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Na era dos aportes, HRTech Jobconvo quer se diferenciar crescendo organicamente

O mineiro Ronaldo Bahia trabalhou por 10 anos na Pepsi em São Paulo, na divisão conhecida no Brasil por Elma Chips, com planejamento de vendas e operações. Depois de uma década na indústria, ele decidiu sair da empresa e buscar recolocação no mercado de trabalho. Foi neste processo, em 2010, que percebeu a ineficiência dos processos seletivos. “Eu gastava duas horas para chegar em uma entrevista de emprego, [gastava] em torno de R$ 50 [preço da corrida por aplicativo]. Pessoas que estão sem trabalhar e buscam se recolocar não vão ter R$ 50 para fazer uma entrevista de emprego. É impraticável”, conta ele. 

Na época, alguns processos seletivos para trainees já usavam vídeos como forma de triagem, mas esses vídeos ficavam disponíveis no YouTube, sem os cuidados com a privacidade do usuário que existem hoje. “Se o meu chefe colocasse o meu nome no YouTube, ele acharia a entrevista para um processo seletivo. O que hoje é um é um caso muito sério em tempos de LGPD (Lei Geral de Proteção dos Dados)”. 

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Ronaldo Bahia, fundador e CEO da JobConvo. Foto: Divulgação.

Foi aí que Ronaldo criou a JobConvo, uma startup de recrutamento e seleção, que começou a atuar com vídeos gravados para processos seletivos. Em 2011, o empreendedor foi para o Chile apresentar a empresa e estudar tecnologia. Ele ganhou o prêmio de US$ 40 mil do programa de aceleração governamental Startup Chile e essa foi a primeira rodada da JobConvo. 

Em 2012, quando voltou para o Brasil, Ronaldo ainda dividia seu tempo entre a startup e outras ativiades. Somente em 2015 é que assumiu o papel de CEO em tempo integral. 

Como o projeto começou no Chile, a JobConvo já nasceu com o foco na América Latina. Mesmo assim o Brasil ainda responde por 80% do faturamento. “[Dentro dos outros 20%] Nossos principais mercados são Peru, Portugal e temos alguns clientes nos Estados Unidos, México, Colômbia, Equador, Uruguai, Panamá, Chile e Argentina“, conta o CEO. A operação da América Latina é conduzida a partir do escritório de Bogotá. Até o fim deste ano, a JobConvo espera que os países latino-americanos respondam por 30% a 35% das receitas da empresa.

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Assim como as demais HRtechs que utilizam a inteligência artificial no processo seletivo, a JobConvo consegue, no recebimento dos currículos, transformar a imagem em um texto e classificá-lo, entendendo o que é experiência profissional e formação acadêmica, por exemplo. A ideia é evitar que o candidato tenha de preencher o formulário manualmente. “Eu capto esse texto com aprendizado de máquina e classifico o texto da melhor forma possível. Hoje a nossa assertividade está em torno de 70%”, diz Ronaldo. 

A startup criou seu próprio robô de captação e classificação de texto também por questões financeiras. Quando antes usava a IA de um fornecedor europeu, a cobrança em euro por cada currículo classificado ficou insustentável por questões do câmbio.  

Diferentemente de alguns concorrentes, a JobConvo oferta os produtos como módulos, e cada cliente pode optar por quais quer usar. 

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A trajetória e as metas da JobConvo

A JobConvo recebeu um capital anjo de US$ 300 mil em 2014 para estruturar a empresa. Em 2016, passou a oferecer um  módulo de vídeo-entrevistas gravadas para processos seletivos, o que hoje já é um tema mais comum em recrutamento e seleção. 

Um ano depois, a empresa colocou no mercado uma plataforma de gestão de processos seletivos. E em 2018 lançou o módulo de admissão digital em 2018 – quando apenas um cliente usava o produto – mas foi na pandemia, em 2020, que a demanda pela solução disparou. “Melhoramos o produto em 2020 com a integração com o eSocial, assinatura de contrato digital, e uma versão para dispositivos móveis com uma melhor experiência para o usuário”, relata Ronaldo.

De 2020 para 2021, a empresa viu o quadro de funcionários crescer três vezes e o faturamento dobrar em relação ao R$ 1,1 milhão registrados no fim do ano passado. Hoje, a empresa tem 55 clientes.

Com grandes nomes no mercado de startups de RH levantando milhões em rodadas de investimento, como a Gupy e a Revelo, Ronaldo afirma que a JobConvo cresce de forma orgânica, ou seja, sem contar com capital de risco, “o que é muito bom e muito difícil”.

“Existe muito trabalho para termos um produto competitivo, somos uma empresa referência em tecnologia, acho que é por isso que a gente chegou onde está hoje. No passado, a gente encontrou alguns desafios e implementamos uma equipe de sucesso do cliente para manter clientes e evitar saídas. Hoje a gente só pensa em escalar”, afirma.

A concorrência é muito boa porque ela nos obriga a extrair o melhor de nós, ou então vamos deixar de existir.

Ronaldo Bahia, fundador e CEO da JobConvo.

A meta para 2021é faturar 2,5 vezes o que conseguiu no ano passado – ou seja, chegar a R$ 2,75 milhões. 

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“Quando você olha empresas referências no mercado, como a Amazon, são poucos anos em que ela dá lucro, porque o dinheiro do lucro você reinveste ou então paga imposto sobre isso. É melhor você reinvestir do que pagar imposto”, diz. Com essa ideia, a JobConvo já reinvestiu mais de R$ 1 milhão em seu crescimento. “Existe uma métrica no mercado de que você cria uma empresa, recebe investimento e tem sucesso. Na prática, isso é um pouco distinto, porque há muitas pessoas inexperientes em empreendedorismo que acabam construindo empresas para investidores. Acho que a JobConvo tem feito um caminho adequado de ser uma empresa como qualquer outra, onde o cliente paga as contas da empresa, e, quando ela atinge um patamar de faturamento e crescimento sustentável, aí sim é o momento de ter poder de barganha com potenciais investidores”. 

This post was last modified on setembro 17, 2021 4:33 pm

Isabela Fleischmann

Journalist and LABS’ reporter. Previously, she worked as a reporter for the newspaper Folha de Londrina, freelancer at Gazeta do Povo, and intern on CBN Londrina's radio network. She graduated in Journalism in 2018 at the State University of Londrina, Parana State, Brazil. She also holds a post-graduate degree in Communication and Political Culture, in the area of Social Sciences, Business and Law, by the State University of Londrina.

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