Sociedade

Ecossistema de tecnologia e inovação de Porto Rico avança sobre obstáculos políticos e culturais

O debate sobre o impacto que os porto-riquenhos tiveram nos campos da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM na sigla em inglês) na América Latino é complexo. Embora Porto Rico seja claramente parte da América Latina – desde o aspecto cultural e geográfico até o gastronômico, passando também pelo linguístico e étnico –, como a ilha é uma colônia dos Estados Unidos, na maioria das vezes é associada ao continente norte-americano. 

Algum contexto é importante: a história recente de Porto Rico foi marcada pelo controle dos Estados Unidos, período que incluí a esterilização de mulheres sem seu conhecimento ou consentimento, a remoção forçada de agricultores de suas terras, a prática de testes de bombas de urânio empobrecido em território porto-riquenho e trabalho forçado, incluindo de crianças menores de 10 anos, para empresas de cana-de-açúcar. Com os avanços possíveis graças à revolução industrial, a colonização dos Estados Unidos evoluiu ao longo do tempo.

Hoje, Porto Rico se tornou uma espécie de paraíso livre de impostos para aqueles que promovem a ideia de “desenvolvimento econômico”, mas, na verdade, essa versão beneficia ninguém mais além daqueles que a promovem. É claro que nada disso seria possível sem os “líderes” políticos impotentes que passaram os últimos 124 anos enchendo seus bolsos às custas de pessoas cujo único crime foi a proximidade e a acessibilidade. 

LEIA TAMBÉM: Empreendedoras latinas em destaque: o pioneirismo de Rosalba Reynoso

Educação em STEM está em alta em Porto Rico

Apesar desse histórico e do cenário político de Porto Rico, há boas notícias: muito dinheiro tem sido injetado para o avanço do setor de STEM de Porto Rico, criando um enorme potencial de geração de empregos na área, especialmente na ciência e tecnologia. A National Science Foundation (NSF), por exemplo, concedeu à ilha US$ 23 milhões para serem investidos na área de ensino e educação em STEM – quase US$ 19 milhões foram destinados para a universidade pública da ilha, a Universidade de Porto Rico.

Graças ao prêmio da NSF, a Universidade de Porto Rico (que tem vários campus em toda a ilha) anunciou a criação do Centro de Recursos para Ciência e Engenharia. A UPR, como é carinhosamente conhecida, continuou a desenvolver seus currículos STEM e está entre os programas mais populares de graduação da universidade. 

Outras universidades notáveis na ilha que oferecem estudos em STEM incluem a Universidade Interamericana de Porto Rico, a Universidade Ana G. Méndez-Cupey Campus, e a Universidade do Sagrado Corazón. Além disso, instituições públicas, privadas e sem fins lucrativos oferecem várias opções de aprendizagem na área.

LEIA TAMBÉM: IDB Lab cria programa para acelerar startups lideradas por mulheres na América Latina e no Caribe

Em 2015, as Faculdades Comunitárias de Serviço Hispânico publicaram um relatório que revelou que, pela primeira vez, as mulheres superaram os homens entre aqueles que concluem alguma formação na área de STEM em Porto Rico, respondendo por 52,5% dos diplomas em comparação com 47,5% dos estudantes do sexo masculino. 

Além dos programas de educação universitária, outras iniciativas surgiram para apoiar as pessoas que buscam ingressar na área. É o caso da organização sem fins lucrativos CienciaPR, fundada em 2010. Composta por cientistas e estudantes comprometidos com o avanço da ciência na ilha, em 2012 a organização recebeu uma grande doação do Porto Rico Science, Technology and Research Trust para alavancar seu programa STEM. Outro exemplo é a Parallel18, uma aceleradora global de startups STEM que está em seu sétimo ano e, há vários anos, une forças com o Google Developers Launchpad para fornecer aos porto-riquenhos maior acesso a startups globais voltadas para STEM. 

