José Sérgio Osse, head de comunicação do QuintoAndar. Foto: QuintoAndar/Divulgação
Negócios

Pandemia acelera digitalização do mercado imobiliário latino-americano

Das startups QuintoAndar e La Haus, aos portais do Grupo Zap, todos sentiram a demanda dos consumidores por processos 100% online e menos burocráticos

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A pandemia da COVID-19 acelerou um processo que já vinha ocorrendo nos últimos anos em toda a América Latina: a digitalização do mercado imobiliário. Diante do distanciamento social, a busca por imóveis em plataformas virtuais cresceu, o que confirmou a aposta de startups e empresas que atuavam fortemente na internet e que, ao mesmo tempo, pressionou incorporadoras e imobiliárias a investirem rapidamente em tecnologia para acompanhar essa transição do mundo físico para o digital.

A mudança não se limita aos anúncios em sites e aplicativos, que ficam cada vez mais detalhados e com ferramentas interativas, como fotos, vídeos, passeios virtuais e maquetes em três dimensões. O processo todo foi impactado. Reuniões deixaram de ser presenciais e mesmo a assinatura de contratos e de financiamentos passaram a ser celebrados digitalmente. Se não toda a jornada, boa parte dela exigiu apenas um computador ou um smartphone.

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“Com as pessoas sendo forçadas a circular menos, caíram algumas das barreiras que impediam mais gente de usar ferramentas digitais buscar uma nova casa ou colocar um imóvel para alugar ou vender. É um processo sem volta”, analisa o head de comunicação do QuintoAndar, José Sérgio Osse.

O QuintoAndar nasceu no mundo digital. No início era destinado ao mercado de aluguéis, mas desde o começo de 2020 se voltou também para as vendas, primeiro em São Paulo e mais recentemente no Rio de Janeiro. O que o aplicativo faz é encurtar o processo, substituindo burocracias que precisavam ser resolvidas pessoalmente pela tecnologia. E, segundo Osse, isso vale até para situações mais triviais, que foram importantes nos momentos de restrição de circulação, como o agendamento online de visitas, negociação virtual e visitas por vídeos.

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São esses pequenos detalhes que fazem a diferença para quem busca um imóvel. O passeio virtual, uma espécie de Google Street View de casas e apartamentos, era uma ferramenta importante. E tornou-se ainda mais agora. Segundo dados da pesquisa A Influência do coronavírus no mercado imobiliário, realizada pelo Grupo ZAP, houve um aumento de 158% nas buscas por imóveis com tours virtuais nos portais ZAP e Viva Real — ambos pertencem ao grupo. Como consequência, o número de anúncios com passeios virtuais nessas plataformas também cresceu: 51% de maio a julho.

“Sem dúvida a pandemia acelerou uns dez anos o processo de digitalização do mercado imobiliário, e foi uma aceleração absurda. Foram passos importantes para desburocratizar o mercado, desde o processo de busca até a assinatura de contratos. Todas as etapas ganharam bastante velocidade. Do lado do consumidor, o que acredito é que ele começou a filtrar mais os imóveis para a visita presencial. Não é necessariamente de tecnologia, mas de mindset, com fotos bem tiradas e tour virtual. É uma experiência mais imersiva”, comenta a economista do Grupo ZAP, Deborah Seabra.

Deborah Seabra, economista do Grupo ZAP. Foto: Grupo ZAP/Divulgação

Tecnologia e confiança

A pandemia também alavancou os negócios da imobiliária virtual La Haus na Colômbia e no México. A startup fundada em 2017, que recebeu recentemente um aporte de US$ 10 milhões da Kaszek Ventures, aumentou a participação de mercado em Bogotá e Medelín de 4% para 30% no segmento em que opera. E na Cidade do México, onde iniciou as operações em abril de 2019, a pandemia acelerou tanto o crescimento que o negócio no país já representa 25% do total da empresa.

De acordo com o presidente da La Haus, Rodrigo Sanchez-Rios, a principal contribuição da tecnologia nesse setor é a transparência e a confiança que leva para o consumidor, com anúncios que correspondam à realidade dos imóveis, que de fato estejam disponíveis e que sejam vendidos a um preço real de mercado. Para ele, a tecnologia é responsável por igualar “as condições de acesso à informação sobre oportunidades de investimento e financiamento, que antes se restringia a alguns poucos privilegiados.”

