Da esquerda para a direita, Felipe Lourenço (CEO), Rafael Bouchabki (CTO) e Leonardo Berdu (CPO). Foto: iClinic/Divulgação
Negócios

Primeira health tech com investimento do SoftBank na região, a iClinic cresceu 400% em meio à pandemia

A startup brasileira usará os recursos para adquirir novas empresas enquanto procura se consolidar como um "one-stop shop" tecnológico para médicos

Read in english

A pandemia do coronavírus atrapalhou muitos negócios. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados em julho mostram que 716.000 empresas fecharam as portas desde o início da pandemia no Brasil. Mas enquanto alguns lutaram para sobreviver, a health tech brasileira iClinic chamou a atenção de um dos grandes nomes em tecnologia: o SoftBank colocou suas apostas em uma rodada Series B na startup que tem reportado um grande crescimento – 400% comparando o segundo trimestre de 2019 com o de 2020 – durante a crise. 

As health techs estão crescendo no país: O Brasil já tem 542 health techs, contra as 248 que existiam dois anos atrás, segundo dados do último Distrito Health tech Report, obtido pela Revista PEGN.

LEIA TAMBÉM: Trabalho remoto veio rápido e para ficar – e a América Latina não é exceção

Fundada em 2012 pelos brasileiros Felipe Lourenço, Leonardo Berdu e Rafael Bouchabki com o objetivo de desenvolver tecnologias e atendimento em clínicas médicas pelo modelo de Software como Serviço (SaaS), a iClinic conta que agora tem mais de 22 mil profissionais de saúde em suas soluções de prontuário eletrônico, telemedicina, marketing médico e gestão de faturamento para médicos e instituições de saúde de pequeno e médio porte em 50 especialidades médicas.

Na base da empresa já passaram 15 milhões de pacientes únicos. A startup não opera por sistemas públicos, como o Sistema Único de Saúde (SUS). A health tech atende a saúde privada no Brasil, que representa cerca de um quarto dos 210 milhões de brasileiros atualmente cobertos por planos de saúde. Ao LABS, o CEO Felipe Lourenço disse estimar que a iClinic tem um terço dos pacientes de planos e seguros privados de assistência médica à saúde no Brasil já atendidos por sua plataforma. 

iClinic Website/Captura de Tela

O primeiro investimento do Softbank na América Latina em saúde – que não teve o valor divulgado por conta da estratégia da iClinic de crescimento inorgânico, para não causar distorções no mercado – será usado em aquisições de empresas nos próximos meses. Serão compradas algumas startups, outras já empresas consolidadas, como forma de crescer a participação da iClinic no mercado. “Já temos conversas com mais de 16 empresas, algumas [conversas] mais avançadas”, conta Lourenço. 

LEIA TAMBÉM: O que falta para o uso do cartão de débito no e-commerce se popularizar no Brasil

A iClinic já fez três aquisições, dentre elas a operação brasileira da indiana Practo em março de 2019. “Quando a gente olha para aquisições, temos buscado empresas com dois perfis. Um é olhar para a base que essa empresa tem, ver se é um tamanho que faz sentido para nós comprarmos essa carteira e agregar mais market share, mas por outro lado também buscamos empresas de tecnologia em saúde, startups que tenham não apenas base, mas tenham negócios que são sinérgicos à iClinic, que tenham produtos que a gente queira desenvolver no futuro”, conta. 

O diretor do Softbank Group International, Felipe Rodrigues Affonso, disse que o Softbank acredita que “a iClinic é quem está melhor posicionada para liderar a digitalização do setor de saúde no Brasil”. Ele ainda acrescentou que “ela se encontra em um ponto de inflexão na atual pandemia e a plataforma oferece transparência valiosa, com o potencial de transformar drasticamente a forma como as pessoas no ecossistema de saúde se conectam”, disse. 

O novo aporte do fundo também será aplicado em desenvolvimento de outros produtos na iClinic, como cursos educacionais, e inclusive serviços financeiros. “A ideia é criar um hub digital para o médico, facilitando que eles cobrem melhor e seja mais fácil para os pacientes pagarem pelo meio digital, fazendo a antecipação de recebíveis e oferecendo crédito para esse médico”, explica o CEO. 