Conheça a trajetória de quatro porto-riquenhos que se destacam no setor de STEM

Em entrevista ao LABS, Carmen Tosado Cáceres, de Lares, lembrou de sua trajetória acadêmica e profissional, desde o final dos anos 80, quando era uma das poucas mulheres que estudavam Ciências da Computação e de quando fazia seu mestrado em Sistemas Abertos, um campo também dominado por homens. 

Carmen Tosado Cáceres. Foto: Divulgação


“Embora minha família sempre tenha me encorajado a escolher uma carreira de que eu gostasse e na qual me destacasse, as mulheres representavam apenas 25% da minha turma de formandos. Eu me formei em 1990 e fui recrutada por uma das grandes empresas farmacêuticas logo após a faculdade.

Quando conheci meu marido, eu já estava trabalhando em Sistemas de Informação. Ele adorava isso. Ele sempre foi meu maior torcedor. O mesmo não se pode dizer de todas as mulheres da minha geração. 

Fiquei na mesma empresa durante todos estes anos, subindo no organograma. Hoje sou a diretora de serviços de tecnologia comercial em Porto Rico. Eu administro a segurança e a eficiência de nossos sistemas de rede. Além dos firewalls, identifico onde há vazamentos potenciais de segurança. Confiando em uma combinação de hardware, software e codificação, acima de tudo, garantimos a segurança de nossos dados. Quando são necessárias atualizações, eu supervisiono essa equipe também. 

Meu trabalho é diversificado e diferente a cada dia. Apesar de mais mulheres entrarem em empregos de S.I., eu estimo que meu departamento é de apenas 30% de mulheres. Eu adoraria ver esses números se equilibrarem”. 

Enquanto Porto Rico tem sido progressivo em colocar tantos recursos na STEM, ser uma colônia cria uma situação insustentável para muitos na ilha – independentemente do sexo ou profissão: ou permanecem na ilha e ganham consideravelmente menos enquanto suportam um alto custo de vida, ou se mudam e ganham consideravelmente mais, mas correm o risco de deixar para trás pais, irmãos e às vezes até mesmo filhos. 

Miguel Rios De Leon. Foto: Divulgação


Miguel Rios De Leon, de Barceloneta, compreende este dilema como poucos. Após graduar-se em uma faculdade particular, em 2015, em Engenharia Biomédica, Rios De Leon conseguiu um trabalho de monitoramento e calibragem de máquinas de diálise. A empresa ofereceu um salário de US$ 10 por hora. Como o valor não era suficiente para sustentar a casa, ele manteve um segundo emprego no varejo para equilibrar as contas. Com poucas horas de descanso, Rios De Leon sofreu um acidente de carro após adormecer ao volante. Foi quando ele entendeu que precisaria mudar de vida. 

Ele se mudou para a Flórida em 2017, onde conseguiu uma vaga para a mesma função que exercia em Porto Rico, mas seu salário agora é de US$ 37 por hora. Embora seu padrão de vida tenha melhorado significativamente, Rios De Leon teve de abrir mão do convívio com seu filho, agora com 11 anos, e com sua família e amigos, que continuam em Porto Rico. Todo o tempo livre de que dispõe é dedicado para ver sua família na ilha. 

De acordo com dados do censo do verão de 2021, discrepâncias salariais como a de Rios De Leon não são incomuns. A renda mediana na ilha é de US$ 20.539. Entretanto, os salários não estão acompanhando o rápido aumento do custo de vida. 

Frances M. Zenón Meléndez, PhD, é Diretora do Programa de Educação STEM do Puerto Rico Science, Technology and Research Trust, uma instituição privada sem fins lucrativos localizada em San Juan que oferece 18 programas com foco em STEM. Entre as responsabilidades de Zenón Meléndez, está a de garantir que todas as iniciativas dos programas continuem, independentemente de quem esteja em Fortaleza (a mansão do Governador) e/ou no cargo de chefe do Departamento de Educação – a instituição tem uma parceria com o Departamento de Educação para fornecer vários programas acadêmicos e tecnológicos. 

