Sociedade

Pela primeira vez, um candidato de esquerda tem chances reais de chegar ao poder na Colômbia

A democracia mais antiga em funcionamento ininterrupto da América do Sul realizará neste domingo, dia 29 de maio, o primeiro turno das eleições presidenciais. O país sempre foi governado por presidentes de direita, centro-direita ou de centro. Mas nunca antes um candidato de esquerda teve chances reais de chegar ao poder e ser o novo inquilino da Casa de Nariño, o palácio presidencial colombiano. 

A tensão política é grande, já essas eleições ocorrem três anos após o início de um novo período de convulsão social no país, agravado pela pandemia e pela crise econômica, com grandes manifestações e intensa repressão policial condenada pela ONU e a União Europeia. Tudo isso condimentado com a persistência da violência, especialmente no interior do país, onde a saída da agora ex-guerrilha as FARC deixou espaço por outros grupos violentos, de extrema-esquerda e de extrema-direita.

Ao todo, 39 milhões de colombianos estão habilitados para votar neste domingo, mas o voto não é obrigatório na Colômbia. Desde a virada do século, apenas metade do eleitorado, em média, tem comparecido às úrnas e essa participação está, gradualmente, caindo ainda mais.
Nos últimos dois meses, o candidato Gustavo Petro, de esquerda, já passou por quatro partidos. Atualmente, está no Colombia Humana, que integra a coalizão de centro-esquerda “Pacto Histórico”, lançada no ano passado, e tem estado na pole position das pesquisas.

Em segundo posto vem Federico “Fico” Gutiérrez, da direita tradicional e do partido Creemos Colombia. Criado em 2015, o partido integra a coalizão “Equipo por Colombia”, lançada no ano passado.

Ao longo dos últimos meses, Petro ostentou, em média, mais de 10 pontos percentuais sobre “Fico” e, até o início da semana retrasada, tudo indicava que o rival de Petro em um eventual segundo turno em junho seria o candidato do Creemos.

Nas duas últimas semanas, no entanto, a campanha deu uma guinada com o crescimento persistente daquele que era o terceiro colocado, o empresário Rodolfo Hernández, de 76 anos, um populista de direita que se declara um “outsider” da política e é frequentemente chamado de “Trump colombiano”. Hernández estaria em empate técnico com “Fico”.

Uma pesquisa do Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica (Celag) indica que Petro teria 45,1% das intenções de voto. Em segundo lugar estaria Hernández, com 20,4%, seguido de Fico Gutiérrez, com 20,1%.

É no cenário hipotético de segundo turno entre Petro e Hernández, no entanto, que a situação se complica para o candidato da esquerda.As pesquisas indicam que haveria um empate técnico entre os dois de 40,5% cada um, segundo a pesquisa do Centro Nacional de Consultas.

Há duas semanas, Ingrid Betancourt, que era candidata presidencial pelo Partido Verde, renunciou à candidatura e declarou seu respaldo a Hernández. Betancourt ficou famosa internacionalmente após ser sequestrada e mantida como refém das FARC por seis anos.  Betancourt contava com baixíssima intenção de voto. Mas, graças a ela, Hernández fica com uma aliada que tem boa reputação.

Por esse motivo, no fim de semana passada Petro fez um apelo a seus militantes, para que se atarefem na campanha, de forma a ainda vencer no primeiro turno, já que as projeções da pesquisa da Celag indicam que ele poderia ter 48% dos votos. Isto é, o plano é fazer um derradeiro esforço neste “sprint”, dar um “pique”, para conseguir a proporção necessária para vencer já na primeira rodada.

LEIA TAMBÉM: Ariel Palacios – Pequeno glossário etimológico-eleitoral para te guiar nos pleitos latino-americanos

Uma campanha marcada por denúncias

A campanha foi marcada pelos mais variados tipo de denúncias entre os candidatos.

Petro foi acusado de ser um agente do “castro-chavismo” (termo criado na Colômbia há muitos anos para designar a aliança entre o regime chavista da Venezuela e o regime castrista de Cuba) e dos narcotraficantes. Petro e seus aliados desmentiram as teorias da conspiração.

