Negócios

Startup que prevê falhas em equipamentos da indústria capta R$ 17 milhões

A startup de hardware bancada pelo Y Combinator agora tem a DGF no time de investidores e quer expandir seu hardware para a América Latina

Co-fundadores da Tractian, Igor Marinelli (CEO) e Gabriel Lameirinhas (COO). Foto: Divulgação/Tractian
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  • A Tractian faz hardwares com sensores de manutenção preditiva para máquinas da indústria;
  • A empresa quer expandir o time de 30 para 100 pessoas e iniciar a internacionalização.

A startup de hardware de manutenção preditiva Tractian anunciou que recebeu uma rodada Seed de US$ 3.2 milhões (cerca de R$ 17 milhões) liderada pela DGF Investimentos com participação do family office Citrino e de Cláudia Massei, CEO da Siemens em Omã.

Os co-fundadores da Tractian, Igor Marinelli (CEO) e Gabriel Lameirinhas (COO) fizeram engenharia de computação juntos. Marinelli finalizou a graduação na Universidade de Berkeley, na Califórnia, onde passou um ano. Lá, teve contato com startups de hardware para a indústria, setor com o qual ele é bem familiarizado: seu pai é coordenador de manutenção em uma indústria de papel no Chile. O pai de Lameirinhas também era da indústria, coordenador da InterCement, de cimentos. “Em vários churrascos a gente cultivava a ideia de trabalhar na indústria se não abríssemos uma startup juntos”, conta Marinelli, em entrevista ao LABS.

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Os dois amigos começaram a vida de empreendedorismo com uma startup de financiamento coletivo (crowdfunding) para doações em 2015, que não deu certo. Depois, fundaram uma startup para predição de doenças crônicas, a Blue AI, que existe até hoje, embora Marinelli e Lameirinhas tenham deixado a empresa. 

Marinelli foi então contratado como engenheiro de software para as equipes de manutenção da gigante industrial do papel Klabin. Foi aí que ele desenvolveu uma solução de “predições de doenças crônicas para máquinas” para a Klabin, o que daria origem à Tractian. A Klabin foi a primeira cliente da startup, em setembro de 2019, ou seja, antes mesmo de a Tractian ser criada oficialmente, o que ocorreu em janeiro do ano passado. 

Marinelli e Lameirinhas fundaram a Tractian com R$ 100 mil de capital próprio: venderam seus carros (um Honda Fiat e um Ford Fiesta) e acrescentaram R$ 40 mil de suas poupanças para colocar a empresa de pé. 

Rompendo contrato com o primeiro cliente para buscar independência 

“A maioria das startups que começam no setor industrial acreditam no conto de ‘a gente vai pagar para você construir seu produto’. E ficam refém dessa empresa. Na verdade, você não está construindo um produto para o mercado, você está resolvendo um problema interno dessa empresa”. Esse insight levou Marinelli a romper o contrato com a Klabin. “Tivemos de sangrar muito no começo. Tínhamos uma equipe de cinco pessoas, tivemos que colocar mais capital do nosso próprio bolso.”

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Em abril de 2020, a empresa quase ficou sem dinheiro. Mas o produto desenvolvido pela Tractian (um hardware com sensores de manutenção preditiva para máquinas da indústria) estava maduro e sendo testado, o que chamou a atenção de executivos da Volkswagen e da Stone, que acabram virando os primeiros investidores da startup

“Depois que eles entraram, a gente começou a tracionar, gerar receita de cliente. Até que, em janeiro deste ano, conseguimos nosso primeiro Seed da Y Combinator junto com outros fundos como a Norte Ventures do Brasil.”

Hoje, a startup monitora máquinas em pequenas e médias empresas até grandes indústrias, como a AbInBev, Embraer, Yara e Electrolux.

Uma startup de hardware à la brasileira 

O hardware da Tractian não é um produto final como um iPhone. Ele é um meio que permite que a startup adquira clientes rapidamente sem ter de integrar com todos os servidores da indústria, o que, segundo Marinelli, demoraria anos. 

Por meio dos sensores do hardware, a startup obtém os principais dados de manutenção preditiva dos equipamentos da indústria em sua plataforma. “Se as indústrias brasileiras tivessem sensores poderíamos integrar [nosso sistema] com esses sensores. Mas não faz sentido as empresas comprarem sensores de R$ 50 mil”, diz.

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A Tractian se apresenta como o starter pack de manutenção preditiva para indústria. As empresas contratam o serviço por R$ 9 mil por mês, recebem os sensores em uma caixa e os colocam nos equipamentos. As empresas têm acesso à plataforma da Tractian e conseguem visualizar quando as máquinas vão quebrar, por exemplo. 

“Quando o sensor chega na indústria é como se fôssemos uma empresa de SaaS. Fazemos videoconferências [para auxiliar no uso]. Mas antes do sensor chegar na indústria, é como se fôssemos a Apple. Temos nossos laboratórios de pesquisa, temos P&D para acelerar o desenvolvimento do hardware. O modelo de máquina precisa de muito recurso ou muito tempo. Só que a gente não tem muito tempo”. 

Com a rodada Seed, Marinelli pretende expandir o time de 30 para 100 pessoas, com contratações para a área de vendas. Para o desenvolvimento de hardware, o trabalho é presencial no escritório da Tractian na Vila Mariana, em São Paulo, mas as vagas para engenheiro de software são remotas. “Nossa ideia é sair de 45 indústrias que hoje usam nosso serviço para 600 e internacionalizar. Já temos testes rodando em outros países com nosso sensor como a Argélia, Estados Unidos, Argentina e Singapura.”