Frances M. Zenón Meléndez. Foto: Divulgação


“Nós coordenamos algumas sessões de treinamento virtual e seminários para os estudantes de diferentes equipes. Estudamos, por exemplo, micologia e aeroalergênios. Estamos realmente interessados em robótica. Também trabalhamos com o Nautilus, que é uma espécie de submarino que estuda a vida marinha. Creio que o Nautilus é uma das experiências mais surpreendentes que oferecemos. Recentemente iniciamos um programa de realidade virtual. Devido à COVID, muitos de nossos programas foram para o Zoom, mas não o programa de realidade virtual porque ele se baseia nos sentidos, particularmente o tato e o olfato)”.

Zenón Meléndez disse que quando ela começou a trabalhar para o Puerto Rico Science, Technology and Research Trust, três anos atrás, os homens superavam as mulheres em número “significativamente”. Hoje os números são 1:1.

“É muito emocionante ver tantas mulheres interessadas no setor de STEM. Observamos esta mudança e acredito que podemos continuar a mantê-las engajadas através de nossos programas e constante comunicação e apoio. Estamos ajudando a mudar esta mentalidade de que as meninas não podem fazer engenharia, física ou matemática”.

Adriana Arroyo Fernández. Foto: Divulgação


Adriana Arroyo Fernández é uma estudante em tempo integral na Lilly del Caribe, na Carolina (na área metropolitana de San Juan). Lilly é uma grande empresa farmacêutica conhecida por produzir insulina e outros medicamentos. Arroyo Fernández está atualmente trabalhando em um laboratório de Serviços Técnicos cujo objetivo é apoiar as diversas áreas de fabricação dentro da empresa. 

“Realizamos testes em pequena escala que servem como guia para ajudar a inovar e melhorar os processos já existentes”, disse Arroyo Fernández. “Desde que comecei a fazer pesquisas em minha universidade, percebi o quanto gostava de estar dentro de um laboratório e trabalhar de forma prática com vários projetos em andamento simultaneamente. Além disso, um dos meus cursos me deu uma breve visão geral do que consiste exatamente o setor farmacêutico, o que me motivou a buscar oportunidades nessa área. Todas estas experiências tiveram um papel importante para me trazer até aqui”.

Questionada se encontrou resistência de membros da família por escolher a área de STEM, ela respondeu: “Felizmente, todos em minha família apoiaram minha decisão de me atuar no setor farmacêutico, em vez de estudar medicina como a maioria dos estudantes da minha especialidade tendem a fazer. Entretanto, logo no início, experimentei algumas reações mistas por parte de alguns dos meus colegas homens. As reações de hoje são mais favoráveis, embora às vezes eu ainda seja confrontada com algum ceticismo e seja questionada sobre o porquê de eu ter escolhido este caminho em vez de visar uma carreira diferente, menos técnica”. Arroyo Fernández disse que metade de seu departamento são mulheres. 

LEIA TAMBÉM: Impulsionando a diversidade: uma organização sem fins lucrativos tem a missão de trazer mais latinos para o mundo do venture capital

Quando questionados sobre a busca por empregos mais bem remunerados em outros estados, as três profissionais com quem conversamos e que permanecem na ilha admitiram se sentir tentadas em alguns momentos.

“Eu amo absolutamente o que faço. Sei que todos nós do Puerto Rico Science, Technology and Research Trust estamos conscientes do valor que trazemos para os estudantes e para o setor de STEM na ilha. Também sei muito bem que poderia ganhar o dobro ou o triplo nos Estados Unidos. Felizmente para mim, as recompensas são o motivo pelo qual entrei na STEM. Os salários maiores muitas vezes vêm com problemas maiores: contas, seguros, horários mais longos, pouco tempo pessoal. E há algo mais, que não é dito com freqüência: servimos a uma comunidade que está, em grande parte, em desvantagem socioeconômica. Não seria assim em uma universidade fora da ilha, onde muitos dos estudantes vêm de famílias com dinheiro”, disse Zenón Meléndez, explicando porque não cedeu à tentação. 

