Matías Dajcz, CFO da Ripio. Foto: Ripio/Divulgação
Tecnologia

Startup Ripio acredita em criptomoedas como uma maneira de evitar a volatilidade do peso argentino

Ao LABS, o CFO Matías Dajcz disse que a startup viu o volume de operações triplicar em meio à pandemia

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Os argentinos têm procurado criptomoedas para se proteger da volatilidade de sua moeda, o peso. Foi nesse comportamento que a Ripio viu uma oportunidade de alavancar seus negócios. A startup argentina, que se define como “promotora da nova economia digital”, constrói produtos financeiros por meio do blockchain. 

A tensão econômica causada pela crise do novo coronavírus agravou a frágil situação fiscal da Argentina, fazendo o peso argentino cair ainda mais em relação ao dólar. Após anos de crise, inflação nas alturas e dívida externa descontrolada, o dólar é a única moeda que conta para os argentinos na hora de fazer uma transação importante, como a compra ou venda de um imóvel.

Nesse cenário, criptomoedas podem ser mais uma solução para que os argentinos se protejam da volatilidade da sua moeda. É nisso que acredita o CFO da Ripio, Matías Dajcz, cuja missão é convencer os argentinos de que a tecnologia pode ser tão confiável quanto o dólar. 

A empresa é uma das várias apostas de criptomoeda na América Latina, mas é a que mais cresce na região, segundo a própria startup. Além da Argentina, a empresa também opera no Brasil, México, Uruguai e Espanha. 

Matías Dajcz, CFO da Ripio. Foto: Ripio/Divulgação

“Temos atividades comerciais nos dois países (Brasil e Argentina) e uma das diferenças mais visíveis é que os argentinos podem ser definidos como ‘holders’, enquanto os brasileiros podem ser descritos como ‘traders'”, diz ele, se referindo ao mercado de câmbio de cripto.

Ripio traduzido do espanhol significa cascalho. “Como cascalho, abrimos novos caminhos”, diz a empresa, que quer incluir financeiramente os desbancarizados, o que na Argentina significa quase metade da população, de acordo com dados do Banco Mundial de 2017. 

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Após 22 anos trabalhando em bancos tradicionais, Dajcz está na Ripio há 2 anos e meio. A startup já fez quatro rodadas de investimento e levantou US$ 4,6 milhões. Foi lançada há sete anos como o primeiro processador de pagamentos com Bitcoin na América Latina, sob outro nomeo Bitpagos.

Hoje, a empresa oferece serviços de carteira digital, corretagem e crédito. A carteira digital permite que o usuário compre, venda, armazene e envie Bitcoin e outras criptomoedas. Ele pode abrir uma conta gratuita e fazer um depósito por transferência bancária ou MercadoPago para comprar ativos digitais, por exemplo. 

“Nosso principal produto é uma carteira digital projetada para os usuários que desejam comprar e armazenar criptomoedas, mas não necessariamente sabem ler o mercado ou negociar ativos de cripto. As principais opções são simples: depositar e sacar fundos (em moeda local) e comprar e vender cripto a um preço de mercado”, explica o CFO.

Como a criptomoeda pode ser um caminho na atual situação econômica da Argentina?

O problema da desvalorização da moeda argentina tornou-se um terreno fértil para criptomoedas no país. Atualmente, a Ripio possui 500 mil usuários. “Temos experimentado um grande aumento de usuários em nossas plataformas desde o início da pandemia,” disse Dajcz. 

Durante o segundo trimestre deste ano, a empresa experimentou alta imediata em suas operações e viu o volume total triplicar. “As pessoas estão procurando novas alternativas financeiras, principalmente na América Latina, e nós percebemos como as criptomoedas estão se aproximando lentamente da adoção em massa devido à situação atual,” explica ele. 

Para o CFO, agora é a hora certa de apostar em criptomoedas no país e também na América Latina.

No caso da Argentina, temos um longo histórico de altas taxas de inflação e longos períodos de desvalorização da moeda. Portanto, nos últimos anos, muitos argentinos começaram a dar os primeiros passos na criptoeconomia.

Matías Dajcz, CFO na Ripio.

A Argentina tem uma das maiores comunidades de criptomoeda do mundo e também é um pólo para o desenvolvimento de blockchain, diz Dajcz, acrescentando que isso está relacionado à crise econômica histórica acima mencionada. “Isso resultou em pessoas mais jovens, com idades entre 18 e 30 anos, caminhando em direção à criptomoeda, em vez das opções tradicionais de investimento”.

Segundo Dajcz, a maioria dos argentinos que entraram no mercado de criptomoedas para se protegerem da deflação costumavam comprar moeda estrangeira todos os meses e passaram a comprar ativos de criptomoedas lastreados no dólar americano, as chamadas stablecoins.

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Como atualmente a compra de moeda estrangeira é limitada no país, os usuários com experiência em cripto recorrem a stablecoins como USDC ou Dai como alternativa. Além do conhecido Bitcoin, a Dai e a USDC entraram no portfólio da empresa com a proposta de permanecer ancorados na moeda americana. Ou seja, efetivamente respaldado por um fundo composto por ativos tradicionais. 

As stablecoins são um tipo de criptomoeda que mantém um preço de mercado estável porque estão atreladas a um ativo tradicional, usando mecanismos diferentes (como reservas de dólares que apóiam os ativos de emissão de criptomoedas ou criptomoedas colaterais)

MATÍAs Dajcz, cfo da ripio.

No caso da moeda USDC, para cada moeda emitida, existe um dólar armazenado em uma conta bancária que é constantemente monitorada e auditada por diferentes agentes, como entidades financeiras e outras empresas do setor.

“Esses ativos de cripto ganharam muita popularidade porque os detentores de stablecoin não precisam se expor a ativos mais voláteis, como Bitcoin ou Ethereum. A maioria dos stablecoins atribui seu preço ao dólar, pois é a moeda fiduciária mais amplamente adotada no mundo”, explica Dajcz.

O Dai, por sua vez, é sustentado por outros ativos digitais, mas também busca garantir paridade com o dólar, usando outras criptomoedas (principalmente Ethereum ou ETH) como backup, por meio de um sistema colateral descentralizado. É por isso que também é chamado de ‘criptodólar’.