Foto: Captura de Tela/YouTube
Sociedade

Eleições no Peru: a encruzilhada entre o cavaleiro desconhecido e a filha do ditador

E o improvável apoio de um Nobel da literatura. O segundo turno das eleições no Peru, que acontecem no próximo fim de semana, marcam mais um capítulo da turbulenta história do país

Read in english

A primeira vez que encontrei a América Latina foi nos livros. Com 14 anos, eu já era uma ávida leitora dos chilenos Isabel Allende e Pablo Neruda, do peruano Mario Vargas Llosa, do colombiano Gabriel García Márquez e tantos outros. Porém, o primeiro encontro presencial com ela aconteceu quando eu tinha pouco mais de 15 anos e decidi sair de ônibus de Brasília e cruzar a fronteira em Puerto Quijarro para a Bolívia com o objetivo de chegar a Machu Picchu, no Peru.

Peguei o famigerado “Tren de La Muerte” até Santa Cruz de La Sierra, de lá a Cochabamba. Depois, segui até o lago Titicaca, onde, pouco depois, cruzei de Copacabana até Puno, já no Peru. Foi o primeiro contato com essa América Latina original, cujas feições eram tão diferentes das que eu conhecia, que me surpreendia com alimentos estranhos como milhos gigantes e roxos, idiomas que eu ignorava até então, como o Quechua, um mundo que me parecia estranhamente distante do meu.

LEIA TAMBÉM: No Equador, um presidente de direita governará com uma base de esquerda, mas não é só isso

Dessa minha primeira incursão na América Latina, há cerca de 25 anos atrás, vem uma das minhas lembranças mais fortes: minha parada por meia hora em Cuzco, tentando entender um muro milenar de pedras construído pelos Incas. Eu vinha reparando que os muros apresentavam um encaixe perfeito, uma espécie de tetris inca, que carecia de qualquer tipo de rejunte ou concreto para manter aquelas pedras encaixadas por tantos anos. Não fosse só isso, havia outra geometria que me intrigava: algumas pedras tinham muitos lados, octógonos embutidos perfeitamente sem que nada pudesse passar por eles. Na minha ignorância, cheguei a espalmar a parede em busca de frestas, empurrei um pouco para sentir a força que ia me mandando de volta, sólida e desafiadora.

Lembrei desse muro quando comecei a cobrir as eleições presidenciais peruanas neste ano. Como esses muros milenares, na política, nenhum espaço fica vazio. Naquela época, quando visitei o país pela primeira vez, eu não era uma jovem exatamente bem informada sobre política. O Peru era então governado pelo ditador Alberto Fujimori, que hoje cumpre pena por crimes de lesa humanidade, corrupção e peculato – nos meus tenros 15 anos, porém, não me lembro de ter sido avisada que algumas cidades tinham barreiras controladas pelo grupo “comunista” Sendero Luminoso. Eu já vinha acumulando o cansaço de ter atravessado a Bolívia, com todos os sintomas do mal de altitude, e normalmente dormia em qualquer transporte que viajava. Nunca soube se, quando fomos parados nas madrugadas, se eram barreiras policiais ou do Sendero Luminoso.

LEIA TAMBÉM: América Latina: riscos políticos perseguem investidores

Voltei a pensar na política peruana em 2011, quando tive de cobrir a polêmica gerada pelo convite do escritor peruano Vargas Llosa para o principal evento da literatura na Argentina, a Feira Internacional de Livros, que acontece todos os anos em Buenos Aires. Vargas Llosa, por muitos anos, foi um intelectual conectado com ideias progressistas e, posteriormente, se tornou um conservador que criticava abertamente os governos de esquerda da América Latina. Mesmo conservador, e com uma carta de intelectuais argentinos pesando contra sua participação como convidado de honra, muitos reconheciam seu valor como escritor, embora afirmassem ser impossível separar o homem da obra. 

Llosa era um feroz inimigo de Fujimori, um descendente de imigrantes japoneses que o derrotou em segundo turno nas eleições presidenciais de 1990. Por muitos anos, Llosa havia usado seu prestígio de vencedor do Nobel de literatura para combater o fujimorismo no Peru, sendo uma das principais vozes contra, por exemplo, o fechamento do Congresso peruano em 1992. Toda essa animosidade e anos de inimizade com Fujimori mudaram com um artigo publicado por Llosa no último dia 17 de abril pelo jornal espanhol El País.

LEIA TAMBÉM: Outsiders e independentes escreverão a nova Constituição chilena

“Entre a cruz e a espada”

Em abril, quando os peruanos chegaram às urnas para o primeiro turno das eleições presidenciais, tinham nada mais nada menos que dezoito candidatos na cédula eleitoral. De Keiko Fujimori, filha de Alberto Fujimori cujo mote de campanha era a promessa de governar com a “mão pesada”, a Hernando de Soto, que garantiu um governo de “guerra” contra a pandemia, e Rafael López Aliaga, de ultra direita, que assegurou deportar todos os estrangeiros que cometessem delitos no país de forma imediata.