Mas Petro também fez suas acusações, sendo a mais chamativa, durante o comício de encerramento da campanha eleitoral, na qual indicava que o governo do direitista presidente Iván Duque tem um hipotético plano para suspender o primeiro turno do domingo. No entanto, Petro não deu detalhes adicionais sobre sua denúncia. 

O governo colombiano retrucou que não existe suspensão alguma prevista para o primeiro turno, já que isso só poderia ocorrer em caso de catástrofe nacional, como um terremoto ou algo do gênero.

Centro esvaziado e governistas com problemas

Os partidos de centro sempre se apresentaram na Colômbia com o argumento de que representavam a denominada “mudança viável”. Isto é, a viabilidade de vencer nas urnas e depois governar, sem grandes complicações no Parlamento. No entanto, esses partidos de centro vêm perdendo potência eleitoral desde o pleito de 2018, quando Petro conseguiu chegar ao segundo turno e obter 42% dos votos, perdendo por pouco para o presidente Iván Duque, que deixará o cargo no dia 7 de agosto.

Duque, de direita e péssima popularidade (sua desaprovação chega a 80%) não conseguiu emplacar um candidato. Ele e seu ex-padrinho político, o ex-presidente Alvaro Uribe, tinham um candidato, Oscar Zuluaga. Mas este acabou desistindo de sua candidatura meses atrás.

As pesquisa indicam que 60% dos cidadãos afirmam que a situação econômica de seus lares é “regular, ruim ou muito ruim” e 90% dos entrevistados afirmam que a situação do país, de maneira geral, também está “regular, ruim ou muito ruim”.

Os principais candidatos na disputa das eleições presidenciais 2022 na Colômbia

Gustavo Petro

Gustavo Pedro, ex-prefeito de Bogotá e candidato à Presidência da Colômbia. Foto: Instagram Oficial.

Com 62 anos idade, foi militante do M-19, um grupo que tinha uma ala política e uma ala de guerrilha de esquerda nos anos 1980. O grupo ficou famoso pela sangrenta invasão do Palácio da Justiça em 1985. Foi uma das poucas ações militares do M-19, mais marcado pela atividade estudantil nas grandes cidades do país.

O escritor americano F.Scott Fitzgerald costumava dizer que “não há segundos atos nas vidas dos americanos”. Mas Américo Martín, um famoso ex-guerrilheiro venezuelano de extrema-esquerda, opositor de Hugo Chávez, falecido em fevereiro passado aos 84 anos de idade, parafraseava essa sentença, afirmando ironicamente que “na América Latina não há segundos atos para os ex-guerrilheiros”, indicando que eram raríssimos os casos de sucesso na vida democrática para aqueles que haviam sido guerrilheiros.

Mas Petro não é um guerrilheiro, nunca participou de combates. Ele se dedicava aos discursos políticos em assembleias estudantis e distribuição de panfletos. Ainda assim, ficou preso por um ano e meio por ter sido integrante do grupo. Posteriormente partiu para o exílio na Bélgica, onde se especializou em assuntos ambientais. Em 1990, o M-19 e o governo colombiano fizeram um acordo de paz.

Ao voltar para a Colômbia, retornou à vida política de seu país, sendo eleito deputado federal. Posteriormente foi prefeito de Bogotá, a capital do país (mas com uma gestão considerada “sem brilho”), e senador. Seu partido atual é o Colombia Humana.

Esta é a terceira vez que Petro disputa a presidência da República. Como é a primeira vez que um candidato de esquerda tem chances concretas de chegar ao poder, batizou sua heterogênea coalizão de partidos de “Pacto Histórico”, que reúne partidos históricos (como o Partido Comunista), partidos ecologistas, grupos políticos dos povos originários, entre outros. 

Para se esquivar das críticas das feministras, que o criticavam pela ausência de uma agenda em prol da causa, convidou a afrocolombiana Francia Márquez, segunda colocada na convenção partidária do Pacto Histórico em março, para ser vice-presidente.

Gustavo Pedro, ex-prefeito de Bogotá e candidato à Presidência da Colômbia, ao lado de Francia Márquez, sua vice. Foto: Instagram Oficial.

Petro, hoje, propõe maior participação política e representatividade para as mulheres. Um de seus objetivos, afirma, é que 50% dos postos do funcionalismo público seja ocupado por mulheres. Ele promete criar o “Ministério da Igualdade” para alcançar essa meta. 

