Negócios

Trabalho remoto estabelece novas configurações nas casas brasileiras

Varejistas como AliExpress, MadeiraMadeira e Mobly viram aumento nas vendas em categorias relacionadas ao lar durante a pandemia

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Facebook, Google e outras grandes empresas de tecnologia já anunciaram o prolongamento do trabalho remoto até meados de 2021. À medida que a pandemia do COVID-19 avança, essa vem sendo uma das soluções adotadas por companhias no Brasil e no mundo para cumprir com as orientações de distanciamento social. E assim como o uso de ferramentas como plataformas de videoconferência disparou, categorias como móveis e eletrodomésticos também acompanharam o crescimento.

É o que mostram os dados da consultoria brasileira Compre&Confie. Segundo a empresa, os pedidos de e-commerce de móveis no país somaram 2,5 milhões de pedidos durante os meses de maio e junho – um crescimento de 207,2% em relação aos mesmos dois meses do ano anterior. 

A MadeiraMadeira, plataforma de e-commerce focada em artigos para o lar que mescla produtos próprios com operação de marketplace, acompanhou esse crescimento impulsionado pela pandemia. Desde março, categorias como móveis para escritório e dormitório têm se destacado com aumento de vendas de 200%, enquanto os eletrodomésticos – sobretudo ar condicionado e ventilação, além de eletrodomésticos – cresceram em média 300%. 

“As pessoas estão ajustando suas casas”, diz o cofundador e COO da MadeiraMadeira, Robson Privado. No primeiro momento, foram as vendas de mesas e cadeiras de escritório que aumentaram devido à necessidade de adaptação. Pouco depois, não só os artigos de escritório impulsionaram a demanda, mas também produtos pertencentes a áreas onde as pessoas passam mais tempo, como salas de estar.

“Sofás, cadeiras, racks, aspiradores de pó. Houve uma adequação da casa para esse momento, relacionado ao tempo que você vai passar ali”, complementa. Privado revela que o volume de vendas mês a mês da MadeiraMadeira cresceu 61% desde março.

Antes da pandemia, a MadeiraMadeira lançou a primeira loja física em sua cidade-natal, Curitiba, no modelo guide shop. A empresa pretende lançar, até o final do ano, dez novas lojas no mesmo modelo: mais uma na capital paranaense e outras no estado de São Paulo. Foto: MadeiraMadeira / Divulgação

De acordo com a Compre&Confie, a categoria de móveis no setor de e-commerce alcançou faturamento de R$ 1,5 bilhão nos meses de maio e junho, um crescimento de 196,1% no comparativo ano a ano. No ranking dos produtos mais vendidos, guarda-roupa é o item que lidera a lista, seguido por cama, cadeira, sofá e colchão.

O gigante varejista chinês AliExpress também sentiu esse movimento. A empresa disse ao LABS que, no Brasil, país que sempre está entre os cinco maiores mercados do AliExpress, registrou crescimento de dois dígitos entre março e julho nas vendas de categorias relacionadas ao lar, na comparação com os mesmos meses de 2019.

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“Alguns de nossos produtos cujas vendas mis cresceram no Brasil são webcams, eletrodomésticos e produtos de lavanderia”, acrescentou a empresa. “Todos eles cresceram mais de três vezes entre março e julho, na comparação ano a ano.”

Novas estações de trabalho, novas casas?

Apesar da rápida adoção do trabalho remoto, Luciene Magalhães, sócia-líder do comitê de capital humano da KPMG, não acredita em uma mudança completa dos escritórios para o home-office. “Entendemos que será um modelo híbrido. As empresas deveriam fazer um estudo, mapear as oportunidades, para encontrar uma solução que traga benefícios ao negócio e ao empregado.” Para ela, as pessoas também devem ser incorporadas aos estudos de organização do trabalho, pois o desenvolvimento pessoal e profissional são áreas impactadas pela regime de home office.

Mas quando se trata das configurações das casas, é provável que ocorram atualizações. “As circunstâncias determinarão a necessidade de um espaço [em casa] para trabalhar. São tantas as considerações, abrir a webcam durante as videoconferências, tempo para iniciar e encerrar as atividades. O fato de você precisar estar acessível 8h por dia, por exemplo.” 

O que eu vou fazer para ter um conforto maior e uma casa mais inteligente? As pessoas estão adaptando as casas para essa nova realidade.

ROBSON PRIVADO, COFUNDADOR E COO DA MADEIRAMADEIRA
Mesmo com a pandemia, a plataforma de e-commerce Mobly conta que suas lojas físicas têm apresentado bom desempenho. Os planos de expansão seguem vigentes: atualmente, a empresa possui 11 lojas, todas no estado de São Paulo. A empresa mira nos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro para futuros lançamentos. Foto: Mobly / Divulgação

Conforme os brasileiros se adaptam às mudanças impostas pela pandemia, quem também notou um olhar mais atento sobre as configurações das casas e os novos arranjos de espaços foi a Mobly, plataforma de e-commerce com foco em móveis. Enquanto no final de abril, as vendas já estavam no mesmo patamar de antes da pandemia, durante os meses de maio e junho, alcançaram um crescimento de 80% em relação aos meses anteriores. 

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Produtos como cadeiras e escrivaninhas também foram os principais impulsionadores do crescimento, registrando alta de 250% nas vendas entre maio e junho em relação ao período pré-pandemia. “Elas sempre estiveram entre as top dez categorias e agora passaram para as top duas”, relata o fundador e CEO da Mobly, Victor Noda

“A demanda de emergência acabou, mas as pessoas agora estão vendo que as empresas estão migrando para o home office ou adotando um modelo híbrido. Então é uma questão de ‘Vou investir para ter uma estrutura melhor em casa’”, pondera.

Embora as categorias de cadeiras de escritório e escrivaninhas tenham registrado ligeira redução no último mês, a empresa diz que elas continuam gerando 200% mais vendas do que antes das medidas de isolamento social. Em uma comparação ano a ano, o executivo conta que as vendas atingiram um crescimento de 120%. 

Mais gente em casa com opções reduzidas de lazer e mobilidade, além de uma maior variedade de produtos e um preço competitivo foram, para o executivo da MadeiraMadeira, os motivos do crescimento da empresa no período. 

O trabalho remoto vai ser um equilíbrio entre aquilo que se vai cumprir fazendo remotamente e o ato de ir ao escritório.

Luciene Magalhães, sócio-líder do comitê de capital humano da KPMG

Por questões técnicas, culturais ou de relacionamento, Magalhães destaca que o aumento do trabalho remoto não significará o fechamento de escritórios. “Acredito em um modelo híbrido, existem características humanas que se beneficiam das interações presenciais, além do aspecto de reforçar a cultura da empresa”, corrobora o executivo da MadeiraMadeira. 

Já quanto às adaptações no lar, seja por emergência ou de forma estrutural, novos arranjos nos modelos de trabalho e outras configurações de casa estão surgindo. “Existem várias relações mudando entre os consumidores e suas casas,” explica Privado.