Interior do avião Pilatus PC-12 da Icon Aviation
Interior do avião Pilatus PC-12 da Icon Aviation. Foto: Divulgação
Negócios

Venda individual de assentos impulsiona aviação executiva no Brasil

Startups como Fly Adam e Flapper saem na frente na hora de precificar esses assentos, mas empresas tradicionais como a Líder Aviação também estão acelerando o passo para explorar esse novo mercado

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Desde o início de agosto, as empresas de táxi-aéreo do Brasil estão autorizadas a vender assentos individuais para passageiros, praticamente da mesma maneira que fazem as companhias aéreas. A permissão da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) promete alavancar de vez o setor da aviação executiva no país, que já vem sendo empurrada por startups que aproximaram os aviões particulares de um público que antes não imaginava fazer esse tipo de viagem.

O primeiro passo para aproveitar essa nova medida foi dado pela startup mineira Fly Adam, que iniciou as atividades em março de 2020 como um marketplace para fretamento de aeronaves executivas. Em parceria com a empresa de táxi-aéreo Icon Aviation, começou a vender em setembro assentos em voos entre São Paulo (Congonhas) e Rio de Janeiro (Santos Dumont), às segundas e sextas-feiras. O preço do trecho em um avião Pilatus PC-12, para até oito passageiros, sai por R$ 1.975. “Vamos trazer o consumidor para esse mercado e oferecer preços mais acessíveis”, garante o CEO da Fly Adam, Daniel Diniz.

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Daniel Diniz, da Fly Adam
Daniel Diniz, da Fly Adam. Foto: Divulgação.

A liberação de venda individual de assentos resolveu um grande problema nosso, porque não precisamos mais ser a agência que freta o voo, e agora podemos ser de fato o intermediário que conecta o consumidor a uma operadora

DANIEL DINIZ, CEO da Fly Adam.

O Adam Pool é uma evolução de um sistema criado inicialmente para ajudar as empresas de táxi-aéreo a gerirem suas frotas. Disso surgiu o marketplace, até chegar à venda individual. Um processo que maturou rapidamente, em meio à pandemia do COVID-19, com o embarque de mais de dez operadoras parceiras, entre elas algumas das maiores do país. Hoje, a startup dividiu o negócio em três áreas: Adam Pool (venda individual), Adam Private (fretamento) e Adam UTI Aérea (fretamento de aeronaves para transporte médico).

A possibilidade da venda de assentos deu novos horizontes à Fly Adam, que precisou reforçar a equipe para acelerar o desenvolvimento do Adam Pool, afinal os algoritmos são fundamentais para a precificação dos assentos — são cerca de 40 parâmetros que permitem montar o preço em tempo real. “O projeto de venda individual de assentos é uma aposta nossa, pois estamos saindo do personalizado e indo para o varejo. É uma coisa nova e que vamos descobrir na prática como vai funcionar”, reforça Diniz.

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Um novo mercado

Por ser algo novo, nem a Fly Adam nem as operadoras têm noção exata do tamanho do mercado que se abre com a venda individual de assentos. A quantidade de aeronaves e de empresas de táxi-aéreo certificadas no Brasil podem dar uma ideia: são cerca de 600 aviões, de 120 operadoras. Além disso, a aposta desse novo tipo de atuação está na busca por um público diferente, que ainda não tinha tido contato com a aviação executiva.

“Fizemos estudos de mercado, alguns espelhamentos internacionais, e vimos que esse negócio se proliferou muito e o perfil não é o público tradicional. Acreditamos que o público mais jovem, de até 40 anos, tem grande potencial para usar esse serviço”, projeta o diretor geral da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), Flavio Pires.

A Abag foi quem levou as demandas das empresas de táxi-aéreo para a Anac. A grande preocupação do setor era a falta de clareza. Apesar de entenderem que já poderiam fazer isso, os riscos jurídicos sobressaiam. Por isso, o que a Anac fez foi esclarecer as regras, que são válidas inicialmente por dois anos. A agência vai abrir o processo de consulta pública em breve para a formatação de uma regulamentação definitiva sobre o tema.