Ele também planeja uma reforma da Polícia, com objetivo, principalmente, de evitar as frequentes violações aos direitos humanos em manifestações, e também alterações nos fundos das forças armadas, já que agora não precisam mais dos enormes volumes de dinheiro que antes empregavam no combate às guerrilhas das FARC (que depuseram as armas em 2016).

O candidato de esquerda afirma que a Colômbia precisa passar de uma matriz energética fóssil para uma economia descarbonizada. Por esse motivo, pretende proibir a exploração de jazidas não convencionais de gás e petróleo. Em sua mira também está a mineração a céu aberto. 

O candidato deseja ainda “democratizar” a propriedade da terra, para acabar com o “latifúndio improdutivo” (favorecendo, nesse caso, a propriedade de famílias rurais).  No entanto, essas empreitadas, entre outras que preocupam alguns setores dos mercados, requereriam um peso substancial no Parlamento, isto é, maioria própria, algo que não possui.

O Parlamento colombiano está formado por 108 senadores e 187 deputados (as eleições parlamentares foram antes das presidenciais, em março). Petro conta com 16 cadeiras no Senado e 25 na Câmara de Deputados. Esse número indica um crescimento histórico em relação ao que possuíam antes. O tradicional Partido Liberal, de direita, por exemplo, tem 15 senadores e 32 deputados. Por esse motivo, se for eleito presidente, Petro precisará jogo de cintura para conseguir respaldos da centro-esquerda e do centro.

De forma geral, Petro foi se deslocando na direção do centro ao longo dos últimos anos, afastando-se dos velhos companheiros da militância da esquerda purista.

Petro evita auto-denominar-se de “esquerda”, optando por classificar-se como “progressista”.

Federico “Fico” Gutiérrez

Federico “Fico” Gutiérrez, ex-prefeito de Medellín e candidato a Presidência da Colômbia. Foto: Instagram Oficial.

É um engenheiro civil, consultor em segurança, de 47 anos, que entrou na política na primeira década deste século. Foi vereador da cidade de Medellín e depois, em 2015, prefeito da cidade. Na ocasião, conseguiu o aval para sua candidatura por meio de um enorme abaixo-assinado dos cidadãos de Medellín (e não por intermédio do formato clássico, de um partido político).

Ele fez do combate à criminalidade sua principal bandeira na administração dessa cidade. Mas seu próprio secretário de segurança foi protagonista de um escândalo, ao ser preso por vínculos com as gangues locais (ele havia feito uma troca de favores com os criminosos para poder exibir resultados em sua gestão). 

Ele encerrou seu mandato com 80% aprovação. Em 2018, vieram à tona dados que indicavam que ele havia usado fundos públicos para pagar campanhas nas redes sociais usando bots e contas falsas contra políticos de Medellín que eram opositores seus.

Sua única credencial para estas eleições é sua gestão como prefeito de Medellín. Durante seu governo era apelidado de “xerife”. Volta e meia participava de perseguições a criminosos durante as patrulhas policiais noturnas. Não em uma viatura policial normal nas ruas, mas desde os céus, em um helicóptero que tinha o irônico apelido de “Ficóptero”.

Fico evita autorrotular-se como um representante da “direita”, preferindo dizer, de forma colossalmente genérica que é um integrante da “ideologia do senso comum”.

Sempre sorridente, com fortíssimo sotaque “paisa” (o sotaque de Medellín) discursa sem apelar à gritaria clássica dos políticos regionais.

Estéticamente pertence à corrente da direita sul-americana que na última década opta por aparecer de paletó, mas sem gravata.

Federico Gutierrez, candidato à Presidência da Colômbia, e seu vice Rodrigo Lara Sánchez, médico, ex-prefeito da cidade de Neiva e filho de Rodrigo Lara Bonilla, um conhecido Ministro da Justiça assassinado por ordem de Pablo Escobar. Foto: Divulgação.

Fico evita aparecer ao lado do presidente Iván Duque e do ex-presidente Álvaro Uribe, ambos de direita mais dura que Gutiérrez. Mas conta com o respaldo dos partidos tradicionais como o Centro Democrático, o Partido Liberal e o Partido Conservador.