Um espectro que um cientista político do país chegou a comparar ao “cardápio de um restaurante peruado”. Como resultado desta fragmentação veio a “surpresa”: o segundo turno seria disputado por dois candidatos cujas votações não foram expressivas: Pedro Castillo, um “desconhecido”, com pouco menos de 20% dos votos, e Keiko Fujimori, com pouco mais de 13% dos votos.

Keiko Fujimori, candidata do partido de direita Força Popular. Foto: Creative Commons

A fragmentação política peruana, com partido políticos pouco expressivos, personagens do passado voltando e novatos despontando, é resultado de mais de uma década de turbulência política do país, com quase todos os ex-presidentes presos ou investigados por corrupção. A própria Keiko é investigada por corrupção por suposto recebimento de propina por parte da empreiteira brasileira Odebrecht.

LEIA TAMBÉM: Um restaurante vegetariano com frango ao molho pardo no menu

Tal turbulência teve, inclusive, desfechos trágicos, como o do ex-presidente Alan García, que, em 2019, ao ter a casa invadida por policiais para prendê-lo por acusações de receber propinas da Odebrecht, pediu para dar um telefonema em privado e terminou por disparar uma bala contra a própria cabeça, morrendo pouco depois.

Durante todo esse período, Vargas Llosa fez escolhas que descreveu como “pesadoras”. Em 2006, não conseguindo abster-se de uma escolha que chegou a descrever como uma opção “entre o câncer e a AIDS”, preferiu apoiar Ollanta Humala, candidato da extrema esquerda contra Keiko Fujimori na corrida presidencial daquele ano. Levou Ollanta Humala.

O abismo

No dia 17 de abril deste ano, no entanto, Vargas Llosa surpreendeu a todos com uma declaração pública de voto. Em um artigo intitulado Chegando perto do abismo, o Nobel de literatura declarou que votaria em Keiko e fez um apelo para que os peruanos fizessem o mesmo. Segundo ele, a candidata representa um “mal menor”. Mas qual é a ameaça da qual o maior intelectual do Peru quer que o povo fuja?

O outsider

Pedro Castillo é considerado “desconhecido” pela imprensa mundial, um outsider fruto da fragmentação da política do país. Chamou a atenção ao chegar no dia da eleição para votar com seu característico chapéu de cowboy e montado num cavalo. Uma cena que correu o mundo depois que o resultado do segundo turno foi anunciado: um ilustre “desconhecido”, que até então escapava das redes sociais, com humildes três mil seguidores no Twitter, enfrentaria uma das maiores forças das últimas décadas no Peru, a temida dinastia Fujimori.

Pedro Castillo, candidato do partido de esquerda Peru Libre à presidência do Peru. Foto: Reprodução / Facebook / Vladimir Cerrón

Castillo se projetou a partir da primeira cidade que conheci: Puno, no sul do Peru. Professor, sindicalista e de um partido autodenominado “marxista’, Castillo avançou nas zonas rurais do país, deixou a capital Lima para trás, e foi conquistando o território deixado pela divisão de porcentagem entre tantos candidatos. 

Outro fator ignorado é que o sul do país, historicamente, é berço de algumas das maiores revoluções da nação. Com tantos escândalos recentes, o sentimento anti-establishment foi ganhando fôlego, escapando do radar de muitos olhos atentos. 

Ele começou a ganhar projeção nacional em 2017 quando liderou uma greve de professores no país que durou 75 dias. Em um artigo publicado no New York Times a escritora Gabriela Wiener afirmou que votaria em Castillo, como um voto que iria além do anti-fujimorismo. Ela definiu sua escolha como anti-colonial e disse entender que muitos analistas entenderam a liderança do professor como “o dia que, no Peru, nos demos conta que o país é mais do que Lima”. 

Mas, para ela, ele terá de manter suas promessas, suas raízes e não se desviar dos problemas sociais do país. As pesquisas apontam provável vitória para Castillo, mas tudo pode influir no humor dos eleitores. Recentemente, autoridades do país acusaram o grupo Sendero Luminoso de voltar às manchetes como perpetrador de um massacre em uma das maiores zonas cocaleiras do país.

Seja qual for o resultado das eleições de segundo turno que acontecem no país no dia 6 de junho, a única certeza é que nenhuma maioria peruana sairá vencedora. E o próximo presidente enfrentará um país cujas instituições políticas são um mosaico de ideias díspares. Como escreveu Vargas Llosa “a incerteza é uma margarida cujas pétalas nunca acabam de desfolhar” (La incertidumbre es una margarita cuyos pétalos no se terminan jamás de deshojar). É preciso pagar para ver. 

Keywords