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Yape quer liderar revolução dos pagamentos instantâneos no Peru

Lançado pelo maior banco do país há cinco anos, o app cresceu sete vezes e agora tem 6.2 milhões de usuários, o equivalente a 62% da população bancarizada do Peru

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Depois de seis meses do PIX, já dá para dizer que os brasileiros aderiram ao novo sistema de pagamentos 24/7. Mas não é só o Brasil. A COVID-19 acelerou o banking as a service, a digitalização dos desbancarizados e das PMEs (pequenas e médias empresas), os pagamentos sem contato e os pagamentos instantâneos em toda a região.

Com o tempo, os pagamentos instantâneos podem até mesmo substituir o dinheiro e os cartões na América Latina. Em um webinar recente, Lindsay Lehr, diretora de práticas de pagamentos nas Américas Market Intelligence (AMI), destacou as duas principais plataformas que cresceram em 2020: o PIX, o sistema de pagamentos em tempo real do Banco Central do Brasil, lançado em novembro, e a Yape, um aplicativo lançado pelo maior banco do Peru, Banco de Crédito del Perú (BCP) em 2016. Ambos são verdadeiras provas do conceito para transferências entre pessoas na América Latina.

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Em seis meses, o PIX atingiu números avassaladores: mais de 87.3 milhões de usuários, 499,7 milhões de transações, que movimentaram R$ 1.108 trilhões.

Ao contrário do que aconteceu com o PIX no Brasil e com o CoDi no México, em que a ideia dos sistemas nasceu com base na estrutura e regulamentação do Banco Central, a Yape surgiu como um braço de pagamentos do BCP. E o app é muito maior que seu par Transfiya, sistema colombiano criado pela fintech Minka e a ACH Colombia, empresa responsável pelas operações bancárias no país.

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No começo, a Yape estava disponível apenas para os clientes do BCP como uma forma mais fácil de fazer pagamentos entre pessoas. Mais tarde, em maio de 2020, quando seu rival PLIN foi lançado, todos os peruanos passaram a ter acesso ao app. Essa foi a carta na manga para a Yape em um país com a menor penetração bancária e o maior nível de uso de dinheiro da região. 

Ao longo do ano passado, a Yape cresceu sete vezes. Agora, o app tem o equivalente a 62% da população bancária do Peru: 6,2 milhões de usuários, dos quais cerca de 800.000 são PMEs. 

Como a Yape, seu concorrente PLIN, de propriedade do provedor de serviços financeiros YellowPepper em parceria com os bancos peruanos BBVA, Interbank e Scotiabank, permite transações 24 horas por dia, 7 dias por semana, sem cobrança (mesmo para comerciantes). Os clientes dos bancos citados usam o PLIN por meio de seus respectivos aplicativos bancários.

“Você não paga nada para usar a Yape. Para empresas que usam cartão ou outras formas de pagamento, é incrível que você não pague nada com esse tipo de solução. E não somos só nós que não cobramos nada. Estamos vivenciando essa nova tecnologia, essa nova forma de pagamento, então ninguém cobra nada. E assim que virar algo regular, esse é o momento que você começa a cobrar pelo serviço”, explica Arturo Dongo Hernández, gerente comercial da Yape, em entrevista ao LABS

Arturo Dongo Hernández, gerente comercial da Yape. Foto: Divulgação/Yape

“Eu trabalhava no Beat, um app de táxi, e quando chegamos ao Peru não cobrávamos dos motoristas, por exemplo. Era gratuito por um ano. E aí todo mundo começou a usar. Depois disso, passamos a cobrar comissão. Acho que estamos neste momento [com a Yape], estamos fazendo o negócio crescer.”

O futuro dos pagamentos em toda a América Latina é instantâneo

Ignacio Carballo, professor e diretor do Ecossistema Fintech da Universidade Católica de Buenos Aires, é afiliado do Cone Sul da AMI. Ele analisa como esses pagamentos em tempo real vão combinar com a infraestrutura de pagamentos tradicional da região. 

No Brasil, por exemplo, o PIX pode substituir o boleto bancário. Mas, segundo Carballo, ainda não se sabe como esses pagamentos em tempo real vão se relacionar com maquininhas e cartões de débito.

“O futuro dos pagamentos em toda a América Latina é instantâneo. Existem diferentes formas de se conseguir isso, de maneira pública, como o PIX no Brasil, e por vias privadas, como a Yape ou consórcios como o PLIN, com diferentes bancos no Peru”, detalha.

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Na Argentina, em junho de 2020, os maiores bancos privados do país (Santander, Galicia, BBVA, HSBC) lançaram uma fintech chamada Play Digital para criar o MODO, uma carteira digital que permite transações em tempo real.

O Modo funciona de forma semelhante ao PLIN. Ele fornece uma solução para transferências de dinheiro e pagamentos com QR Code nas lojas.