Na campanha, sua principal bandeira foi o discurso anti-Petro. Gutiérrez se apresenta como a única alternativa para derrotar Petro e assim evitar o que ele chama de “comunismo na Colômbia”. Segundo ele, o candidato esquerdista é “amigo das FARC” e do regime chavista da Venezuela.

De forma suave, repete como um mantra a frase “o nos unimos o nos jodemos” (nos unimos ou nos f…). Mas, os analistas sustentam que o fracasso do governo Duque, junto com as polêmicas geradas pelo ex-presidente Uribe, levaram a direita convencional colombiana a um déficit de força para se impor nas urnas.

Por esse motivo, muitos potenciais eleitores que possuem medo da esquerda começaram a pensar em redirecionar seu voto. Isto é, em vez de apostar por Fico, votariam no outro candidato de direita, Rodolfo Hernández.

Rodolfo Hernández

Rodolfo Hernández, empresário do setor da construção civil e candidato à Presidência da Colômbia. Foto: Reprodução.

Político populista de 77 anos, apelidado de “o Donald Trump colombiano” e “El Viejito” (“O Velhinho”), é um empresário do setor da construção civil que fez fortuna com a construção e venda de casas populares (ele era um “banco” ao mesmo tempo, já que propiciava os crédito para as compras dessas residências). Seus pais eram camponeses.

Hernández, que diz que tem uma fortuna de US$ 100 milhões, subiu nas pesquisas com um discurso anti-corrupção, catalizando a irritação de vastos setores da população com a classe política histórica do país, tanto com os partidos de direita, centro, como de esquerda. 

Hernández afirma que os partidos políticos são corruptos e fazem festivais de gastos com o dinheiro dos contribuintes. Ele sustenta que a Colômbia sofre uma “sangria” realizada por “100 mil ladrões” (ele cita o número como específico) e promete vender os aviões e automóveis usados pelas autoridades, além de transformar o palácio presidencial em um museu.

Uma de suas filhas foi sequestrada em 2004 pela guerrilha das FARC e nunca mais foi vista. Na época do sequestro, ele afirmou que não pagaria o resgate de forma alguma.

Com o discurso de “a Colômbia não cresce porque os políticos roubam o país” ele disparou nas pesquisas. Os analistas indicam que Hernández tenta reduzir tudo à corrupção. Se em uma entrevista lhe perguntam sobre educação, ele leva o assunto para a corrupção. E usa o mesmo modus operandi com mineração, ecologia, etc. O nome da coalizão de Hernández tem só a ver com esse tema: “Liga dos governadores anti-corrupção”.

Ele também tem o que denomina de “jeito espontâneo de ser”, que consiste em um arsenal de palavrões em suas declarações, além de aparecer em pijama dando entrevistas. Um vídeo dos tempos dele como prefeito, dando um tapa na cara de um vereador, ficou famoso anos atrás e agora é viral.

O septuagenário candidato conseguiu bastante sucesso entre os jovens da classe baixa, pois aparece no TikTok em cima de um patinete elétrico. 

Hernández se recusou a participar de debates dos candidatos presidenciais. Ele afirma que isso é “perda de tempo”.

O “Trump colombiano” também se declarou fã de Adolf Hitler, ao qual chamou de “grande pensador alemão”. Dias depois, perante a repercussão negativa, tentou consertar, dizendo que havia se confundido com Hitler com Albert Einstein. No entanto, não existe sonoridade similar entre os sobrenomes “Hitler” e “Einstein”.

LEIA TAMBÉM: Boric dá a largada a uma nova etapa da esquerda na política latino-americana

Guerra de guerrilhas

Desde os anos 1960, a Colômbia foi o cenário da mais prolongada e sanguinária guerra interna da América do Sul. Geralmente as guerras internas latino-americanas são travadas por um grupo guerrilheiro contra o governo de plantão. Mas no caso colombiano a coisa foi mais complexa, já que era uma luta de todos contra todos.

O principal protagonista eram as FARC, marxistas, que começaram nos anos 1960 com uma inspiração no marxismo romantizado de Cuba. No início, recorriam a assaltos a bancos e sequestros para conseguir fundos. No entanto, nos anos 1980, perceberam que era mais lucrativo – embora contra os preceitos de Karl Marx – recorrer ao cultivo de coca e contrabando da cocaína.

