto ele é importante para a economia. Foi um momento ‘eureka’ quando percebemos que não estávamos lá para copiar o PayPal e sim por conta do pequeno empreendedor, a gente tinha várias histórias de sucesso”, relembrou Senra. 

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Ele diz que não queria ter vendido o Moip, mas o fez, porque um dos sócios precisava do dinheiro. A startup foi vendida em 2016 para a Wirecard, tornando-se subsidiária da empresa alemã, e só neste ano foi adquirida pela PagSeguro. Senra e Mendes ainda ficaram à frente da empresa até 2018, quando a Wirecard decidiu mudar o foco do Moip dos pequenos negócios para os grandes clientes. Foi aí que os co-fundadores decidiram deixar a startup para trás. 

Depois do Moip, Senra e Mendes queriam um negócio que seguisse os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Se a gente conseguisse fazer com que o nosso cliente crescesse de forma sustentável por 10 anos e modificar a dinâmica da infraestrutura financeira do Brasil, poderíamos mudar a relação do PIB per capita do país, que é de US$ 15 mil dólares por pessoa para US$ 21 mil por pessoa”. 

Igor Senra, co-fundador da fintech Cora. Foto: Divulgação

O pontapé inicial da Cora foi dado em dezembro de 2019, quando a recém-criada startup levantou US$ 10 milhões em uma rodada Seed da Kaszek Ventures e Ribbit Capital. Se para muitas empresas a pandemia do coronavírus foi o momento de repensar o negócio, a Cora já nasceu com o DNA de startups que desafiam a crise. A fintech atuava em versão beta fechada até o início da pandemia. A operação para valer começou em maio, quando o Brasil registrava 500 mil pessoas infectadas e rígidas medidas de isolamento e trabalho remoto. 

“Tudo isso (a empresa) foi feito remotamente, sabendo que muitos dos clientes estão passando por situações difíceis. A gente levou o produto certo, que ajuda o empreendedor a ter menos custos, a olhar o caixa da empresa e a forma de ele gerir o negócio”, disse Senra.

Senra contou que os motivos que levaram a criação da Cora se tornaram mais importantes com a pandemia de COVID-19. “A digitalização é uma força inevitável. Se isso era uma verdade antes da pandemia, depois da pandemia é 50 vezes mais verdade. Todo mundo quer uma solução mais barata. E as pessoas querem um produto que seja simples e que ajude na gestão do negócio”, disse. 

Até agora, a Cora trabalhou para ter um produto consolidado e garantir a licença de SCD do Banco Central. A fintech oferece uma conta digital sem taxas para pequenas e médias empresas em um aplicativo gratuito, e lançou, em outubro, um cartão de débito com bandeira Visa, que deve ganhar a função crédito também nos próximos meses.

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Ainda que o cartão receba uma fatia da transação, a Cora ainda não gera receita significativa, já que o aplicativo é gratuito. A única tarifa cobrada dos correntistas da Cora é a dos saques na rede Banco24horas, de R$ 6,50 por saque. 

A ideia é que por meio da plataforma da Cora, que oferece ferramentas de gestão financeira e acesso às empresas parceiras da Cora, e do novo cartão, os empreendedores consigam separar bem seus gastos pessoais da operação empresarial – algo que ainda é um desafio para a maioria dos pequenos empresários brasileiros.

Facilitar a gestão do negócio é também ajudar a prevenir fraudes. No Moip, Senra e Mendes foram vítimas de uma fraude interna de R$ 500 mil, mas que poderia ter escalado e quebrado a empresa se não tivesse sido descoberta. O motivo foi a falta de divisão de papéis no departamento financeiro. 

Na época, a empresa escalou rápido e as tarefas de divisão de lançamento, pagamento e conciliação (barreiras para a fraude) que antes eram executadas por Senra e outras duas pessoas, acabaram sendo delegadas a apenas um funcionário, que, em meio às 20 mil TEDs diárias, retirava uma porcentagem para a conta pessoal dele. 

A experiência ajudou Senra a identificar padrões de fraude em outros clientes ainda no Moip e ajudá-los a solucionar o problema antes que houvesse prejuízos.

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Open banking para ampliar o número de parceiros da Cora

A Cora está apostando também na nova regulamentação do open banking no Brasil, que permitirá o compartilhamento de dados bancários dos clientes mediante a autorização deles, para crescer. Com esse compartilhamento, a plataforma da Cora atrairá mais parceiros, e, com isso, oferecerá mais serviços a seus clientes. 

Entre os parceiros atuais da Cora há empresas de soluções de contabilidade como Agilize, AccountBank, Qipu e Conube, e softwares de gestão financeira como Ativy, Uno ERP, Nimbly, MarketUp, ConnectPlug, Mei Grátis, Granatum ERP Financeiro e AppelSoft, que reduzem as possibilidade de erro e fraude na gestão dos pequenos negócios. “Eu acho que todo mundo quer a história do back office com o financeiro bem organizado. Mas ninguém quer ter esse trabalho. Normalmente é necessário ter atividades duplicadas para ter o mínimo de segurança. Nessas parcerias estamos conectados com empresas de software de gestão e de contabilidade. Operamos como se fossemos o maestro, só fazendo a coisa acontecer”, explica. Quando a transação é lançada no software de gestão, essa informação vai para a Cora, e a transação já está computada na fintech. Depois, o sistema de gestão fica sabendo em tempo real e essa mesma informação é entregue para o sistema de contabilidade. “A gente consegue dar a segurança sem ter retrabalho. Nosso objetivo é resolver isso antes e não ter esse problema [de fraudes] mais”.  

Com 20 mil empresas como clientes e uma meta de fechar o ano de 2020 com o dobro disso, a Cora tem hoje pouco mais de 60 funcionários e cerca de 20 vagas abertas.

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