Da esquerda para a direita, os fundadores da Warren: Marcelo Maisonnave, Tito Gusmão, Kelly Gusmão,Rodrigo Grundig e André Gusmão.
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Startup de investimentos Warren quase dobra tamanho da equipe e recebe aporte de R$ 120 milhões em meio à crise

LABS conversou com o CEO da corretora digital brasileira que tem hoje R$ 2 bilhões de ativos sob gestão e pretende quintuplicar o montante até o fim de 2021

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Em meio à crise econômica causada pela pandemia do coronavírus, a startup brasileira Warren está em plena expansão. Depois de contratar 100 funcionários e abrir outras 100 vagas ainda não preenchidas nos últimos dois meses, a corretora digital de investimentos anunciou que vai receber um aporte de R$ 120 milhões ($22,4 milhões) de um pool liderado pelo fundo de venture capital QED Investors, que já investiu em unicórnios como o Nubank e Loft

A rodada conta também com a participação do fundo argentino Kaszek Ventures, Chromo Invest e Ribbit, que já eram investidores da empresa desde a Série A, e MELI Fund, WPA e Quartz, que investiram junto com a QED, na rodada de Série B. A primeira rodada captada pela Warren foi no ano passado, com um aporte de R$ 25 milhões ($4,6 milhões). 

Em entrevista ao LABS, o CEO Tito Gusmão explica que o recurso será investido para continuar expandindo a operação no Brasil. “Tem tanta oportunidade aqui no Brasil que expansão para América Latina não passa pela nossa cabeça. Quem sabe em um futuro distante, mas agora tem um trilhão de reais dos brasileiros que estão investidos na poupança, o que é um absurdo”, diz ele.

Fundada em 2017, a Warren dobrou o patrimônio que gerencia durante o período de distanciamento social para prevenir a COVID-19 e contratou, remotamente, 30% do atual quadro de funcionários. 

A empresa conta hoje com R$ 2 bilhões de ativos sob gestão e pretende quintuplicar o montante até o final de 2021, atingindo a marca de R$ 10 bilhões. A corretora oferece, por meio de sua plataforma, 400 produtos, incluindo sete fundos próprios. 

Na entrevista, Gusmão fala sobre o crescimento da Warren, a chegada dos “superapps” e a renovação do mercado de investimentos no país, que recentemente assistiu a uma briga pública entre a corretora XP e o Itaú, maior banco privado do Brasil.

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LABS – Como o novo recurso será investido na startup?

Usaremos em três frentes. Aumentar a equipe, hoje o time está chegando a 300 pessoas. Nos últimos dois meses contratamos quase 100 pessoas e há 100 vagas abertas ainda, então a gente vai investir muito na equipe para continuar entregando a melhor experiência de investimento e eficiência dos processos. Com taxa de juros a 2% como está no Brasil agora, ou você entrega tecnologia ou você está morto.

A gente nasceu com o DNA de empresa de tecnologia e pretendemos investir mais ainda para seguir entregando na hora de investir. Mas outra parte é antagônica à tecnologia remota. A gente tem hoje 7 locais físicos para receber clientes e a gente deve ampliar isso até o final do ano. Acreditamos que investimento é uma relação de experiência digital, mas também uma relação de confiança, principalmente se você vai investir mais dinheiro. 

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LABS – Onde ficam os escritórios hoje?

Hoje a gente tem sete espaços físicos: em Porto Alegre, São Paulo, Florianópolis, Curitiba, Jaraguá do Sul, Itajaí e Blumenau e devemos expandir em mais cinco locais para chegar no final do ano com 12 espaços físicos para receber nossos clientes. Por fim, vamos investir em nossos parceiros, profissionais para distribuir investimentos. Temos um modelo que é diferente do modelo atual de agentes autônomos que a XP e o BTG Pactual usam, e que deu toda essa polêmica com relação a conflito de interesses (as duas empresas passaram a disputar agentes autônomos, roubando, inclusive, esses profissionais uma da outra).

