O CEO da fintech Liber, Victor Morandini Stabile
O CEO da Liber, Victor Morandini Stabile. Foto: Divulgação.
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Liber Capital compra fatia majoritária da Adianta para ampliar atuação em recebíveis e formar carteira de R$ 3 bilhões

As duas fintechs têm modelos diferentes, mas complementares e viram a demanda por crédito crescer durante a pandemia do novo coronavirus

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Crise é hora de pisar no freio, certo? Não para as fintechs brasileiras, que estão vivendo um momento intenso de novos investimentos, fusões e aquisições. A mais nova operação no setor está sendo anunciada nesta quinta-feira pela fintech de antecipação de recebíveis Liber Capital. A empresa está comprando 60% de outra fintech do mesmo ramo, a Adianta. Juntas, elas terão uma carteira ativa de R$ 3 bilhões. 

As duas empresas são contemporâneas, nasceram em 2017, mas têm modelos diferentes de originação de crédito e também perfis de clientes bem distintos. A Adianta capta recursos com um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) próprio para antecipar valores para pequenas e média empresas, que faturam em média R$ 15 milhões ao ano, tendo concedido R$ 200 milhões em crédito até hoje e descontado 50 mil duplicatas (título que representa o compromisso comercial entre uma empresa e um fornecedor). Esses clientes chegam à Adianta via busca no Google, agentes autônomos e outras empresas parceiras. 

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Já a Liber Capital estrutura e opera programas de financiamento para cadeias fornecedores de grandes empresas, ou seja, atua em um ciclo fechado. “A gente busca financiadores (são cerca de 1 mil) entre bancos, fundos e outras empresas. Com essa estrutura, sabendo bem quem é o devedor, a empresa dona do crédito (também chamada de empresa âncora no jargão do setor), e o financiador, o risco se dilui”, explica o CEO da Liber, Victor Morandini Stabile ao LABS.

Por que a aquisição nesse momento?

Primeiro, porque a crise também traz oportunidades. Dada a dificuldade para se obter empréstimos na rede bancária em meio à pandemia do novo coronavírus, as empresas, de todos os tamanhos, têm buscado canais alternativos para captar recursos. Só no primeiro semestre deste ano, a Liber movimentou R$ 3,3 bilhões, um salto de 1.000% em relação ao mesmo período de 2019.

“Mas a Liber só consegue antecipar os recebíveis detidos contra empresas conveniadas, o que às vezes corresponde a 10%, 15%, 20% do total do que o fornecedor tem a receber. Com a aquisição da Adianta é possível fazer uma avaliação mais ampla desse fornecedor, e antecipar os outros 80% de recebíveis potenciais, aumentado o valor transacionado de uma maneira geral”, pontua o CEO da Liber.

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Segundo, porque os concorrentes também estão se movimentando nesse sentido. Ainda na semana passada, a XP Inc. adquiriu uma fatia majoritária da Antecipa, outra fintech do ramo de recebíveis. “Nós já vínhamos conversando sobre uma parceria há uns dois anos. Também fomos abordados por outros players mais tradicionais, mas preferimos nos unir com outra fintech, que está no mesmo patamar, para manter a independência, a velocidade, a inovação, que fazem parte de um mesmo mindset”, diz Marco Camhaji, CEO da Adianta ao LABS.

Marco Camhaji, CEO da Adianta. Foto: Divulgação.

A união completa das duas fintechs, explicam os dois executivos, pode levar até dois anos. Em termos de funcionários, a Liber tem 50 e a Adianta, 20. “A gente ainda está avaliando como fazer o cross-sell (venda cruzada das soluções das duas empresas para as duas bases de clientes), como será a nova marca, enfim. Até dois anos imaginamos que seremos uma companhia só”, diz Stabile.

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Juntas, as duas fintechs também vão poder explorar o potencial de uma novidade para todo o segmento: a regulamentação da duplicata eletrônica, lançada em maio no Brasil. De maneira geral, os especialistas dizem que a digitalização das duplicatas tem um potencial para elevar a concessão de crédito e de desburocratizar ainda mais o mercado de recebíveis, tornando o processo tão seguro e centralizado quanto o de recebíveis de cartões.

Segundo o jornal Valor Econômico, o Banco Central, que ainda precisa definir um padrão para os registros dessas duplicatas em todo o país, acredita que duplicatas digitais podem representar uma mudança similar àquela que os empréstimos consignados trouxeram para o crédito pessoal em meados dos anos 2000 no Brasil. Ou seja, baixar consideravelmente os custos e, consequentemente, as taxas de juros praticadas nesse segmento.