“Eu tenho meus momentos, em que considero trabalhar fora da ilha, mas no momento, prefiro esgotar todas as minhas opções aqui antes de considerar trabalhar fora”, explicou Arroyo Fernández. “Os salários seriam meu maior motivador desde que o custo de vida aqui em Porto Rico aumentou significativamente nos últimos anos. A tecnologia ultrapassada também é outro motivador. Mesmo assim, acho incrível que tantos estudantes e cientistas aqui em Porto Rico sejam capazes de construir muitos projetos inovadores a partir do zero, provando que nos mantemos resistentes, mesmo quando mal temos os materiais para trabalhar”.

O futuro da área de STEM em Porto Rico está no equilíbrio

Com metade dos porto-riquenhos vivendo no continente, o Departamento de Educação começou a fechar as escolas em 2007. De lá para cá, já foram fechadas 673 escolas públicas, o que compreende 44% do número total de escolas. 

Embora seja fantástico que os investimentos tenham tornado possível para todos – especialmente para mulheres – a busca de empregos nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, se a população não puder apoiar a manutenção dos programas, o futuro não parece muito promissor.

LEIA TAMBÉM: Ascensão de Miami transforma cidade em hub para startups latino-americanas de olho nos EUA

Quanto a se os porto-riquenhos querem ser independentes, reunindo-se assim plenamente com a América Latina, é difícil quantificar isto. De fato, os três últimos plebiscitos indicaram que muitos na ilha preferem a condição de Estado, mas será realmente uma pergunta justa a ser feita às pessoas que são colonizadas há mais de 500 anos? 

Qual é o futuro da STEM em Porto Rico? É difícil dizer. Por um lado, há uma boa quantia de dinheiro financiando a área. Isto provou ser inestimável para os estudantes que, de outra forma, teriam que freqüentar a faculdade nos estados norte-americanos, ou estudar outra coisa porque os materiais didáticos estavam muito desatualizados. Por outro lado, uma vez que tenham se formado e estejam procurando emprego em suas respectivas áreas, eles serão confrontados com o dilema de permanecer na ilha, perto dos seus, ou partir em busca de salários melhores e um futuro profissional mais promissor. 

This post was last modified on março 12, 2022 6:48 pm

Sarah Ratliff

Following 20 years in the corporate world—culminating with biotech giant Amgen—in 2008, Sarah Ratliff and her husband left Southern California and relocated to Puerto Rico to live on an organic farm. Today Sarah feels very fortunate to call herself a corporate America escapee, turned eco-organic farmer, writer, and published book author. At LABS, she writes about innovation and business in Puerto Rico.

Share
Published by
Sarah Ratliff

Recent Posts

Revolução Pix: colaboração entre Banco Central e mercado financeiro foi crucial para pensar, criar e implementar Pix no Brasil

Parte do sucesso do Pix tem suas bases no alinhamento entre os objetivos do Banco…

junho 28, 2022

Revolução Pix: como o método de pagamento instantâneo criado no Brasil colocou o país na vanguarda da indústria global de pagamentos

Liderada pelo Banco Central, a criação do Pix é um exemplo de como a inovação…

junho 20, 2022

Time to market: a arte de ligar os pontos

O Time to Market tem sido um grande aliado das startups para atrair investidores, mas…

junho 19, 2022

Appmax cresce sete vezes ajudando clientes a vencer fraudes e “burocracia digital”

Empresa fundada em 2018 pelos irmãos Betina e Marcos Wecker viu número de sites usando…

junho 19, 2022

Tangerino by Sólides: a experiência de vender um negócio

Como duas empresas irmãs, mineiras e comprometidas com inovação se uniram para mudar o cenário…

junho 16, 2022