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“A tecnologia e os dados são responsáveis ​​por garantir que os compradores tomem esta decisão suficientemente informados e com possibilidade de comparar opções, para que, assim, sintam-se, de maneira genuína, que este processo foi racionalmente o melhor que conseguiram”, diz Sanchez-Rios.

O uso massivo da tecnologia neste setor também reflete na qualidade de vida das pessoas, especialmente dos interessados nos imóveis. Quanto mais informações à disposição, melhor fica o filtro para as visitas presenciais. Ao selecionar menos imóveis, porém com mais possibilidade de fechar negócio, o consumidor ganha tempo e evita, por exemplo, a necessidade de deslocamentos inúteis em grandes cidades.

Rodrigo Sanchez-Rios, presidente da La Haus. Foto: La Haus/Divulgação

“Durante a pandemia, mudou a forma como se pensava a compra e venda de uma casa, uma das indústrias mais tradicionalistas se renovou graças à tecnologia. No ‘novo normal’ as facilidades e confortos que foram oferecidos a usuários durante a pandemia farão parte da oferta de imobiliárias e plataformas imobiliárias”, complementa Sanchez-Rios.

Apesar de toda a facilidade e confiança que o mundo digital proporciona, é muito difícil que o processo todo de compra e venda de imóveis seja realizado sem qualquer contato físico. Pelo menos não para já, especialmente no mercado de usados. “Essa é uma tendência, com certeza, embora seja prematuro dizer que as pessoas vão deixar de vez de querer visitar presencialmente os imóveis onde vão morar. Nosso papel é ter e desenvolver as melhores ferramentas para atender os clientes independentemente da forma que preferem conhecer sua nova casa, seja digitalmente ou presencialmente”, opina Osse, do QuintoAndar.

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Um aspecto que pode mudar essa lógica é o perfil do consumidor. Quem vai ao mercado imobiliário hoje acompanhou o avanço da tecnologia, mas não deposita tudo nela. Ao contrário da geração Z, inserida desde o nascimento no mundo. “É uma questão geracional. A geração Y está agora no mercado imobiliário e daqui a alguns anos será a geração Z, que já nasceu na internet. E esta geração não vai comprar offline e por isso o mercado imobiliário precisa acompanhar as transformações”, alerta Seabra, do Grupo ZAP.

Reação no mercado de novos

A aceleração da digitalização no mercado imobiliário durante a pandemia da COVID-19 foi ainda mais intensa no mercado de lançamentos. A impossibilidade de visitas presenciais durante os períodos de maior restrição de circulação exigiu das incorporadoras investimentos em tecnologia. Mas nem todas as empresas tiveram a mesma velocidade ou capacidade de recursos para responder à demanda que vinha no mundo digital.

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De acordo com um estudo da Brain Inteligência Estratégica, quanto maior a empresa, menos ela sentiu queda na busca por imóveis de forma online durante a pandemia. “É o resultado da forma pela qual as grandes empresas conseguiram se estruturar para entender o consumidor. Não basta o anúncio, mas todo o processo. Quem tinha uma estrutura de inovação no mundo online, saiu na frente, em geral as grandes. Essa é a constatação mais importante”, explica Fábio Tadeu Araújo, sócio-diretor da Brain, empresa qua conduz vários dos estudos regulares da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) no país.

A pandemia ajudou também a mostrar que investimentos em tecnologia, especialmente no anúncio dos imóveis, pode significar uma redução de custos, por exemplo, com apartamentos decorados. Ao disponibilizarem ferramentas já popularizadas por startups do mercado imobiliário, como tours virtuais e maquetes em 3D, as incorporadoras dão ao cliente mais subsídios para fechar o negócio. “Existe o mito de que o consumidor não compra imóvel sem ver. No mercado de lançamentos, o consumidor compra uma abstração, com base em uma planta na parede. Isso independe do valor ou do padrão. Esse foi um ganho de percepção que as incorporadoras tiveram”, completa Araújo.

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