Ignacio Carballo, professor e diretor do Ecossistema Fintech da Universidade Católica de Buenos Aires. Foto: Divulgação/AMI

“Também temos o Transferencias 3.0 (uma infraestrutura pública), que veio com um QR Code de interoperabilidade e também pagamentos instantâneos com taxas fixas. Foi lançada em dezembro de 2020, então é bem nova; a questão é se os lojistas vão aderir. As pessoas vão pagar com Transferencias 3.0 ou com um cartão de débito normal? Esta é com certeza uma das tendências mais importantes para acompanhar neste 2021.”

Sumindo com o dinheiro de papel na América Latina 

O modelo da Yape funcionaria em outros países latino-americanos? Para Lehr, a fórmula de sucesso do app peruano é basicamente um emissor com alta participação de mercado e forte reconhecimento de marca, aliado a uma profunda penetração no mercado peruano e limitada interoperabilidade bancária. Isso significa que, quando os bancos não trabalham juntos, é menos provável que haja o mesmo tipo de operação do PIX, por exemplo.

Lehr afirma que Uruguai, Paraguai, Bolívia, Equador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Panamá e Costa Rica são fortes candidatos ao modelo da Yape na região porque ele tem grande potencial em mercados menores com um único banco líder e poucas fintechs disponíveis.

“Crescemos rápido, obviamente porque contamos com o apoio do banco. Não é como uma startup que luta para captar dinheiro; temos a sorte de ter o banco por trás”, diz Hernandéz. A equipe da Yape começou com 20 pessoas e, com o investimento do BCP, já conta com 150 colaboradores focados no app.

A Yape está transacionando mais de 1 bilhão de soles (R$ 1,4 bilhão) por mês e pretende atingir 40 milhões de transações mensais até o final de 2021, chegando a 10 milhões de usuários. “Nossa meta é incluir financeiramente todos os peruanos. Apostamos nessas pessoas que não estão incluídas no sistema financeiro – quase 80% dos peruanos”.

O governo do Peru está ajudando a aumentar os números da Yape. Assim como a Caixa Tem disponibilizou o auxílio emergencial brasileiro, o governo peruano começou a repassar o auxílio de 600 soles (cerca de R$ 850) às famílias mais afetadas pela crise econômica desencadeada pela pandemia por meio do app. 

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No Peru, como no México e na Colômbia, muitas pequenas empresas independentes, as chamadas “lojas familiares”, não estão incluídas no sistema financeiro – muitas nem usam serviços bancários e não pagam impostos.

Por outro lado, há um grupo de empresas que pagam impostos e respondem por 20% da economia peruana. “Se olharmos para o Peru de acordo com o número de pessoas que têm contas em bancos comerciais, talvez possamos falar de 25%, 30% de toda a economia. Então, temos mais de 10 milhões de empresas e pessoas por aí sem conta bancária.”

Como alcançar essas pessoas e aumentar os pagamentos instantâneos à empresas? Essa é uma tarefa para Hernández. “No momento, estamos tentando atingir os mercados de todo o Peru, não apenas de Lima. O Peru é um país centralizado, é como se tudo acontecesse na capital e as outras cidades fossem esquecidas. Então, precisamos chegar a todos os cidadãos. É por isso que estamos colocando equipes em todas as cidades, porque se você só tiver pessoas usando a Yape, mas não tiver comércios usando a Yape, não conseguimos fazer a conversão. Precisamos crescer em número de usuários e de empresas. E esse é o segredo que nos deu o sucesso que temos agora”. 

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De um provedor de pagamentos em tempo real a um super-app

O principal negócio da Yape são os pagamentos entre pessoas e pequenos comerciantes. Mas grandes marcas no Peru têm pedido ao app para lhes dar uma solução. Além das transações, o que é possível fazer com a Yape? Por enquanto, não dá para fazer muita coisa. Mas o app está desenvolvendo soluções para esses grandes comerciantes e adicionando recursos para pagar por serviços de habitação e crédito para celulares pré-pagos. 

A Yape tem planos ousados de se tornar um super aplicativo ou um banco digital no futuro. Recentemente, o CEO da Yape, Luis Alfonso Carrera, postou no LinkedIn um convite para todos os bancos se unirem ao app e permitirem que seus clientes tenham contas na Yape. Atualmente, o sistema de pagamentos em tempo real também funciona para clientes bancários que possuem cartões de débito com os bancos Caja Trujillo, Caja Piura, Caja Cusco, Caja Tacna, Mibanco, CajaSullana e Banco de la Nación.

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“Tínhamos esse programa de indicação que paga 5 soles (cerca de US $ 1,37) cada vez que você indica alguém. Essa pessoa fez um pagamento; você recebe o dinheiro. Funcionou muito bem na primeira fase de crescimento. Agora a Yape tem crescido organicamente. Em dado momento, acho que o aplicativo começa a se desenvolver sozinho. É como se fosse tão grande que você precisa ter. Mesmo as pessoas que não querem, precisam ter, porque todos os pagamentos são feitos por meio dele.”