Uma guerrilha menor, a do Exército de Liberação Nacional (ELN), também entrou em cena. Mas, enquanto as FARC tinham um comando verticalista, o ELN eram uma federação de micro-guerrilha (com uma ideologia que mistura marxismo-leninismo, nacionalismo extremista e cristianismo da teologia da libertação) sem um comando unificado na maior parte de sua existência.

O outro ator da guerra interna na Colômbia são os grupos paramilitares de direita, que surgiram como forças paralelas ao exército e que gradualmente adquiriram autonomia e começaram também a dedicar-se ao tráfico de drogas.

Os grupos guerrilheiros de esquerda e os paramilitares, em seu apogeu nos anos 1990, chegaram a controlar mais de um terço do país (basicamente zonas de selva).

Todos esses grupos lutavam entre si. E todos, separadamente, contra o Estado colombiano.

Até o acordo de paz do Estado colombiano com as guerrilhas das FARC, elas eram responsáveis por 60% da produção da droga colombiana e os grupos paramilitares por 40%. Mas a saída das FARC do cenário, com a desmobilização de seus guerrilheiros, abriu um vácuo que foi aproveitado por outros grupos para se expandir, especialmente as “Bacrim”, forma como se denominam as bandas criminosas, que são organizações multitarefas, como La Empresa, Nueva Gente, a Gente del Orden. Estes grupos são uma espécie de resultado do “casamento” dos restos  dos grandes cartéis do passado, como o Cartel de Cali ou de Medellín, e dos paramilitares e ex-guerrilheiros. O maior de todos é o Clã Úsuga, que nos últimos anos passou a ser chamado de Clã do Golfo. Este grupo já é responsável por 50% da produção de drogas do país.

O ELN atualmente dedica-se ao contrabando de minério e de petróleo e tem ótimas relações com o regime do país vizinho, a Venezuela, onde também tem parte de seu business.

Otimismos à pique

Em 2016, os acordos de paz com a guerrilha das FARC geraram grandes expectativas de que o país poderia se “normalizar”. Isto é, existia a esperança de que a violência teria uma significativa redução devido à desmobilização e deposição de armas dos ex-guerrilheiros, que iniciariam seu processo de readaptação à sociedade. Junto com isso, os economistas calculavam que haveria uma expansão econômica, graças ao redirecionamento dos bilhões gastos pelo Estado colombiano nas forças armadas e no sistema policial, que seriam destinados a obras de infraestrutura, especialmente nas áreas do país que haviam sido controlados por mais de meio século pelas FARC. No entanto, esse otimismo foi a pique com o passar dos anos. 

No entanto, o otimismo que despontava desde 2016 em vários setores da sociedade escondia uma série de problemas que os diversos governos colombianos haviam empurrado com a barriga de forma permanente. Entre os problemas estão a enorme desigualdade social no país, a falta de punições explícitas e em grande volume dos integrantes dos diversos bandos (de esquerda e direita) que haviam protagonizado massacres, estupros, sequestros, torturas durante essas décadas, a falta de segurança das grandes comunidades indígenas, a grilagem de terras, e o frequente assassinato de líderes comunitários em áreas longe dos grandes centros urbanos. 

LEIA TAMBÉM: Lula sobre as eleições de 2022: “Estou de volta ao jogo, quero jogar, quero ganhar”

Três anos de convulsão social e uma pandemia

A onda de protestos populares que tomaram conta de diversos países sul-americanos em 2019 também teve seu capítulo colombiano. Mas, naquele ano, o presidente Ivan Duque conseguiu desativar as manifestações com negociações, fazendo promessas que paulatinamente foram deixadas de lado. Os protestos foram ressurgindo, mas de forma pontual.

No entanto, no ano passado, o país foi o cenário de uma nova explosão social, a maior de sua História. Por trás dessa crise estava a pandemia e a consequente crise econômica (na Colômbia o impacto social foi maior do que em outros países da América do Sul). 

A gota d’água foi o projeto de lei de reforma tributária do presidente Iván Duque, que implicava em aumentos de impostos, especialmente da criação do Imposto de Valor Agregado para serviços de 19%, além da ampliação da base de contribuintes. A irritação popular também escalou devido ao projeto de reforma do sistema de saúde, que implicaria na descentralização dos sistemas sanitários, deixando a responsabilidade para as províncias (isto é, o governo federal deixaria os problemas para os governadores e prefeitos).