Flavio Pires, diretor geral da Abag
Flavio Pires, diretor geral da Abag. Foto: Divulgação.

O Brasil ainda é mal servido em relação à aviação regular. Por isso, o setor visualizou a oportunidade de ocupar o espaço onde o avião comercial não chega. Abriu-se uma oportunidade. É um novo mercado que não era explorado no Brasil

Flavio pires, diretor geral da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag).

O mercado da aviação executiva é pequeno na comparação com as companhias aéreas, mas vem crescendo nos últimos anos. Um dos responsáveis pelo salto foi a Flapper, startup de mobilidade aérea fundada em 2016.

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De certa forma, ela antecipou a venda individual, pois além do fretamento das aeronaves, realiza a venda de voos compartilhados — a Flapper freta o avião e vende os assentos, inclusive em rotas pré-agendadas, como São Paulo-Angra dos Reis.

Em relação a 2019, houve um aumento de 200% no fretamento de aeronaves pela plataforma, especialmente de pessoas que tiveram o primeiro contato com a aviação executiva. Segundo o CEO da Flapper, Paul Malicki, 40% dos clientes nunca tinham voado em um avião particular. “Já eram clientes de primeira classe e classe executiva na aviação comercial, mas não particular. Assim aumentamos o tamanho do mercado”, celebra.

Hoje, o fretamento de aeronaves representa 80% do negócio da Flapper, mas os voos compartilhados e a venda individual de assentos devem crescer. Por enquanto a startup não tem uma data exata de quando vai começar a vender assentos, mas sabe que os dados obtidos ao longo de quase quatro anos de operação vão ajudar quando esse momento chegar.

“Todos os dados que agregamos, ajudam a criar um sistema cada vez melhor. Isso vira um trabalho de tecnologia porque depois fazemos correlações e conseguimos melhorar o sistema de precificação. Isso é muito importante porque a modalidade de Flapper Pool, que será lançada nos próximos meses, vai ser baseada nessas informações”, adianta Malicki.

Paul Malicki, da Flapper
Paul Malicki, da Flapper. Foto: Pedro Vilela/Agencia i7/Divulgação.

Isso é um pouco da nossa evolução. Primeiro como se fosse Uber, do ponto A para o B, que é o fretamento. Depois lança o pool, porque já tem massa crítica para vender assentos. E, eventualmente, lança um modelo de pool onde a pessoa cria o próprio voo

Paul Malicki, CEO da Flapper.

Líder Aviação aposta em tecnologia própria

Ao mesmo tempo em que Fly Adam e Flapper fornecem um sistema praticamente pronto para as empresas de táxi-aéreo, há quem prefira seguir um caminho próprio, com tecnologia interna para chegar aos clientes. A Líder Aviação é um desses casos. Com um aplicativo criado há três anos para a cotação de fretamento de aviões, a empresa em breve vai iniciar a venda individual de assentos na mesma plataforma.

A ideia é não só lançar voos agendados e vender os assentos, mas também otimizar o uso de aeronaves nas chamadas pernas vazias (empty legs), quando o avião é fretado para um trecho e precisa retornar à base sem passageiros. Com a possibilidade da venda individual, poderá oferecer o trecho a um custo mais baixo.

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“Queríamos atender mais pessoas e agora estamos, de fato, estudando a demanda, entendendo e cruzando informações de perfil de público e malha aérea para uma oferta de voos agendados, mas de uma forma que entregue valor e que não seja algo que vai morrer”, diz a diretora superintendente de manutenção, fretamento e gerenciamento de aeronaves da Líder Aviação, Bruna Assumpção Strambi.

A expectativa é de que a venda de assentos atraia mais pessoas para a aviação executiva, inclusive buscando passageiros que normalmente não pensariam em aviões particulares e buscariam a aviação regular.

Bruna Assumpção Strambi. da Líder Aviação
Bruna Assumpção Strambi. da Líder Aviação. Foto: Divulgação.

Ela vai ser mais acessível, o quanto mais acessível não sabemos precisar ainda. Posso ter ganho de escala e em algumas rotas viabilizar uma operação mais atrativa do ponto de vista de preço

Bruna Assumpção Strambi, da Líder Aviação.