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Bolsonaro desponta como fator de risco para o pipeline de IPOs do Brasil

O recente confronto de Bolsonaro com o Supremo Tribunal Federal (STF) em meio a uma crise econômica levantou temores sobre as reformas esperadas para país e ameaça prejudicar os 25 IPOs que estão em espera

Em carta, empresários brasileiros repreendem as "aventuras autoritárias" de Bolsonaro
Foto: REUTERS/Adriano Machado
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A concorrência, a pandemia e a demanda setorial são desafios comuns às empresas que planejam realizar ofertas públicas iniciais (IPOs), mas as empresas brasileiras começaram a sinalizar um novo risco: uma convulsão política do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

A fabricante de cosméticos Coty e as unidades brasileiras da varejista Cencosud incluíram o risco de um impeachment presidencial em seus recentes prospectos de oferta, enquanto a distribuidora da Coca-Cola no Brasil, a Solar Bebidas SA, advertiu sobre a turbulência antes das eleições presidenciais de 2022.

O recente confronto de Bolsonaro com o Supremo Tribunal Federal (STF) em meio a uma crise econômica levantou temores sobre as reformas esperadas para país e ameaça prejudicar os 25 IPOs que estão em espera, que – somados às 44 listagens realizadas em 2021 até agora – quebraria o recorde brasileiro de IPOs.

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Na semana passada, Bolsonaro adotou um discurso mais ameno em relação ao STF, que autorizou investigações contra ele e seus aliados com base em alegações de que eles haviam atacado a instituição democrática do Brasil.

Mas o mercado questiona quanto tempo durará essa trégua. O benchmark da Bovespa caiu 2,9% este ano em termos de dólares americanos, um dos cinco índices globais em território negativo para o ano.

“As perspectivas para IPOs estão mais desafiadoras. Uma crise institucional potencial pode reduzir as chances de aprovação das reformas necessárias para impulsionar o crescimento da economia”, disse Gustavo Miranda, diretor de investimento do Santander Brasil.

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Mesmo antes das manifestações pró-Bolsonaro em 7 de setembro, as IPOs estavam enfrentando um momento mais difícil em meio a um crescimento econômico lento, altos índices de desemprego e uma crise hídrica severa que está pressionando os preços dos alimentos e da energia.

A cimenteira Intercement Brasil decidiu cancelar sua oferta de ações em julho, uma vez que os investidores ofereceram avaliações mais baixas, enquanto a produtora de alumínio Companhia Brasileira de Alumínio, entre outras, teve que reduzir seus preços de oferta para vender as ações.

“Temos aconselhado as empresas que estão planejando um IPO a estarem prontas caso as condições do mercado se recuperem nas próximas semanas”, disse Roderick Greenlees, chefe de investimentos do Itaú BBA, descartando o fechamento completo dos mercados para ofertas de ações.

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Até agora, neste mês, as duas únicas empresas que estão tentando concluir IPOs são a BlueFit e a farmacêutica Althaia, ambas com precificação prevista para a próxima semana.

Mau desempenho de IPOs afasta apetite de investidores

O mau desempenho dos IPOs também está afetando o apetite dos investidores por novas transações, disse Marcelo Millen, diretor de mercado de capitais do Citigroup no Brasil. Cerca de metade das empresas listadas nos últimos dois meses estão negociando abaixo de seus preços do IPO.

Os gestores de ativos, enfrentando uma escassez de dinheiro novo para investir em ações adicionais, estão especialmente exigentes. Os fundos de ações e hedge funds tiveram saídas líquidas em setembro, embora a maioria ainda mostre influxos para o ano.

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“Estamos olhando para novos IPOs com uma lupa porque esperamos mais volatilidade com a aproximação das eleições de 2022”, disse Sara Delfim, sócio-gerente da Dahlia Capital, acrescentando que alguns setores podem ser capazes de contornar a turbulência atual.

Empresas brasileiras que estão considerando fazer IPOs nos Estados Unidos, como o Nubank, a Conductor e a Hotmart, podem lidar melhor com a volatilidade das eleições, já que seu crescimento é menos dependente do ambiente macro-econômico e político.

(Traduzido por LABS)