Os fundadores da Trace Finance
Os fundadores da Trace Finance: Leone Parise (CTO), Bernardo Brites (CEO) e Rafael Luz (COO). Foto: Divulgação.
Negócios

Trace Finance levanta US$ 4,3 milhões para resolver a vida dos fundos e das startups latino-americanas

Operando há um ano, fintech pivotou modelo para facilitar transferências de recursos entre as duas pontas. Atendendo startups como The Coffee e Condoconta, a empresa já consegue fazer isso em até dois dias

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A Trace Finance, uma fintech que opera há praticamente um ano e pivotou o modelo antes focado em importação e exportação para uma engenharia que facilita a transferência de valores oriundos de fundos de investimento para startups latino-americas, anunciou uma rodada semente de US$ 4,3 milhões (R$ 22,4 milhões). O investimento foi liderado pela HOF Capital (gestora que já investiu em empresas como Stripe, Klarna e Uber) com participação de outros fundos e investidores individuais, como Circle Ventures, Mantis Ventures (fundo da The Chainsmokers), 2TM (holding dona do Mercado Bitcoin e que recebeu um investimento de valor não revelado do Mercado Livre), Blockfi Ventures e seu CEO Zac Prince, Marcelo Sampaio da Hashdex, Miguel Fernandez da Capchase, além de fundadores da Rappi, Coinmarketcap e Quantstamp.

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Hoje, as startups brasileiras que levantam rodadas com fundos e gestoras dos Estados Unidos ou com escritório lá têm opções limitadas para fazer o dinheiro efetivamente chegar nas suas contas. São poucos os bancos que permitem esse tipo de operação, e ainda assim o fazem com muita demora (uma média de um mês e meio) e altas taxas (de até 4%) para cada envio.

A Trace Finance resolve esses problemas automatizando o processo de integração entre os bancos, trabalhando, via APIs, com várias instituições ao mesmo tempo no back-end (são cerca de 12 no momento). “A gente montou um fluxo no qual a gente limita, ao máximo, a ineficiência dos bancos, elimina redundâncias porque automatiza uma série de informações que, sabemos, essas instituições pedirão, e também inconsistências, já que muito desses processos ainda passa pela mão de muita gente, ainda é um processo humano. Também temos autonomia para responder, nós mesmos, algumas questões, limitando a ineficiência dos bancos. A partir do momento que um banco pede uma informação muito específica, travando a processo, a gente deixa ele para lá e segue o processo com os outros”, explica o CEO e cofundador da Trace Finance, Bernardo Brites.

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Ao fazer isso, a fintech reduz drasticamente o prazo para essas transações (que passa de meses para até dois dias) e também o spread (o custo das transações entre bancos), de 4% para 0,2%.

O CEO e cofundador da Trace Finance, Bernardo Brites. Foto: Divulgação.

O cliente faz um cadastro conosco e não vê que estamos filtrando mais de dez bancos [para achar o ideal para ele], não vê toda a engenharia por trás disso, então a experiência dele é incrível

Bernardo Brites, cofundador e CEO da Trace finance.

A primeira cliente da Trace Finance foi a The Coffee, rede de cafés cashless, que levantou uma rodada Série A liderada pela monashees no fim de 2020. “Eles trabalham com cafés especiais e outros produtos e precisavam de ajuda para agilizar o trâmite de importação. Como a gente resolveu a questão em poucos dias, eles disseram que tinham também que trazer os aportes recebidos [para o Brasil] e perguntaram se a gente fazia isso. Foi aquela coisa: primeiro a gente diz que faz para depois ver como faz né?”, recorda Brites.

Ele conta que eles os sócios – Rafael Luz (COO) e Leone Parise (CTO) – acharam que tinham demorado para resolver a transação, mas descobriram que os três dias que eles levaram para todo o trâmite era um recorde. “Conversamos com outros amigos, outras startups e percebemos que existia essa dor enorme no ecossistema. Você leva três ou quatro meses para conseguir o cheque. A partir do momento que você tem o cheque, precisa abrir entidades, normalmente uma empresa em Cayman [Ilhas] e uma LLC [Limited Liability Company] nos EUA. Isso leva pelo menos um mês e meio. Depois disso, as startups levam mais um mês ou dois meses para abrir a conta bancária lá e mais um mês para conseguir fazer a primeira transação [transferência com câmbio] para trazer os recursos”, relata Brites.

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Em 11 meses de operação, a Trace Finance transacionou R$ 150 milhões. A fitnech tem hoje um portfólio de 30 clientes, que, além da The Coffee, tem nomes como Zippi, Pomelo, Condoconta, Cobli e Big Bets, e está cadastrando novas, como a colombiana Tul e o Mercado Bitcoin.

O capital levantado agora será usado, principalmente, para viabilizar o início das operações bancárias da Trace nos EUA, para que ela possa abrir contas para seus clientes no Brasil.

Além das contas bancárias nos EUA, os recursos também vão ajudar a fintech a oferecer outros serviços B2B para o ecossistema, como aumento e redução de capital de startups e câmbio de importação e exportação. Segundo Brites, há uma lista de espera de mais de 50 fundos e startups interessadas em usar as soluções da fintech. “Enxergamos o câmbio como um meio para libertá-los das amarras financeiras. Para o lançamento oficial do serviço de conta bancária, no segundo trimestre, esperamos já ter 100 clientes.”

“Estou impressionada com o quão acima do mercado é a experiência da Trace. Consegui localizar minha rodada seed em um único dia, com uma excelente taxa de câmbio e com uma experiência de usuário personalizada. Isso foi um prazer para mim, depois de ter esperado dois meses para que as entidades estrangeiras e contas bancárias fossem abertas”, disse Ana Zucato, CEO e fundadora da plataforma de compartilhamento de pagamentos Noh, em comunicado à imprensa.

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Antes da Trace, Brites e os sócios já tinham realizado mais de US$ 400 milhões em operações de câmbio em suas empresas anteriores – Brites e Luz passaram pela Lasting Capital (empresa de capital de risco e consultoria especializada em abertura de capital) e pela Transfero (de soluções financeiras via blockchain). Já Parise trabalhou como desenvolvedor na Binance (corrretora de criptomoedas). O time da Trace, perto de chegar a 15 pessoas, está sendo formado por pessoas com passagens em outras fintechs cujo core business já estava relacionado a operações financeiras, inclusive cross-border, e criptomoedas.

O maior concorrente da Trace Finance nos EUA é o Silicon Valley Bank – instituição que tem cerca de 1 mil startups clientes na América Latina e as ajuda a viabilizar a abertura de contas nos Estados Unidos, entre vários outros serviços. No Brasil, a Remessa Online, adquirida recentemente pelo EBANX, dono do LABS, também oferece um serviço de remessas especializado em startups.