Uma nota de dólar e Rua Florida ao fundo, tradicional via de compras e casas de câmbio de Buenos Aires. Foto: Arikaff/Shutterstock
Sociedade

O "peso" que carregam os argentinos diante do dólar

Mais recentemente, a descrença no peso argentino e nas instituições bancárias parece ser algo decorrente de um trauma datado: a crise de 2001

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Taxistas portenhos gostam de contar histórias sobre fortunas em dólares achadas em apartamentos no bairro da Recoleta, em Buenos Aires. O bairro histórico teve um passado glorioso e sua população foi envelhecendo. Por isso, muitas vezes, essas “fortunas” em moeda estrangeira são achadas após o falecimento de um morador, escondidas em cofres ou até debaixo do colchão. O motivo não está associado à preocupação de um conflito iminente – a guerra das Malvinas, em 1983, nunca chegou à capital argentina. Então, como explicar a dificuldade do argentino em poupar em sua própria moeda e guardar essa poupança nos bancos locais? 

A descrença no peso argentino e nas instituições bancárias parece ser algo decorrente de um trauma datado: 2001. Naquele ano, o país entrou em uma espiral de caos econômico que o levou à moratória externa, ao confisco da poupança e à limitação do saque bancário, por parte do governo.

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Foi um período de terror marcado por demissões em massa, convulsão social, protestos violentos, saques e mortes, suicídios e desespero, com presidentes diferentes entrando e saindo da Casa Rosada. Um deles, Fernando de La Rúa, fugiu da sede do governo, abandonando o país a um futuro incerto. Isso aconteceu em dezembro de 2001, pouco antes do Natal, em meio à uma revolta popular, cuja repressão pelas forças policiais deixou mais de 30 mortos.

É preciso dizer, no entanto que, apesar do susto de 2001, os argentinos já recorriam ao dólar antes mesmo desse período. A trajetória da Argentina é marcada por altos e baixos tão fortes que a classe média está sempre correndo pelos cantos para proteger suas economias.

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O primeiro grande tombo veio ainda na década de 1920, quando o país era visto como um dos mais prósperos do mundo devido ao seu modelo agro-exportador. Antes da Grande Depressão, corria pelo mundo a expressão idiomática “fulano é tão rico como um argentino”. A arquitetura pomposa de alguns dos prédios mais antigos de Buenos Aires é testemunha desse desmonte do país, um esqueleto da prosperidade que os argentinos desfrutaram até o início da década de 1930.

Por isso a relação do argentino com o dólar é tão controversa. A moeda chega a ter doze diferentes cotações, dependendo da finalidade de uso. E vira e mexe, o tema volta à tona. Como no último mês de setembro, quando o governo de Alberto Fernández impôs severas restrições à compra da moeda.

Foram estabelecidos limite mensal de US$200 para a compra oficial de dólares, impostos e uma retenção a ser eventualmente reembolsada no imposto de renda, em um emaranhado burocrático que até economistas têm dificuldades em explicar. Tudo para desencorajar o argentino a comprar dólares, dentro do esforço que já dura décadas para desdolarizar a economia e controlar as dívidas e as reservas externas do país.

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Há centenas de fatores de cunho econômico para as restrições: dívidas federais com organismos multilaterais estrangeiros, baixa nas reservas do Banco Central, defaults, hiperinflação, entre outras mazelas. Ou mesmo a depreciação do peso argentino, que nesse ano já supera 230% (e que no dia 22 de setembro chegou a valer zero em casas de câmbio do vizinho Uruguai). 

No entanto, o pano de fundo está sempre no costume e na cultura popular de se proteger das mudanças econômicas e políticas do país comprando dólares. O fenômeno é tão complexo que é difícil entender as diferentes cotações do dólar e a proliferação do que os argentinos chamam de dolar blue, vendido em casas de câmbio ilegais a preço de ouro. O governo faz vistas grossas a lugares cuja tradução literal é “caverna” (cuevas). Isso gera um complexo cenário para argentinos, estrangeiros e investidores.