A Covid-19 impulsionou a health tech iClinic com a liberação da telemedicina no Brasil

Nos último dois anos, a iClinic duplicou duas vezes seguidas o seu faturamento. Só no mês de junho, a startup colocou 1200 médicos para dentro de sua plataforma, muito impulsionados pela queda no volume de atendimentos em consultórios e clínicas médicas por conta da quarentena. “Pela vez primeira os médicos tiveram um tempo para interromper a agenda e repensar a carreira, o que precisam fazer para se diferenciar no consultório, trazendo tecnologia para ajudar. Isso representou uma aceleração na adoção de tecnologia dentro do consultório”, conta Lourenço.

LEIA TAMBÉM: Com novo aporte de R$ 21 milhões, a fintech brasileira de energia solar Solfácil quer atender um novo tipo de cliente: empresas 

Em favor da iClinic, uma nova resolução do Ministério de Saúde liberou, este ano, a pratíca de telemedicina no País. Em 2018, o Conselho Federal de Medicina autorizou a telemedicina no País, mas a resolução recebeu críticas de associações médicas e foi revogada. “Mas naquele momento a gente tinha certeza de que a telemedicina no Brasil viraria uma realidade muito em breve, e a gente começou a se preparar. Ao longo de 2019 criamos nossa solução de telemedicina própria, e quando aconteceu a liberação, em março de 2020, estava tudo pronto”, conta. 

Todo esse cenário corroborou para que a gente vivesse de março até agora os melhores meses da nossa história. E isso vem ser coroado com o investimento do SoftBank. Nesta pandemia nos mostramos anticíclicos, crescendo, batendo recorde de faturamento, batendo recorde de novas vendas, colocando um volume gigantesco de médicos para dentro

felipe lourenço, ceo da iclinic

De amigos de infância para co-fundadores de uma startup com planos de expansão para a América Latina 

A história da iClinic remonta à formação de Lourenço, em informática médica, curso de ciência e engenharia da computação focado no mercado de saúde. O CEO conta que durante a formação percebeu que o médico independente era renegado pelo mercado de tecnologia em saúde, que estava preocupado em criar e desenvolver soluções para hospitais, laboratórios e operadores de plano de saúde. “70% dos médicos em 2012 ainda controlava esses prontuários e sua rotina de agenda no papel, e os outros 30% que já utilizavam alguma tecnologia, usavam soluções já antigas, em que o software tinha que ser instalado na máquina e a informação não tinha conectividade com a nuvem, ficava restrita à clínica”, lembra. 

Por conta disso, os três co-fundadores, amigos de infância que já tiveram outros dois empreendimentos juntos, decidiram criar uma plataforma para prover saúde por meio da tecnologia. “Foi com essa missão e propósito que surgimos. Hoje estamos com 110 pessoas no time e estamos acelerando a abertura de vagas e contratações com esse novo investimento”. 

A iClinic não teve rodada de investimentos anjo ou seed. Somente em 2017 a empresa recebeu o aporte de Series A. “Durante toda essa trajetória [de 2012 até 2017] a gente acreditou que precisava focar muito em produto para buscar o product-market fit e entender a fundo nossos clientes. Em 2017 já tínhamos bastante aderência do mercado e pensamos que era a hora de focar no crescimento”. Foi quando a iClinic conversou com investidores e fundos e recebeu um aporte da família Moll: os fundadores e controladores da Rede D’Or São Luiz, maior grupo privado de saúde do Brasil. “O Pedro Moll, um dos filhos [do fundador Jorge Moll] hoje senta no nosso conselho, essa foi nossa rodada Series A”, conta. Agora, a empresa recebeu a Series B do SoftBank Latin America Fund, depois de uma negociação que se iniciou no final de 2019. O fundo se junta à Filipe Lomonaco, ex-CEO da Estapar e outros investidores individuais do mercado de saúde.

Segundo Lourenço, “99% das operações da iClinic são no Brasil”. Por conta do idioma, a iClinic atende médicos de 750 cidades no Brasil e outros países de língua portuguesa como Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde. “A gente ainda não fez um movimento ativo de internacionalização, isso está nos nossos planos para os próximos 24 meses”, conta. Segundo ele, entre os próximos passos da iClinic está o foco mais ativo em estratégias de marketing e vendas para crescer nesses mercados de língua portuguesa, além da tradução da plataforma para o espanhol para avançar para alguns países da América Latina. “Esses países têm um mercado de saúde privado muito semelhante ao nosso. Há países da América do Sul e da América Central que teriam bastante semelhança e aderência ao nosso produto”.