A gente tem mais de 200 parceiros conectados com clientes na plataforma e a gente vai investir bastante para aumentar essa base e criar essa profissão do profissional de investimentos que entrega investimentos de forma alinhada. 

LABS – Você pode explicar melhor como funciona esse modelo de remuneração 3.0?

Existem dois modelos de remuneração da indústria. Existe o que se chama commission-based, modelo baseado em comissão, no qual a comissão está embutida nos produtos, e é nesse modelo em que rodam os bancos e as corretoras. Como funciona? Eu te vendo um produto, sou profissional de investimentos. Dado que a remuneração está no produto que indico, eventualmente eu vou vender para você os produtos cujas comissões são maiores. É assim que funciona o Itaú e a XP, por mais que exista esse conflito. 

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Outro modelo que existe é o fee-based, no qual há uma taxa única e transparente na gestão dos investimentos, e todos os produtos que nos quais você investir a comissão volta para você. O profissional do outro lado vai cobrar, por exemplo, meio por cento ao ano para gerir os investimentos e toda comissão recebida pelos produtos retorna 100% para o cliente. 

LABS – Por que a comissão e a taxa importam?

Dado que eu não vou receber comissão no produto que eu te indico, eu vou sempre indicar os melhores produtos para você. Então é um modelo alinhado com o cliente, zero conflito de interesse.

O curioso é que o fee-based é como os super-ricos investem, via family offices, fundos exclusivos. Eu incluo nesses super-ricos os donos das corretoras e dos bancos, ou seja, eles investem em um modelo alinhado para eles mas vendem modelos desalinhados e depois brigam na televisão

O nosso B2C funciona no modelo alinhado, hoje em nossa estrutura somos uma gestora e uma corretora. Então a gente distribui todos os nossos produtos da nossa gestora e todos do mercado. Cobramos 0,5% ao ano na gestão do patrimônio do cliente. Os produtos da nossa gestora (ações americanas, brasileiras, crédito privado) de recursos são taxa zero.

Produtos de terceiros, como CDB do banco X, Y, Z devolvemos as comissões que recebemos para o cliente. Para o nosso parceiro, o B2B, somos uma plataforma que entrega tecnologia, acesso à Bolsa de Valores, e o modelo de alinhamento. Então ele cobra do cliente dele um fee anual, transparente, e usa nossa plataforma para distribuir investimentos. 

LABS – E vocês viram aumento na procura de investimentos durante a pandemia? Já que há estudo dizendo que latinos estão procurando poupar por conta da crise?

Vimos, a gente vem batendo recordes nos últimos meses, mas não só por poupar, porque estamos passando por um momento de pandemia e as pessoas estão vendo a importância de ter uma reserva de emergência e etc, mas principalmente porque a taxa de juros no Brasil está em 2,25% ao ano. Se a gente estivesse tendo essa conversa há 4 ou 5 anos, a taxa de juros estava 14% ao ano, e aí dava para ser “preguiçoso” na hora de investir. Era possível deixar o dinheiro em um CDB “meia-boca” no banco e ainda assim iria ganhar 1% ao mês. Agora não dá mais. Agora o brasileiro olha o extrato no banco e vê que não está mais rendendo dinheiro. O fluxo natural é ou entrar no Google e procurar como investir melhor, ou ler em um jornal matérias sobre investimentos, ou perguntar para amigos, já que a poupança ou o CDB não rende mais.

Então a gente está vendo um fluxo grande de brasileiros – e esse foi o ponto que incomodou o Itaú – saindo dos bancos e indo para as plataformas de investimento. O que já aconteceu nos Estados Unidos há muitos anos.

No Brasil, 93% do dinheiro está em 5 bancos e 7% do dinheiro dos brasileiros está nas plataformas de investimento. Nos Estados Unidos, 90% do dinheiro dos americanos está nas plataformas de investimento e 10% nos bancos, então é o oposto. Estamos vendo o início dessa corrida dos brasileiros saindo dos bancos porque precisam investir melhor

LABS – E qual o crescimento de vocês em relação ao ano passado?