O tema é tão intrigante que é foco de estudos no Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina (CONICET). Entre os pesquisadores do conselho, estão Mariana Luzzi e Ariel Wilkis, que estudam o dólar como “um instrumento de interpretação da realidade nacional”. Em 2019, os dois lançaram um livro: El Dólar: Historia de una moneda argentina, produto de quatro anos de investigação.

“Diferentes histórias estão ligadas ao dólar na Argentina: uma história econômica, é claro, mas também uma história política e cultural. A singularidade da Argentina não é apenas sua instabilidade econômica, mas sim que o dólar tem esse duplo caráter como instrumento financeiro e como artefato para decodificar uma realidade em profunda mudança. A preocupação com o dólar, ou estar atento às variações do seu preço, fala menos da nossa economia do que das ferramentas com que lemos a realidade”, afirma Luzzi. 

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Para os pesquisadores, a explicação para esse tipo de vínculo com o dólar no país remonta à década de 1950, quando foi lançado um plano de reestruturação econômico pelo presidente Arturo Frondizi, e às crises subsequentes, como as de 1989 e 1991 (ligadas às tentativas de atrelar o dólar a um preço fixo, conhecido como conversibilidade), e finalmente a de 2001.

Eles destacam, ainda, a dolarização do mercado imobiliário. Até os dias de hoje, é comum que a venda e o aluguel de imóveis sejam cotados em dólares. Mesmo quando isso não acontece, os aluguéis são ajustados de acordo com a inflação, indicador para o qual o dólar é um fator preponderante. 

Politicamente, os governos de esquerda, como os de Cristina Kirchner e o atual de Fernández, tentam provar que a dolarização da economia é a raiz de muitas mazelas. Já os governos liberais acreditam que o livre trânsito da moeda é parte da doutrina liberal, e que o controle sobre essa circulação gera mais problemas que soluções.

Mas os próprios políticos falham ao tentar demonstrar à população que é preciso desdolarizar a economia quando, em seus negócios familiares e pessoais, continuam atrelados à moeda estrangeira.

O fato é que, quando a população enfrenta restrições à compra da moeda, há uma reação, muitas vezes nas ruas, pois esta restrição é vista como uma interferência nos mecanismos de blindagem para os altos e baixos da economia argentina

Mesmo assim, quando as reservas em moeda estrangeira estão baixas, até os liberais, como ex-presidente Mauricio Macri, recorrem à limitação da compra da moeda. A cultura do dólar é tão arraigada que a principal plataforma eleitoral de Macri, que cortou um ciclo de kirchnerismo de três mandatos (um de Néstor Kirchner e dois de Cristina Kirchner) em 2015, versava sobre um plano mirabolante para atração de investimento estrangeiro que, sem maiores explicações, a população leu imediatamente como injeção de moeda estrangeira na economia, ou seja, dólares – fato que nunca aconteceu. 

“Todas essas considerações que buscam minimizar o valor do dólar ou do mercado de câmbio partem do pressuposto de que o dólar é apenas um ativo financeiro e que, portanto, só desafia aqueles que fazem parte do jogo de investimento financeiro ou estão ligados ao mercado externo. Mas em nosso país o dólar também é um artefato para interpretar a realidade”, explicam os pesquisadores do CONICET. 

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Com base em dados econômicos coletados sobre a moeda nos Estados Unidos, o economista Fernando Marull calculou que os argentinos poupam quatro vezes mais em dólar que o total de pesos que circulam hoje no país. Seriam US$ 130 bilhões. Marull chegou à conclusão que nenhum país no mundo tem tantos dólares circulando internamente sem que essa seja sua moeda oficial. 

Essa volatilidade econômica se intensifica em tempos de incerteza mundial com a pandemia do novo coronavírus. A desconfiança no peso argentino cresce, colocando mais “peso” na maneira tradicional que os argentinos encontraram para proteger-se das altos e baixos do país. São “dolores” e “dólares” de uma nação que vê na economia sua maior fobia.