O país ficou paralisado durante semanas. A Polícia matou dezenas de civis que protestavam e muitos outros estão desaparecidos. Centenas de feridos, vários dos quais ficaram cegos (ou parcialmente cegos) devido aos tiros que os policiais disparavam contra as caras dos manifestantes. De quebra, os comerciantes das áreas dos protestos também sofreram, já que diveros grupos aproveitaram a confusão geral para depredar e saquear lojas.

A repressão policial desatada por Duque na época fez que sua imagem popular, que já era ruim, despencasse. Também despencou a imagem do mentor político de Duque, o ex-presidente Alvaro Uribe, apologista da mão-de-ferro.

A ONU e a União Europeia condenaram o uso de força fora de proporções contra os manifestantes na Colômbia.

As manifestações também tiveram a participação de grupos de povos originários, qu exigem o fim das ações dos grileiros, além de pedir segurança perante a guerrilha de esquerda, os grupos paramilitares de direita e dos grupos narco-traficantes.

Em diversas cidades, nos últimos três anos, variados grupos de povos originários derrubaram estátuas de conquistadores espanhóis e reivindicaram a recuperação de seus lugares religiosos.

Fait divers 

Do total de eleitores, quase um milhão residem no exterior e estão habilitado para votar. Trata-se de um grupo nada desprezível, já que constituem 2,5% do eleitorado e podem ser cruciais em uma votação ajustada.  

A Colômbia tem uma das democracias mais antigas da América Latina. Na realidade, é a mais antiga na América do Sul, já que sua última ditadura militar, a do general Gustavo Rojas Pinilla, que durou quatro anos, foi encerrada em 1957. O general havia derrubado o presidente Laureano Gómez em 1953 com o argumento de acabar com período denominado de “La Violencia” (fase de confrontos com saraivada de mortes entre os principais partidos políticos do país). Nunca mais os militares voltaram à presidência da República.

Há poucos dias, o presidente Joe Biden oficializou a declaração da Colômbia como a nova aliada extra-OTAN dos Estados Unidos. Desta forma, a Colômbia poderá ter acesso a material bélico americano e terá privilégios nos trâmites de compra de tecnologia espacial. 

A Colômbia é a principal aliada militar de Washington na América do Sul pelo menos desde os anos 1980, colaboração que ficou ficou mais estreita nos anos 1990, com assessores militares enviados pelos Estados Unidos para o combate contra a guerrilha e os narcotraficantes. 

E isso não variou de acordo com os presidentes de plantão tanto na Casa Branca como na Casa de Nariño.

This post was last modified on maio 27, 2022 2:58 pm

Ariel Palacios

Journalist and LABS' columnist Ariel Palacios is a correspondent in Buenos Aires for the news channel GloboNews, for which he covers South America. Previously, he worked as a correspondent for the newspaper O Estado de S.Paulo and CBN and Eldorado's radio networks. Ariel graduated in 1987 from the State University of Londrina, Parana State, Brazil, and did the El País' Masters in Journalism in 1993.

Share
Published by
Ariel Palacios

Recent Posts

Revolução Pix: colaboração entre Banco Central e mercado financeiro foi crucial para pensar, criar e implementar Pix no Brasil

Parte do sucesso do Pix tem suas bases no alinhamento entre os objetivos do Banco…

junho 28, 2022

Revolução Pix: como o método de pagamento instantâneo criado no Brasil colocou o país na vanguarda da indústria global de pagamentos

Liderada pelo Banco Central, a criação do Pix é um exemplo de como a inovação…

junho 20, 2022

Time to market: a arte de ligar os pontos

O Time to Market tem sido um grande aliado das startups para atrair investidores, mas…

junho 19, 2022

Appmax cresce sete vezes ajudando clientes a vencer fraudes e “burocracia digital”

Empresa fundada em 2018 pelos irmãos Betina e Marcos Wecker viu número de sites usando…

junho 19, 2022

Tangerino by Sólides: a experiência de vender um negócio

Como duas empresas irmãs, mineiras e comprometidas com inovação se uniram para mudar o cenário…

junho 16, 2022