A gente mais que dobrou em relação ao ano passado e esse ano a gente também dobrou, apesar de só ter se passado sete meses no ano. A gente vem crescendo rápido e o mercado também. A Bolsa de Valores tinha 1 milhão de CPFs até um ano atrás, agora está com 2 milhões e meio de pessoas, então é a corrida do brasileiro por melhor performance, e muitos deles estão descobrindo o mundo da renda variável agora. 

LABS – Quantos clientes vocês tem?

140 mil. 

LABS – E as operações são só no Brasil?

Sim, a gente tem fundo no qual é possível investir daqui do Brasil em empresas americanas, mas a operação é 100% Brasil. Tem tanta oportunidade aqui no Brasil que expansão para América Latina não passa pela nossa cabeça. Quem sabe em um futuro distante, mas agora tem um trilhão de reais dos brasileiros que estão investindo na poupança, o que é um absurdo. A gente quer salvar essas pessoas que estão investindo em produtos ruins no Brasil. Depois, quem sabe, pode ter outro lugar para olhar.

LABS – Vocês abrem faturamento?

Não, a gente não abre.

LABS – A gente tem visto algumas empresas procurando criar suas plataformas de investimento, querendo se tornar SuperApps. Agora a PagSeguro anunciou que deve ter “sua própria XP”. Como vocês enxergam esse mercado no Brasil?

Eu acho fantástico, tomara que a PagSeguro venha e venham outras plataformas. É que existe uma corrida entre a PagSeguro, o MercadoPago, o Banco Inter, que não é para ser uma nova XP, mas sim um novo WeChat, que é a plataforma da China onde a pessoa faz tudo. Você paga as contas, recebe salário e faz investimento. O Banco Inter tem essa tese do engajamento. Como eles têm mais engajamento do que a Magazine Luiza, por exemplo, as pessoas acessam o Banco Inter uma vez ao dia e o Magazine Luiza só seria acessada quando vai comprar uma televisão, por exemplo. 

Então naturalmente você tem mais engajamento no Banco Inter e em tese ele vai conseguir vender uma televisão com mais eficiência que o Magazine Luiza. Que é o que acontece na China. 

Mas eu não acredito muito nesse modelo aqui. Principalmente quando a gente está falando de investimentos em valores maiores. Porque se você trabalha, sua, junta seu dinheiro, você quer investir bem esse dinheiro para quando você chegar em uma idade X se aposentar com um patrimônio legal. Investimento é algo sério, é diferente de comprar uma camiseta ou uma televisão. Você precisa tomar boas decisões e precisa ser bem assessorado para isso. Eu não acredito que as pessoas vão investir grandes valores em um mesmo lugar em que elas conseguem comprar uma TV ou um hambúrguer. Vai ser investido um valor pequeno, que é o que acontece na China, no WeChat. Então se investe em média R$ 500, trazendo para o Brasil. 

LABS – O PagSeguro é um concorrente para vocês?

Acho legal o PagSeguro entrar nisso oferecendo melhores produtos de investimento, hoje eles oferecem um básico. Isso populariza investimentos e acho isso importante. É popularizado na cabeça do brasileiro que poupança é um bom investimento, e não é. Poupança paga 70% da Selic e ainda tem aquele absurdo do vencimento da caderneta, ou seja, você investe no dia primeiro do mês, tem que esperar até o dia primeiro do mês seguinte para resgatar a performance, que já é ruim. É legal outras plataformas entrando no meio e popularizando um mundo de investimentos além da poupança. Mas, para investir mais dinheiro você precisa ter alguém do outro lado focado 100% em investimentos. Então não acredito que o PagSeguro é, por exemplo, um competidor para a Warren, porque nossa vida é focar em investimentos e ter profissionais ajudando a construir o wealth management de maneira mais eficiente possível.